
Há algo de deliciosamente satisfatório em Devoradores de Estrelas como um hambúrguer suculento e cheio de molhos gordurosos que se come na praça de alimentação de shopping, acompanhado de uma bebida gasosa. Desde os primeiros planos, a câmera tem uma simbiose com seus protagonistas. Sem falar na fotografia tátil de Greig Fraser que transforma o vazio cósmico em matéria sensível, tingida por brilhos improváveis e silêncios que ecoam.
É um cinema que seduz pelos olhos, mas também pela delicadeza com que constrói o seu centro humano. O protagonista não é um herói clássico: é um homem comum, frágil, hesitante, que tropeça antes de avançar. E talvez seja justamente aí que o filme encontra sua força mais genuína. Poucos atores conquistam pelo carisma no cinema atual como Ryan Gosling.
Baseado no romance de 2021 de Andy Weir (Projeto Ave Maria, no original em inglês), o filme é estrelado por Gosling como o brilhante professor Ryland Grace, que acorda sozinho em uma nave espacial a anos-luz da Terra, sem se lembrar de como chegou lá. À medida que sua memória retorna, ele desvenda um plano mirabolante que o enviou através da galáxia para impedir que uma entidade misteriosa apague o Sol.
A beleza da amizade no fim de tudo
No coração da narrativa, a relação entre Grace e Rocky — criatura alienígena tão estranha quanto cativante — desloca o eixo da história. Certamente terá uma versão de plástico nas lojas de brinquedos, muito em breve. O apocalipse, curiosamente, vira pano de fundo para algo mais íntimo: a descoberta do outro.
Essa escolha narrativa produz momentos de raro encanto. A comunicação improvável, o aprendizado mútuo, o humor que emerge do desconhecido — tudo isso constrói uma fábula sensível sobre cooperação e empatia.
É nesse registro que o filme conquista o público. Ele não exige compreensão científica profunda, tampouco se ancora em tensões dramáticas extremas. Prefere, antes, convidar à identificação emocional.
Quando o universo encolhe

Mas é também aí que começam as fissuras.
Ao optar por esse tom leve — quase lúdico, ao ponto de garantir uma franquia de videogames — Devoradores de Estrelas simplifica de maneira radical as dimensões políticas do colapso que narra. A ameaça à vida na Terra surge como um fenômeno externo, descolado de qualquer responsabilidade histórica ou estrutural.
Não há conflitos reais entre nações, não há desigualdades globais, não há disputa por recursos. O planeta se unifica rapidamente sob uma liderança tecnocrática centralizada, como se a história pudesse ser suspensa diante da catástrofe.
O resultado é uma geopolítica higienizada, onde o Sul Global desaparece e as contradições do mundo concreto são dissolvidas em nome da fluidez narrativa.
O mito confortável do salvador
A figura de Grace reforça outro elemento recorrente: o mito do indivíduo extraordinário. Ainda que cercado por colaborações pontuais, é ele — o cientista (norte-americano) improvisado, o “homem comum” elevado à exceção — quem carrega o destino da humanidade.
Essa escolha não é neutra. Ela dialoga com uma tradição narrativa que privilegia soluções individuais em detrimento de processos coletivos, apagando o papel de instituições, movimentos sociais e decisões políticas complexas.
Em vez de um esforço global atravessado por tensões, o filme oferece uma jornada pessoal, emocionalmente eficaz — mas politicamente rarefeita.
Ciência como milagre, não como disputa
Outro traço evidente é o tecnosolucionismo. A ciência aparece como uma espécie de magia racional: engenhosa, improvisada, quase sempre suficiente.
O problema não está na celebração da inteligência humana, mas na ausência de mediações. Não há dilemas éticos profundos, nem disputas sobre prioridades, nem conflitos entre interesses econômicos e ambientais. A solução surge como um lampejo — não como resultado de processos históricos.
Num mundo atravessado por crises climáticas e guerras impulsionadas por potências globais, essa abordagem soa, no mínimo, confortável.
Um apocalipse para todas as idades

Há, por fim, uma escolha de tom que atravessa todo o filme: a domesticação do fim do mundo.
Apesar da premissa catastrófica, Devoradores de Estrelas evita o desespero. Prefere o humor, a leveza, a esperança constante. É um apocalipse sem angústia real — calibrado para não afastar o público, especialmente o mais infantil. Basta saber que um dos protagonistas, Rocky – o extraterrestre, é uma simpática marionete. Isso, no mesmo momento em que a voz da pequena palestina Hind Rajab ainda ecoa distopia pelos cinemas.
Essa suavização tem função clara: ampliar o alcance comercial. Ao tornar a narrativa mais acessível, o filme também a torna menos incisiva, assim como a trilha sonora leva comicidade ao vácuo sinistro do espaço. O desastre deixa de ser uma experiência política e existencial complexa para se tornar um cenário de aventura.
Entre o encanto e a evasão
Devoradores de Estrelas é, sem dúvida, uma obra envolvente. Sua estética é deslumbrante, seus personagens são carismáticos e sua narrativa flui com habilidade.
Mas, ao escolher o conforto em vez do conflito, o filme transforma o apocalipse em fábula — e a política em ruído de fundo. No fim, o que poderia ser uma reflexão sobre o mundo que construímos se torna uma história sobre como escapar dele, ainda que por algumas horas, sob a luz suave das estrelas.
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