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Esquerda reverte cenário e lidera eleição presidencial em Portugal

A esquerda contrariou as expectativas e terminou em primeiro lugar no primeiro turno das eleições presidenciais em Portugal, realizado neste domingo (19). O socialista António José Seguro liderou a disputa com 31,21% dos votos (1.738.741) e garantiu vaga no segundo turno, assumindo agora a tarefa de derrotar o avanço da extrema direita, no confronto marcado para 8 de fevereiro.

O segundo turno será disputado contra André Ventura, do Chega, que ficou em segundo lugar no primeiro turno com 23,29% dos votos (1.297.533), numa eleição marcada pela dispersão do voto entre múltiplas candidaturas e pela ausência de maioria absoluta.

Na sequência, João Cotrim de Figueiredo, da Iniciativa Liberal, obteve 16,01% (891.788 votos), seguido pelo ex-chefe do Estado-Maior da Armada Henrique Gouveia e Melo, candidato independente, com 12,41% (691.489 votos). 

O ex-líder do PSD Luís Marques Mendes, apoiado pelo partido do primeiro-ministro Luís Montenegro, ficou em quinto lugar, com 11,34% (631.809 votos), resultado interpretado no país como uma derrota para o atual governo.

Entre as candidaturas de esquerda fora do PS, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, terminou em sexto lugar, com 2,05% (114.468 votos), enquanto António Filipe, apoiado pelo Partido Comunista Português (PCP), ficou em sétimo, com 1,65% (91.889 votos). 

Outros sete candidatos dividiram os votos restantes, todos abaixo de 1,1%, em uma disputa que reuniu 11 nomes e dispersou o eleitorado.

A votação registrou o maior comparecimento às urnas em duas décadas, revertendo o padrão de elevada abstenção observado em pleitos recentes. Segundo estimativas oficiais, a taxa de abstenção ficou entre 35% e 40%, bem abaixo do registrado na eleição presidencial de 2021, quando mais da metade do eleitorado deixou de votar em meio à pandemia de Covid-19.

O resultado também recoloca Portugal diante de um segundo turno presidencial pela primeira vez desde 1986, quando o socialista Mário Soares venceu a disputa contra Diogo Freitas do Amaral. Desde então, todas as eleições presidenciais haviam sido decididas ainda no primeiro turno.

A liderança de Seguro no primeiro turno representou uma reviravolta em relação ao cenário que predominava até meses atrás, quando pesquisas indicavam vantagem de candidaturas situadas à direita. 

No início do segundo semestre de 2025, o socialista aparecia patinando na casa dos 10% das intenções de voto, enquanto André Ventura, Luís Marques Mendes e o independente Henrique Gouveia e Melo surgiam com percentuais próximos ou superiores a 20%, disputando a dianteira da corrida presidencial.

Ao longo da reta final da campanha, apenas a extrema-direita condensada em Ventura manteve crescimento consistente, enquanto as demais candidaturas do campo conservador passaram a disputar o mesmo eleitorado. 

A dispersão dos votos à direita abriu espaço para a recuperação do candidato socialista, que conseguiu se consolidar como alternativa viável já no primeiro turno e avançar à frente em uma disputa que, até então, lhe era desfavorável.

Segundo análises publicadas após a votação, a recuperação de Seguro também foi impulsionada por um movimento de voto útil moderado, especialmente entre eleitores que buscavam evitar um segundo turno restrito a candidaturas situadas mais à direita. 

Esse deslocamento acabou sendo decisivo para levar o socialista à liderança e empurrar a eleição para uma segunda volta inédita em quatro décadas.

PCP orienta voto em Seguro para barrar a extrema direita no segundo turno

Diante do avanço de André Ventura ao segundo turno, o Partido Comunista Português (PCP) anunciou que irá orientar o voto em António José Seguro na rodada decisiva das eleições presidenciais. A posição foi apresentada pelo candidato comunista António Filipe em pronunciamento após a divulgação do resultado do primeiro turno.

“O voto em António José Seguro na segunda volta não significa um apoio ao candidato António José Seguro, nem àquilo que ele defendeu enquanto candidato ou ao longo da sua atividade política. Significa a vontade imperiosa de derrotar o candidato André Ventura. É isso que está fundamentalmente em causa nestas eleições”, afirmou.

Na avaliação do dirigente comunista, a disputa do segundo turno passa a ser definida pela necessidade de impedir a vitória de um projeto político que representa risco direto às bases do regime democrático português.

“Agora trata-se de, na segunda volta, impedir a eleição de um candidato que pretende destruir o regime democrático. Isso exige da nossa parte uma opção clara quanto ao exercício do direito de voto”, disse.

António Filipe também rejeitou a leitura de que o segundo turno represente uma clivagem tradicional entre esquerda e direita, sustentando que o eixo central da disputa é a defesa da democracia e da Constituição.

“Não se trata, neste momento, de uma clivagem clássica entre esquerda e direita. Trata-se de responder a uma grave ameaça à democracia que significaria a vitória do candidato André Ventura”, declarou.

O dirigente comunista afirmou ainda que o comportamento do eleitorado no primeiro turno já expressou esse entendimento, ao relatar que parte dos votantes optou por concentrar votos em António José Seguro ainda na primeira rodada para evitar um cenário ainda mais conservador na disputa final.

“Houve muitas pessoas que, noutras circunstâncias, teriam votado na minha candidatura, mas que, perante o receio de haver dois candidatos muito à direita na segunda volta, votaram logo na primeira volta em António José Seguro, sem que isso significasse um apoio político ao candidato em si mesmo”, afirmou.

Apesar do desempenho eleitoral do PCP no primeiro turno, António Filipe avaliou a campanha como politicamente necessária e reafirmou que o partido seguirá mobilizado na defesa dos direitos sociais, da Constituição e dos valores da Revolução de Abril.

“Não nos arrependemos desta candidatura. Consideramos que valeu a pena, porque trouxe para o centro do debate das eleições presidenciais as preocupações centrais do país”, concluiu.

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