Notícias

Os passos firmes de quem marcha

Bandeiras da União da Juventude Rebelião na marcha dos em defesa da vida, dos direitos e contra o fascimos (Foto: Arthur Rodrigues, Jornal A Verdade)

O Jornal A Verdade publica mais uma crônica enviada pelos trabalhadores, operários, estudantes, leitores, brigadistas e redatores do nosso Jornal espalhados por todo o país em todo o país.

Lucas Marcelino – São Paulo


Crônica – A humanidade surgiu através do trabalho; se transformou e consolidou quando aprendeu a andar sobre dois pés. Desde então ela caminha. E durante milênios fomos nômades, andando e se espalhando pelo mundo. Quem vinha na frente abrindo e amaciando o caminho entre dúvidas e feras para quem vem atrás poder firmar e até desfrutar dos trajetos conhecidos da história.

Mas tudo parece muito superficial e genérico quando é a humanidade que caminha, sua trilha é vacilante pelos trajetos mais fáceis. Diferente é quando os trabalhadores caminham e mais do que caminhar, nós, trabalhadores e trabalhadoras, marchamos! Marchamos pelos terrenos mais áridos, firmes sobre esses dois pés.

Que diferença entre o caminhar dos escravos carregando os patrícios romanos nas liteiras e a marcha do exército de Espártaco e Varínia contra as legiões romanas.

Que diferença entre o caminhar dos cavaleiros das cruzadas para exterminar povos por causa da religião e a marcha do Exército Vermelho até Berlim para libertar a humanidade do nazismo.

Que diferença entre o caminhar dos presidentes da república na rampa do Palácio do Planalto e a marcha da juventude, dos estudantes, das mulheres, do povo até o Palácio dos Bandeirantes no dia 20 de maio.

Marcha em defesa da educação que repetiu os trajetos das Jornadas de Junho de 2013, quando marchamos contra os aumentos das passagens. Marchas longas sobre asfalto quente ou debaixo de chuva entre horríveis prédios espelhados. Marchas que acontecem porque somos ignorados e subestimados por quem caminha sobre tapetes macios, debaixo de tetos seguros entre paredes cobertas de obras de arte.

Nossas marchas encontram sempre um muro de concreto ou de escudos e cavalos da Tropa de Choque. A mando dos ricos, os governantes acham que acabou nosso trajeto. Mas quando um muro separa uma ponte une.

Pontes de concreto, de braços e de solidariedade por onde trafega a coragem que sempre está escondida no peito de alguns e ardendo na pele de outras. Esta coragem faz que nenhum muro seja capaz de impedir a marcha da história de prosseguir.

Quando a Europa dominou o mundo com sua única forma que conhece de ser grande – afundando o mundo nas trevas com aumento da violência e atraso na consciência – os povos árabes, africanos e indígenas da América protegeram e humanidade e garantiram que a ciência continuasse iluminando o caminho.

Desde que existem ricos e pobres, os primeiros trancafiam os melhores entre os segundos. Na esperança que o progresso pare com medo seguir no escuro, prendem aqueles que ousam carregar a chama do futuro. Mas não podem isolar a força da criação humana que sempre encontra novos caminhos.

Colocaram Galileu em prisão domiciliar para que ninguém soubesse que a Terra não é o centro do universo, mas um discípulo levou seus livros para serem publicados na Holanda; mandaram Lênin para o exílio na Sibéria para que o povo não se rebelasse contra o czar e seus manifestos viajavam escritos com leite entre as linhas dos livros que entravam e saíam da prisão. Colocaram Julius Fucik em uma cela, semimorto após torturas para que os tchecos não expulsassem os nazistas, mas seus relatos escapavam escondidos nas roupas dos carcereiros da prisão de Pankrác. Enviaram Olga Benario do Brasil para os campos de concentração de Hitler para que o povo brasileiro não derrubasse o Estado Novo, uma carta sua move mulheres a lutarem pelo bom, pelo justo e pelo melhor do mundo. Cercam e bombardeiam os palestinos em Gaza e, por isso, milhões de corações se movem em flotilhas e passeatas ao redor do mundo.

Passeatas, caminhadas e marchas começam sempre com o primeiro passo, mas ele já foi dado há muito tempo e os povos estão exaustos de não poderem parar, descansar, admirar e desfrutar do mundo que construíram nesse tempo.

Desde então seguimos. Mas o caminho se faz andando e o passo mais importante é sempre o próximo passo.

Vamos embora, que esperar não é saber. E que saibam todos e todas, que a gente ainda nem começou. E nossos próximos passos não serão passos arrastados de quem está cansado de carregar os céus nas costas como Atlas.

Serão passos firmes de quem marcha. Com os calcanhares bem postados, com as pernas firmes, com o tronco ereto e a cabeça erguida, com os braços prontos para segurar nossas bandeiras, para manipularem as armas que derrubarão os muros que protegem os ricos e para arrancar dos tronos os atuais imperadores.

Braços que estarão prontos para serem erguidos na comemoração da vitória.

Braços e abraços que entrelaçarão cada irmão e irmã trabalhadora formando a corrente do povo rumo ao futuro.