
Por Iris Pacheco
Da Página do MST
Durante os dias 29 e 31 de julho, cerca de 100 educadoras, educadores, militantes e parceiros estiveram reunidos no IX Encontro Estadual das Educadoras e Educadores da Reforma Agrária, no Centro de Formação Francisca Veras (CFFV) em Governador Valadares (MG).
Com o lema histórico “Movimento Sem Terra: por escola, terra e dignidade!”, o encontro foi marcado por momentos de mística, intensa participação coletiva, debates e oficinas práticas realizadas em diferentes espaços do assentamento, reafirmando o compromisso do MST com uma educação do campo popular, emancipadora e conectada às realidades das comunidades.
Logo na abertura, a mística já anunciava o espírito que acompanharia toda a programação: fortalecer a organização coletiva e semear novos caminhos para a educação nos territórios. E no encerramento, reafirmou esse compromisso: “Companheiros/as, o nosso encontro termina aqui, mas a nossa caminhada recomeça amanhã em cada assentamento, em cada acampamento e em cada sala de aula… Que a nossa educação rompa as cercas do latifúndio e do preconceito. A semente está plantada. Quem tem medo do nosso tambor, vai ter que respeitar a nossa colheita.”
“A gente sai desse encontro fortalecido trazendo a educação do campo e como podemos, para além das escolas, levar debates pertinentes para nossas crianças e comunidades.” A avaliação é de Elis Carvalho, educadora popular e assentada na região da Zona da Mata, ao sintetizar o sentimento compartilhado por quem participou do encontro.
Pedagogia do Movimento: teoria e prática caminham juntas

Um dos momentos centrais da programação foi a reflexão sobre a Pedagogia do Movimento, conduzida pela educadora Roseli Caldart, doutora em Educação e do Setor de Educação do MST. Ao abordar a construção histórica da proposta educativa do MST, destacou que uma das características fundamentais do Movimento é a capacidade de articular formação coletiva, dimensão nacional e unidade entre teoria e prática. “É uma marca do MST ser coletivo, nacional e juntar teoria e prática”, afirmou.
Roseli também ressaltou que a Pedagogia do Movimento permanece em constante construção e já ultrapassa as fronteiras do próprio MST, tornando-se referência para diferentes experiências educativas. “A Pedagogia do Movimento é uma pedagogia em construção. Pois já é uma referência para além do MST e da educação do campo. Isso é algo que nos orgulha, nos honra, mas também nos responsabiliza.”
Os desafios da construção de uma educação comprometida com os direitos humanos nessa perspectiva da Pedagogia do Movimento, também estiveram presentes nos debates. Aline Luana Oliveira, do Coletivo LGBTI+ Sem Terra, conduziu a mesa “Educação para transformação: desafios da educação anti-LGBTIfóbica nas escolas do campo”, abordando temas como diversidade, permanência escolar e enfrentamento às violências.
Ao refletir sobre gênero e sexualidade, destacou que “homem e mulher é uma construção social”. E situou sobre os desafios atuais nesse âmbito, lembrando que a LGBTIfobia não é um problema isolado, mas resultado das estruturas sociais. “LGBTIfobia é uma violência estrutural.” Também provocou o debate sobre o papel das tecnologias e das redes sociais na disputa de narrativas. “Como usar as redes sociais para desconstruir essa violência que é socialmente estruturada?”
Educação antirracista como compromisso coletivo

A luta contra o racismo estrutural também integrou a programação por meio da mesa conduzida por Andréia Roseno, docente universitária e consultora em relações étnico-raciais e sociais. Ao refletir sobre memória e identidade, Andreia destacou a importância de reconhecer as histórias que constituem os sujeitos coletivos.
“Ainda que essa memória seja atravessada pelo senso comum, ela nos colocou em conflito com a cosmovisão europeia. Quando a gente invoca a memória fazemos isso com coisas interessantes e outras nem tanto assim. Mas é a nossa história.”
A educadora também apresentou uma reflexão sobre o caráter estrutural do racismo na sociedade brasileira. “O racismo é estrutural na sociedade capitalista e determina as relações sociais vigentes. É uma engrenagem complexa que naturaliza e normaliza privilégios e desvantagens utilizando a raça historicamente. É o que nos destitui de humanidade.”
Além disso, Roseno também provocou reflexões sobre o papel de um Estado laico e o desafio de legislar para toda a população sem que convicções religiosas particulares dominem a formulação de políticas públicas e direitos civis. “Laicidade é o princípio político que garante a separação oficial entre o Estado e as instituições religiosas. Ao não adotar uma religião oficial, o Estado protege o direito de cada cidadão de escolher, praticar ou mudar de religião – bem como o direito de não professar fé alguma”, ressaltou e questionou: “Como fazer uma educação inclusiva e que mexa nessas questões?”
Círculos de cultura: imaginação para construir novos mundos

A programação também promoveu reflexões sobre arte, cultura e agroecologia como dimensões fundamentais da formação humana. Entre as metodologias vivenciadas durante o encontro, os Círculos de Cultura ocuparam lugar de destaque nas oficinas formativas. Inspirada na pedagogia de Paulo Freire, a prática propõe uma educação baseada no diálogo, na troca de saberes e na leitura crítica da realidade, rompendo com o modelo tradicional de ensino centrado exclusivamente na figura do professor.
Segundo Matilde Lima, da direção do Setor de Educação do MST em Minas Gerais, os Círculos de Cultura são uma metodologia construída para transformar o processo educativo em um espaço coletivo de aprendizagem e organização.
“Círculo de Cultura é uma metodologia proposta e praticada por Paulo Freire. Ela propõe a superação da aula como um espaço verticalizado e, mais do que isso, a partir dos temas geradores, extraídos da realidade, discutir questões relevantes e contribuir para o avanço cultural e da consciência política dos sujeitos.”

Nesse sentido, em um convite à construção coletiva de novos horizontes, essa prática dialoga com a reflexão que Caldart trouxe no início sobre a importância da imaginação como prática política. “Que a gente não deixe de se encontrar, de conspirar sobre o mundo que a gente quer… Que a gente não deixe de exercitar esse músculo da alma que é a imaginação.”
Criados por Paulo Freire no início da década de 1960, os Círculos de Cultura ganharam projeção durante a experiência de alfabetização de trabalhadores em Angicos (RN), quando demonstraram que alfabetizar significava também desenvolver a consciência crítica sobre a realidade. Diferentemente de uma sala de aula convencional, educadores e educandos ocupam o mesmo lugar no processo de construção do conhecimento, dialogando a partir de temas geradores que emergem da vida cotidiana das comunidades.
No encontro, a metodologia foi experimentada de forma integrada às oficinas de teatro, pintura, artes visuais e outras linguagens, reforçando a compreensão de que a educação do campo articula formação política, cultura e participação coletiva.
É o que ressaltou Elis, ao apontar que um dos grandes legados do encontro foi a valorização de metodologias integradas de aprendizagem, capazes de fortalecer a formação nos territórios. “Ficou muito demarcado também nesse encontro as oficinas que a gente fez de pintura, teatro, artes visuais e também os círculos de cultura. Saímos com alguns materiais já produzidos e com muita vontade de seguir com essas atividades em nossos territórios.”
A proposta é que essas experiências sejam levadas para assentamentos e acampamentos, fortalecendo processos educativos que dialogam com os desafios concretos vividos nos territórios e estimulam a organização popular.

*Editado por Fernanda Alcântara
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