Neste domingo (31/05), 41,4 milhões de colombianos, dentro e fora do país, vão às urnas para escolher o sucessor do presidente Gustavo Petro para o período 2026–2030. A direita colombiana, dividida entre a tradição colonial representada por Paloma Valencia; e a ultradireita emergente de Abelardo de la Espriella, buscam uma vaga no segundo turno.
A esquerda, representada pelo senador Iván Cepeda (Pacto Histórico), lidera as intenções de voto com 44,6%, seguido pelo advogado De la Espriella, com 31,6%; e pela ex-senadora, com 14%, segundo pesquisa Invamer, divulgada em 22 de maio – outras pesquisas mostram candidatura da ultradireita crescendo na reta final e ameaçando o governista.
Egressos de famílias abastadas e atuantes na política, ambos os candidatos chegam à reta final da campanha defendendo a mesma agenda neoliberal, com política “linha dura” na segurança, maior alinhamento com Washington e fim dos acordos de paz com os grupos armados.
Ambos também são próximos do ex-presidente Álvaro Uribe (2002-2010), Valencia à frente, como sua principal herdeira; e De la Espriella pelo histórico de serviços prestados na defesa jurídica do ex-presidente.
É na retórica, no entanto, que a diferença se faz notar. Enquanto a candidata do Centro Democrático segue os modos do establishment conservador, exibindo oito anos de senado; o advogado, sem qualquer experiência na administração pública, evoca a retórica distópica da ultradireita emergente no continente, apostando na estética radical e de confronto permanente.
Abelardo de la Espriella, o outsider
Entender quem é Abelardo de la Espriella Otero passa por uma visita em redes sociais. “El Tigre”, como é chamado por seus apoiadores, comemorou a visita recente do senador Flávio Bolsonaro ao presidente Donald Trump.
“Falta muito pouco para que estabeleçamos uma frente comum contra a esquerda radical. A região continuará se recuperando. Nossas vitórias continuarão se multiplicando. Firme por uma região que segue crescendo! Firme pela Pátria!”, escreveu.
“Firme pela Pátria” é o jargão deste admirador declarado de Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele, Giorgia Meloni e Álvaro Uribe. Embora se apresente como um completo outsider, De la Espriella é filho de um político conservador e influente de Córdoba, o ex-magistrado Abelardo de la Espriella Juris, que chegou a disputar o governo do departamento colombiano nos anos 90 e permaneceu próximo ao campo uribista.
Aos 24 anos, De la Espriella criou o escritório De la Espriella Lawyers, que viria a se tornar uma das mais conhecidas bancas de advocacia criminal da Colômbia e hoje possui sedes no país e em Miami, nos Estados Unidos. Paralelamente à carreira jurídica, lançou livros, gravou discos, criou marcas de roupas, bebidas e café e participou de negócios imobiliários, construindo a imagem pública de um “empresário de sucesso”.
Casos defendidos
Ele tornou-se conhecido nacionalmente por atuar em casos judiciais de grande repercussão. Além de Uribe, De la Espriella foi advogado do empresário colombiano Alex Saab, recentemente deportado para os Estados Unidos pelo governo venezuelano. Outro cliente famoso do advogado foi David Murcia Guzmán, criador da DMG, considerada a maior pirâmide financeira da história colombiana.
De la Espriella também representou integrantes de grupos paramilitares, como Salvatore Mancuso, ex-comandante das Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC); e o policial do Esquadrão Móvel Antidistúrbios (ESMAD), Manuel Cubillos Rodríguez, processado pela morte do estudante Dilan Cruz, de 18 anos, durante as manifestações realizadas em novembro de 2019 contra o governo do uribista Iván Duque (2018-2022).
Ao mesmo tempo, ele ganhou notoriedade positiva ao atuar em processos ligados a feminicídios e ataques com ácido contra mulheres. Ele também participou da Fundação Iniciativas para a Paz (Fipaz), criada durante as negociações entre o governo colombiano e as AUC, que foram citada, anos depois, no escândalo sobre a infiltração de estruturas paramilitares em setores da política colombiana durante os anos 2000.
Megapresídios
De la Espriella entrou para a política por meio do movimento Defensores da Pátria, com apoio de setores conservadores, religiosos e empresariais. Seu vice de chapa é José Manuel Restrepo, economista e ex-ministro do Comércio e da Fazenda do governo de Iván Duque.
Sua campanha eleitoral aposta na retórica “linha dura” na segurança e no neoliberalismo econômico. Aos moldes de Javier Milei na Argentina e Nayib Bukele em El Salvador, ele defende redução do Estado, fortalecimento das Forças Armadas, encarceramento em massa e política de alinhamento com Washington.
Entre suas promessas de campanha estão a construção de dez megapresídios de segurança máxima, a ampliação do aparato de inteligência, o aumento das penas para crimes graves e o encerramento da política de “Paz Total” implementada pelo governo Petro. “No meu governo não haverá processos de paz. Criminosos que não se submeterem serão eliminados, conforme permitido por lei”, afirma.
Na economia, a defesa é da forte participação do setor privado, modernização tecnológica, crescimento econômico acelerado em torno de um projeto intitulado “Pátria Milagrosa”, que visa um crescimento de 7% do PIB ao ano, incluindo a expansão dos setores de petróleo, gás, mineração e da infraestrutura.
De la Espriella é um defensor da flexibilização regulatória, da reforma do sistema tributário e do uso de inteligência artificial para supostamente reduzir a evasão fiscal. Também propõe a fusão de ministérios, cortes profundos em gastos públicos e uma ampla revisão do papel do Estado na economia.
Na educação, promete criar a Universidade Virtual em Casa, ampliar a conectividade digital e distribuir computadores. Na saúde, propõe reforçar o atendimento domiciliar e melhorar o acesso da população a medicamentos, exames e tratamentos especializados.
‘Contrarrevolução cultural’
No campo das distopias ideológicas da ultradireita, o advogado afirma fazer parte de uma “contrarrevolução cultural” internacional. Diz que irá “retirar a ideologia de gênero das salas de aula” e apresenta-se como defensor dos valores judaico-cristãos, da família tradicional e contrário às políticas de diversidade e educação sexual.
É também contra a ampliação do direito ao aborto, do direito à eutanásia e da adoção de crianças por casais do mesmo sexo. “Crianças devem crescer com pai e mãe”, afirmou.
Adotando a retórica, não menos distópica, do “macho alfa”, ele chegou a dizer, durante o programa de rádio local Piso 8, que havia conquistado muitos votos femininos por causa do tamanho de seus genitais. Na ocasião, pediu à repórter presente que ampliasse uma fotografia que os destacava. Dias depois, chamou uma jornalista veterana de “ignorante” durante uma entrevista.
Os episódios geraram críticas da Fundação para a Liberdade de Imprensa (Flip, por sua sigla em espanhol), que junto à Sociedade Interamericana de Imprensa já havia manifestado preocupação após ele anunciar ações judiciais contra jornalistas que investigavam sua antiga relação profissional com Alex Saab.
Outra polêmica surgiu quando ele propôs a criação de um mecanismo pelo qual integrantes do narcotráfico poderiam entregar a maior parte de seus recursos ilícitos ao Estado e receber benefícios judiciais. “Por que não legalizar 10% dos capitais ilegais que hoje estão na Colômbia provenientes do narcotráfico, da mineração ilegal e de toda sorte de crimes?”, questionou.
Nas redes sociais, De la Espriella desenvolveu uma campanha agressiva, publicando mensagens enigmáticas, amplificadas por seus apoiadores, afirmando possuir informações capazes de provocar “um enorme escândalo” envolvendo campanhas rivais, mas sem apresentar provas públicas.
Outro elemento marcante de sua campanha eleitoral é a adoção do nome “El Tigre” em materiais eleitorais, discursos e redes sociais.

X Paloma Valencia e Abelardo de la Espriella
Paloma Valencia: a herdeira de Uribe
A senadora Paloma Valencia, em terceiro lugar nas pesquisas, disputa a Presidência da Colômbia pela legenda Centro Democrático, fundada pelo ex-presidente Álvaro Uribe, tendo como vice Juan Daniel Oviedo, ex-diretor do Departamento Administrativo Nacional Estatístico (DANE, o IBGE colombiano).
Sua trajetória eleitoral começa em 2006, quando concorreu, sem sucesso, a uma cadeira na Câmara dos Representantes por Bogotá pelo movimento Alas Equipo Colômbia. Posteriormente, se aproximou do Centro Democrático, tornando-se uma das principais lideranças da legenda.
Eleita e reeleita senadora (2014 a 2022), Valencia se tornou uma das maiores opositoras do governo Petro e sua candidatura ganhou força, em março de 2026, ao vencer as prévias partidárias com mais de 3,2 milhões de votos, capitalizando o apoio de Uribe.
Massacres
Entre 2002 e 2010, o governo Uribe conduziu uma política de segurança de linha dura contra grupos armados, especialmente as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).
Acusado em distintos processos de suborno, fraude processual e coação de testemunhas, ele chegou a ser condenado à prisão domiciliar em julho de 2025, mas recorreu da decisão e obteve sua libertação provisória em agosto. Em outubro do mesmo ano, uma instância superior anulou a condenação relacionada ao crime de suborno.
Uribe também é associado a crime de Estado, em um dos episódios mais graves da história recente da Colômbia. Investigações da Jurisdição Especial para a Paz (JEP) apontam mais de 7,8 mil vítimas civis assassinadas durante seu governo. Os corpos eram apresentados como o de guerrilheiros abatidos em combate, visando aumentar os resultados operacionais. Em outubro de 2023, sob o governo Petro, o Exército pediu perdão às vítimas.
Uribe alega que todas as acusações contra ele são perseguição política. Valencia chegou mencionar a possibilidade nomeá-lo como ministro da Defesa. “Não vou me distanciar de Uribe; vou morrer uribista”, disse em entrevista ao diário espanhol El País.
Contrária ao acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC, firmado em 2016 pelo então presidente Juan Manuel Santos (2010-2018), a advogada é uma opositora do JEP, um tribunal criado após as negociações de paz, que ela acusa de ser excessivamente rigoroso com as Forças Armadas.
Após a divulgação do relatório final da Comissão da Verdade, em 2022, a senadora chegou a afirmar que “o Estado cometeu erros e atrocidades, mas era legítimo. Os criminosos das FARC nunca tiveram legitimidade”.
Tradição colonial
Sua candidatura representa os valores e interesses das elites tradicionais do país. Diferentes gerações da sua família fizeram parte da política colombiana, acumulando riqueza e grandes propriedades rurais desde os tempos coloniais, realizando atividades mineradoras que utilizaram trabalho escravizado.
Seu avô, Guillermo León Valencia, foi presidente da Colômbia (1962-1966) e implementou, em cooperação com os Estados Unidos, o Plano Lazo, voltado à perseguição de comunistas e movimentos insurgentes. Lançado em 1964, o projeto culminou na Operação Marquetalia, que massacrou a comunidades camponesas, em episódio considerado por muitos historiadores como responsável pela criação das FARC, em 1966.
Corroborando a tradição familiar e a prática uribista, Valencia é uma opositora da política de “Paz Total” adotada pelo governo Petro. “A política de paz total termina comigo; a segurança total começará”, afirmou à Reuters, ao defender uma maior cooperação militar entre Bogotá e Washington e a entrada do país na iniciativa Escudo das Américas.
Linha dura
Após os ataques recentes dos grupos de narcotráfico, ela afirmou que sua primeira decisão como presidente será militarizar a Via Pan-Americana. “Não vamos permitir mais um sequestro nas estradas do sudoeste colombiano. A Colômbia precisa recuperar a autoridade, a segurança e a liberdade para transitar sem medo”, postou nas redes sociais.
Seu programa de governo prevê um aumento de 60 mil integrantes às forças de segurança do país, um investimento de 20 trilhões de pesos colombianos (cerca de R$ 27 bilhões) no setor e a elevação dos gastos no setor a 4% do PIB.
Ela também defende a retomada da pulverização aérea de plantações de coca com glifosato, prática suspensa na Colômbia desde 2015. Organizações camponesas, indígenas e ambientalistas alertam que esse tipo de ação afeta as populações rurais, contamina cultivos legais e não resolve as causas estruturais da produção de coca. De la Espriella também é defensor dessa proposta.
Vale destacar que folha da coca é cultivada há milhares de anos pelos povos andinos e sua produção é legal, usada em chás, práticas medicinais e práticas culturais, sendo distinta do processamento químico da planta, visando a produção da cocaína.
Agenda neoliberal
Em relação à pauta econômica, sua agenda é essencialmente neoliberal, incluindo a redução da carga tributária sobre empresas, eliminação de impostos sobre grandes patrimônios e ampliação dos investimentos privados.
Embora mencione proteção ambiental, o programa prevê a expansão da exploração de combustíveis fósseis, incluindo petróleo, gás e carvão, além da exploração de terras raras. Segundo a candidata, o crescimento desses setores geraria cerca de 30 trilhões de pesos colombianos para financiar programas sociais. Sua meta é alcançar um crescimento econômico de 5% ao ano e transformar a Colômbia em um destino prioritário para investimentos estrangeiros.
Valencia busca estreitar o diálogo com o eleitorado feminino. “Escolher a primeira mulher presidente não é um tema menor: é o início de uma Colômbia com mais equidade”, afirmou nas redes sociais.
Ela afirma não se considerar feminista e rejeita a definição do aborto como um direito. Sua campanha promete programas de apoio a mães solteiras, combate à violência doméstica, ampliação de creches e flexibilização das jornadas de trabalho.
Na área da saúde, propõe um plano emergencial para os primeiros 100 dias de governo. Na educação, defende a criação de 150 mil vouchers educacionais para estudantes vulneráveis, 187 mil vagas gratuitas em escolas particulares, a construção de dez escolas públicas de excelência e um plano voltado à formação tecnológica.
Em 2018, a candidata uribista enfrentou resistência de estudantes e reitores ao sugerir que graduados de universidades públicas passassem a contribuir financeiramente após concluírem seus cursos. Agora, ela propõe a reformulação dos empréstimos estudantis para que eles sejam pagos após a obtenção de emprego e de acordo com a renda dos estudantes.
Polêmicas
Sua trajetória política também é marcada por controvérsias. Em 2015, Valencia propôs um referendo para dividir o departamento de Cauca em dois territórios distintos: um indígena e outro destinado à população mestiça, sendo amplamente criticada e taxada como segregacionista.
Três anos depois, durante a campanha de 2018, ela divulgou um vídeo, fora de contexto, mas explosivo em ano eleitoral, de Gustavo Petro recebendo dinheiro em espécie. Investigações posteriores mostraram que os recursos estavam relacionados a um empréstimo feito anos antes que não configuravam atividade ilegal.
Este ano, ela repetiu a mesma prática, afirmando, durante uma sessão do Congresso, em 21 de abril de 2026, que a Defensoria do Povo possuía investigações demonstrando que grupos armados estariam pressionando eleitores em favor de Cepeda. O órgão desmentiu a declaração e alegou não ter qualquer informação capaz de sustentar tal acusação.
A família Valencia também é conhecida por ser protagonista de disputas fundiárias, como a que envolve seu primo, Nicolás Laserna Serna, que acabou devolvendo uma fazenda considerada terra pública da União, após conflito com o ex-congressista Gustavo Londoño García. A área de 6.182 hectares, destinada à reforma agrária, foi recuperada pela Agência Nacional de Terras (ANT). Valencia criticou publicamente a medida.
“Aqui existem propriedades e títulos que um dia foram terras públicas, mas que há muito tempo passaram a integrar a propriedade privada, e não vamos permitir que seus proprietários sejam privados dessas terras”, disse.
Em seu programa de governo, Valencia defende “a titulação de terras alinhada aos interesses do setor agrícola e uma política de segurança rural baseada na presença permanente das forças de segurança em regiões estratégicas para a produção agropecuária”.
Assim como De la Espriella, Valencia também busca ampliar sua base através das redes sociais. No último domingo (25/05), ela postou um vídeo ao lado de Maria Claudia Tarazona, viúva do senador e pré-candidato Miguel Uribe Turbay, baleado durante um atentado em 2025; e da venezuelana Maria Corina Machado, apresentada como “a mulher que tem ensinado ao mundo como se enfrenta uma ditadura sem jamais se render”.
O post Eleições na Colômbia: direita tradicional e ultradireita emergente disputam entrada no segundo turno apareceu primeiro em Opera Mundi.