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Flávio Bolsonaro escolhe modelo Milei que levou 27 milhões à pobreza

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) quer aplicar no Brasil o receituário econômico de Javier Milei que lançou 27 milhões de argentinos na pobreza após uma forte desvalorização da moeda, eliminou milhares de empregos e atingiu duramente o consumo da população mais pobre.

A orientação foi confirmada por Daniella Marques, coordenadora econômica da campanha e ex-presidente da Caixa no governo Jair Bolsonaro. 

“Flávio fez uma orientação para a equipe. Já temos mais de mil normas mapeadas para revogar, usando um pouco de inspiração no que foi feito no governo Milei na Argentina”, declarou.

Daniella não deixou dúvidas sobre a intenção de reproduzir no Brasil o programa ultraliberal da Casa Rosada. “Milei é um ótimo exemplo em termos de voltar a ter capacidade de investimento e redução de burocracia e impostos”, afirmou.

A declaração explicita o projeto econômico de Flávio Bolsonaro em um momento no qual os efeitos das medidas de Milei já podem ser observados no país vizinho. 

Em dois anos e meio, a Argentina perdeu 335 mil empregos formais e registrou o fechamento de 28 mil empresas ligadas ao mercado interno, segundo dados apresentados pelo secretário-geral da Central de Trabalhadores da Argentina Autônoma (CTA-A), Hugo “Cachorro” Godoy, em entrevista ao Vermelho.

“Há um industricídio que vem sendo levado adiante na Argentina”, resumiu o sindicalista.

Corte de gastos ameaça serviços públicos e direitos

O programa de Flávio Bolsonaro prevê a apresentação, logo no início de um eventual governo, de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) para restringir os gastos públicos. A medida abriria caminho para um novo ciclo de arrocho sobre serviços, investimentos e políticas que atendem principalmente a classe trabalhadora.

Daniella afirma que o Bolsa Família seria preservado, mas não esclarece quais despesas seriam cortadas nem como a redução pretendida atingiria áreas como saúde, educação, Previdência e funcionalismo público.

“Já assumimos o compromisso de não alterar os programas sociais. Nossa proposta focará no corte de privilégios, tanto na estrutura da máquina pública quanto em benefícios tributários. Apresentaremos um levantamento técnico ao Congresso, que soberanamente conduzirá as decisões”, disse.

A experiência argentina mostra o que costuma ficar escondido sob expressões como “ajuste da máquina” e “corte de privilégios”. Em 2024, o governo Milei reduziu as despesas primárias em cerca de 30% em termos reais, segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI). A tesoura atingiu aposentadorias, universidades, obras públicas, subsídios e repasses às províncias — gastos diretamente ligados às condições de vida da população.

O projeto de Flávio inclui ainda a privatização de mais de 20 estatais. Os Correios aparecem entre os alvos, e Daniella não descartou nem mesmo a venda do Banco do Brasil. Na prática, o programa apresentado como redução do Estado ameaça entregar patrimônio público ao setor privado e enfraquecer empresas responsáveis por serviços, crédito e investimentos fundamentais para o país.

Destruição da indústria e do mercado interno

O modelo elogiado por Daniella Marques também provocou uma forte retração da indústria, da construção e do consumo nos primeiros anos do governo Milei. A abertura comercial para empresas estrangeiras de forma indiscriminada expôs empresas argentinas à concorrência internacional, enquanto o arrocho salarial reduziu a capacidade de compra da população.

Hugo Godoy afirmou ao Vermelho que esses resultados não representam efeitos inesperados da política econômica, mas decorrem dos próprios objetivos do governo argentino.

“O objetivo é esmagar os salários, multiplicar a precariedade laboral, destruir a indústria nacional e o mercado interno e somente sustentar as atividades econômicas ligadas à atividade financeira e ao extrativismo”, declarou.

Para o dirigente sindical, o programa privilegia os setores de petróleo, gás, mineração e agroexportação, enquanto desmonta as atividades industriais que abastecem o mercado nacional e geram empregos.

“A indústria nacional foi um fator fundamental de soberania e de desenvolvimento do mercado interno. Por isso, destruí-la está no centro dos objetivos do governo Milei”, afirmou.

A inflação argentina desacelerou depois de superar índices extremamente elevados, e a pobreza recuou após chegar a 52,9% da população urbana no primeiro semestre de 2024. A estabilização, porém, ocorreu acompanhada de desemprego, deterioração dos salários, enfraquecimento dos serviços públicos e retração do consumo.

Em 2026, a crise chegou aos produtos básicos. Levantamento da consultoria Scanntech apontou queda de 4,1% no consumo acumulado nos primeiros sete meses do ano. As vendas de desodorantes caíram 4,1%; as de sabonetes, 2,7%; e as de xampus e condicionadores, 0,3%.

Direitos trabalhistas também estão na mira

A inspiração em Milei alcança também as relações de trabalho. A reforma aprovada na Argentina ampliou o período de experiência, facilitou demissões, enfraqueceu indenizações e abriu espaço para jornadas mais extensas e relações de trabalho mais precárias.

Ao comentar o plano de Flávio Bolsonaro, o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) advertiu para as consequências enfrentadas pelos trabalhadores argentinos.

“Só para lembrar, a reforma trabalhista de Milei foi a destruição completa de direitos e garantias. Nem limite de jornada tem mais. Apesar disso, os argentinos estão comendo carne de cavalo. Diziam que o Brasil ia virar a Venezuela, agora nos ameaçam em transformar na Argentina. Deus nos livre dessa gente!”, afirmou.

Segundo Godoy, a destruição da indústria argentina está ligada a um projeto de enfraquecimento da integração regional e de subordinação aos Estados Unidos.

“Milei é um súdito absoluto do chefe do império, Trump, e do Fundo Monetário Internacional”, declarou o dirigente. Para ele, o objetivo é “destruir a possibilidade geopolítica de que volte a se articular um bloco de unidade independente” no continente.

Ao escolher Milei como exemplo, Flávio Bolsonaro apresenta ao eleitorado um projeto de redução do Estado, privatização do patrimônio público, retirada de direitos e enfraquecimento da indústria nacional semelhante ao que já produz desemprego e precarização na Argentina.

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