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Direita transforma crise da violência em agenda de poder na América Latina

Em uma região marcada pela desigualdade, por crises institucionais e pelo avanço do narcotráfico, a segurança pública consolidou-se como o principal discurso eleitoral da direita na América Latina.

É o que aponta a eleição, neste domingo (1), de Laura Fernández na Costa Rica, cuja campanha foi centrada no combate ao narcotráfico e no endurecimento penal diante do aumento dos homicídios no país.

“O anseio que tenho é ter uma ampla maioria na Assembleia Legislativa para que possamos colocar esses desgraçados na cadeia”, disse a então candidata conservadora e liberal da Costa Rica, Laura Fernández.
O movimento tem sido acompanhado, em países como El Salvador e Equador, de concentração de poder e ampliação das prerrogativas do Executivo.

Na Costa Rica, a centralidade do tema da segurança se traduziu nas urnas. Laura Fernández venceu a eleição em primeiro turno, neste domingo (1º), ao obter 48,3% dos votos, superando o candidato do Partido da Libertação Nacional (PLN), Álvaro Ramos, que ficou com cerca de 34%.

No Legislativo, o Partido Pueblo Soberano (PPSO), da presidente eleita, saltou de 8 para 31 das 57 cadeiras na Assembleia Legislativa, formando a maior bancada desde 1982. A maioria absoluta não qualificada permite ao governo aprovar leis ordinárias e definir o ritmo da agenda parlamentar.

Durante a campanha, Fernández manifestou admiração pelo modelo de segurança implementado por Nayib Bukele em El Salvador e defendeu mudanças institucionais para “destravar” o sistema de Justiça, argumento recorrente também no discurso do atual presidente, Rodrigo Chaves.

A presidente eleita Fernández afirma que o objetivo é “tirar de circulação criminosos que estão identificados, em que bairro vivem e como se movem”.

O avanço dessa agenda ocorre em meio à deterioração dos indicadores de violência. Nos últimos anos, a Costa Rica registrou recordes de homicídios ligados ao narcotráfico, impulsionados pela consolidação do país como rota estratégica entre a América do Sul, os Estados Unidos e a Europa.

A expansão de grupos criminosos com atuação transnacional alterou o cenário de segurança de um país historicamente visto como exceção pacífica na América Central.

O recrudescimento da violência tornou-se o eixo estruturante da disputa política e abriu espaço para propostas que extrapolam o campo penal. Ao defender o levantamento de garantias e mudanças nas regras institucionais, Fernández insere o debate costarriquenho em uma agenda que associa combate ao crime à ampliação de poderes do Executivo e à revisão dos mecanismos de controle sobre o Estado.

Esse deslocamento não ocorre no vazio. A combinação entre discurso de “mão dura”, maioria legislativa e promessa de reformas profundas aproxima a experiência costarriquenha de um modelo já consolidado na região, no qual a excepcionalidade jurídica deixa de ser medida transitória e passa a integrar o funcionamento regular do governo.

É nesse ponto que o espelho deixa de ser apenas retórico. O referencial explícito é o de El Salvador sob a liderança de Nayib Bukele, onde o combate às gangues foi acompanhado pela suspensão prolongada de garantias constitucionais, reconfiguração do Judiciário e concentração de poder no Executivo.

Em El Salvador, um espelho

Em El Salvador, o chamado “modelo Bukele” foi estruturado a partir da decretação de um regime de exceção em 2022, renovado sucessivas vezes e transformado em instrumento permanente de política de segurança.

A medida suspendeu garantias constitucionais, ampliou o prazo de detenções sem ordem judicial e permitiu prisões em massa sob a justificativa de combate às gangues.

Desde então, mais de 70 mil pessoas foram detidas, segundo dados oficiais, em uma ofensiva que reduziu drasticamente os homicídios, mas alterou de forma significativa o equilíbrio entre os poderes.
Organizações de direitos humanos nacionais e internacionais, como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional, documentaram denúncias de detenções arbitrárias, falta de acesso à defesa, mortes sob custódia e maus-tratos em presídios superlotados.
O governo salvadorenho rejeita as acusações e sustenta que as medidas foram necessárias para recuperar o controle territorial e garantir a segurança da população.
Paralelamente, o Executivo consolidou influência sobre outras instituições. A substituição de magistrados da Suprema Corte, a destituição do procurador-geral e a reinterpretação constitucional que permitiu a reeleição imediata de Nayib Bukele foram apontadas por críticos como parte de um processo de concentração de poder.
É esse arranjo — combinação entre queda da violência, excepcionalidade jurídica prolongada e fortalecimento do Executivo — que passou a servir de referência para setores da direita em outros países da região.
No Equador, a segurança como eixo de reorganização do poder

O caso do Equador apresenta uma dinâmica parecida. A escalada da violência nos últimos anos — com explosão das taxas de homicídio e sucessivas crises no sistema penitenciário — transformou o país em um dos epicentros regionais do narcotráfico.

A deterioração do cenário de segurança abriu espaço para uma agenda centrada na militarização e no discurso de “guerra interna”.

Sob o governo de Daniel Noboa, foi declarado “conflito armado interno”, classificando organizações criminosas como grupos terroristas e autorizando o emprego das Forças Armadas em operações de segurança pública.

A medida ampliou o papel militar em funções tradicionalmente civis e reforçou os poderes emergenciais do Executivo diante do Congresso.

Embora o contexto equatoriano seja marcado por crise aguda e fragmentação política, analistas apontam que a incorporação de instrumentos excepcionais ao cotidiano institucional altera o equilíbrio entre os poderes.

A justificativa do combate ao crime passa a sustentar mudanças estruturais na arquitetura do Estado, aproximando o país de uma tendência regional em que a segurança pública deixa de ser apenas política setorial e se converte em eixo organizador do poder.

Honduras e a centralidade do discurso securitário

Em Honduras, sob a presidência de Nasry Asfura, da direita conservadora, a retórica de endurecimento também ganhou centralidade no cenário político.

Diante da persistência do crime organizado e das redes de narcotráfico, governos recentes recorreram à militarização da segurança interna e à ampliação de estados de exceção localizados.

Embora o arranjo institucional hondurenho não tenha alcançado o grau de reorganização observado em El Salvador, a incorporação de instrumentos extraordinários ao cotidiano da política reforça a tendência regional de associar estabilidade à ampliação da autoridade executiva.

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