
A Defesa Civil de São Paulo iniciou a demolição de cinco imóveis que foram interditados de forma definitiva após a explosão no bairro do Jaguaré, na zona oeste da capital, nesta sexta-feira (15). A explosão ocorreu na segunda-feira (11), após uma obra da Sabesp atingir uma tubulação da Comgás e provocar um vazamento de gás. A ocorrência resultou em duas mortes, feridos e na interdição de 32 residências.
Acompanhe o relato dos moradores do Jaguaré, sobre o ocorrido, aos militantes e brigadistas que prestavam sua solidariedade no local.
João Pedroso e Beatriz Sacagni | São Paulo
BRASIL – Por volta das 11 da manhã daquela segunda-feira. Funcionários da Sabesp realizavam uma obra na Rua Piraúba quando, sem supervisão técnica ou acompanhamento da Comgás, perfuraram o encanamento de gás no corredor que dava acesso a diversas casas.

Segundo moradores, após a perfuração, os trabalhadores da Sabesp passaram cerca de duas horas e meia tentando conter o vazamento de forma improvisada sem acionar a empresa responsável pelos dutos, restando aos próprios moradores ligar para a Comgás.
Perto das 13h30, os trabalhadores começaram a recolher o maquinário e a se afastar do local. Questionados pela vizinhança sobre o forte odor que se espalhava, os funcionários da empresa minimizaram: “Não há risco de explosão. É só não acender cigarro, luz ou isqueiro”.
“Foi avisado com antecedência que tinha cheiro de gás… A empresa, Comgás, falou que era pra ficar tranquilo que não estava acontecendo nada. Cerca de minutos depois houve a explosão”.

“As horas que se seguiram foram sufocantes. O cheiro invadia todas as casas em um raio de 100 metros, causando mal-estar, tontura e intoxicação em quem inalava gás, já por 4 horas seguidas”, relatou Carol, moradora do bairro.
Às 16h12 a vida de muitos mudaria para sempre. A explosão.
“A sensação de uma bomba detonada ao seu lado, o empuxo do ar, seguido de uma onda de estilhaços, poeira branca, deslocamento de ar brutal e escombros caindo por todos lados. O silêncio de dois segundos que parecem eternos, seguido de alarmes disparados, choro de crianças, pedidos de socorro. A vida que nunca mais será a mesma” continua Carol.

“Quando eu senti o cheiro de gás, tirei meus filhos e minha mulher de casa. Quando estava na rua eu vi a exploração. Todo mundo gritou e correu. Foi uma loucura”. Antônio Carlos, morador da rua Floresto Bandecchi.
Vítimas fatais dormiam em casa
O impacto destruiu imóveis e confirmou, até o momento, duas mortes, além de deixar feridos graves. Uma das vítimas fatais foi Alex Sandro Fernandes, trabalhava vigilante. “O Alex, ele morreu dormindo, ele era um trabalhador noturno” disse um morador ao jornal A Verdade.

Outra vítima foi Francisco, conhecido na vizinhança como Bodenga, que costumava passar o dia fora, mas descansava em casa naquele momento.
“Nenhum funcionário da Sabesp orientou a evacuação dos moradores para uma distância segura. Nenhum protocolo de segurança foi apresentado ou seguido. 5 horas. Este foi o tempo em que engasgamos com gás, pedimos ajuda sem receber socorro, e fomos deixados para morrer. Duas pessoas perderam a vida. Por 15 minutos a mais teríamos recolhido os corpos das nossas crianças no meio dos escombros. Por duas horas a mais estaríamos todos debaixo dos escombros.”


O clima no bairro é de desespero. Militantes e brigadistas que prestam solidariedade no local relatam encontrar moradores em estado de choque, chorando e sem condições emocionais de dar depoimentos. “Muitos dizem que não vão conseguir dormir nunca mais”, relata um dos apoiadores.
Paralisia institucional e laudos “no palpite”
No local do desastre, o que se vê é um jogo de empurra entre as empresas. “Você ouve engenheiro da Sabesp falando mal de engenheiro da Comgás. Eles jogam a responsabilidade um para o outro”, denunciam os moradores.
A atuação da Defesa Civil também é alvo de duras críticas. Um funcionário da Sabesp, que preferiu não se identificar, admitiu que é impossível avaliar a extensão dos danos estruturais nas casas sem maquinário específico para examinar as fundações. Mesmo assim, a Defesa Civil é acusada de atuar sem laudos técnicos detalhados, liberando ou condenando imóveis com base em “palpites”. Moradores relatam que receberam instruções absurdas de profissionais da prefeitura, como “sair correndo à noite com crianças e idosos se ouvirem qualquer barulho de vibração”.

Diante disso, Alexandre, um dos moradores da comunidade, organizou uma linha de frente para impedir que as famílias retornassem às pressas para suas casas sem a documentação oficial de interdição. Ele percebeu a armadilha: se aceitassem a liberação apenas verbal dos técnicos, os moradores perderiam o direito aos auxílios de alimentação e moradia, mesmo sem qualquer segurança real para voltar.
Resposta desumana e forte aparato policial
A assistência oferecida pelo Estado e pelas empresas tem sido classificada como paliativa e cruel. Famílias desabrigadas foram enviadas para hotéis minúsculos e distantes do bairro, sem estrutura para o preparo de refeições. Há casos críticos de pessoas com diabetes cujas medicações exigem refrigeração, mas os hotéis não possuem frigobar, e a orientação recebida foi buscar postos de saúde que sequer têm o remédio disponível.
A prefeitura distribuiu valores entre R$ 5 mil e R$ 10 mil para “apaziguar” os ânimos, mas os moradores afirmam que a quantia não cobre as despesas básicas de famílias que perderam tudo e estão sem estrutura psicológica. Além disso, as ofertas de transferência para conjuntos do CDHU na Rodovia Raposo Tavares são vistas como uma tentativa de expulsar a população de seu bairro de origem.

Para completar o cenário de abandono, a Guarda Civil Metropolitana (GCM) e a Polícia Militar mantêm uma forte presença na área. A vizinhança aponta que o aparato policial serve para vigiar os moradores e intimidar a imprensa, dificultando o trabalho de denúncia e o registro das violações que a comunidade continua sofrendo.
“Queremos respostas e justiça pelos companheiros Alex Sandro e Francisco, que injustamente perderam a vida em uma ação omissa e covarde da SABESP e seus terceirizados.” disse Carol “Por que fomos submetidos a tamanho descaso? Por que fomos abandonados para intoxicar e morrer? Por que a SABESP segue tentando omitir o tamanho dos danos e de casas condenadas? Por que famílias ainda seguem em local de risco? Por que a SABESP mente ao Ministério Público? Por quê? Por quê?”