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Futebol: jogos com duas torcidas envolvem cidadania e valorização cultural

Desde 2016, os clássicos do futebol paulista são disputados com torcida única nos estádios. Em uma década, torcedores de São Paulo, Corinthians, Palmeiras e Santos foram moldados a uma lógica que não resolveu casos de violência entre as torcidas e feriu o princípio de torcer, que é “expressão de um direito fundamental”, aponta o advogado Renan Bohus, idealizador e coordenador do projeto “Pelo Fim da Torcida Única” em cooperação com a Anatorg (Associação Nacional das Torcidas Organizadas).

A iniciativa propõe um diálogo interinstitucional que visa revisar e superar a política de torcida única no estado de São Paulo. Em 2018, o dérbi campineiro, entre Ponte Preta e Guarani, também passou a ser realizado somente com a torcida da equipe mandante.

Como destaca o documento que orienta o projeto, a ideia de retorno das torcidas rivais nos clássicos tem como finalidade devolver o aspecto democrático do esporte, ressaltando valores culturais e de cidadania.

Para alcançar isso, a proposta prevê, além do diálogo público, a realização de jogos-piloto em estádios com infraestrutura completa (incluindo reconhecimento facial e ingressos identificados) e setores de torcida bem delimitados junto às autoridades. O pedido inicial é de até 10% dos ingressos destinados à torcida visitante, percentual considerado compatível com padrões internacionais de segurança. Portanto, a previsão é de uma volta “planejada, segura, gradual e institucionalmente pactuada”.

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O diálogo já acontece entre a associação e as autoridades, destaca Bohus em entrevista ao Portal Vermelho. Envolve a Drade (Delegacia de Repressão aos Delitos de Intolerância Esportiva), o 2º Batalhão de Choque (especializado em grandes eventos com expertise exportada para outros estados) e o Ministério Público.

Na avaliação feita por Bohus, é necessário trazer de volta o debate sobre a torcida visitante sob o prisma de que a principal justificativa para impor a medida não se sustenta: “A torcida única reduziu a visibilidade institucional da violência, mas não sua incidência real”, diz.

Conforme consta no documento assinado por Bohus, que tem atuação especializada em Direito do Torcedor e gestão jurídica de eventos esportivos, os estudos sobre a torcida única revelam que a redução de episódios de violência dentro dos estádios ou em seu entorno imediato não alcançou êxito efetivo, pois teve como desdobramento a descentralização da violência em bairros periféricos, estações de transporte público, terminais rodoviários, rodovias etc. Isso ocorre inclusive em datas e horários desvinculados do calendário oficial das partidas, com organização via redes sociais.

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Dessa forma, a medida pulverizou conflitos pela cidade, o que não permite o monitoramento estatístico e, principalmente, dificulta a capacidade de resposta do poder público, sendo que no estádio seria possível manter um controle concentrado.

Para entender melhor esse cenário e a proposta “Pelo Fim da Torcida Única”, entrevistamos Renan Bohus; confira a íntegra da conversa a seguir:

Vermelho – Em que pé anda a articulação para a revogação da portaria que instituiu a torcida única nos estádios de São Paulo, em vigor desde 2016? O que é preciso acontecer para o retorno das torcidas visitantes e qual é a expectativa para a questão avançar?

Renan Bohus – O projeto está em fase de diálogo institucional. Já realizamos reunião com a Drade e temos agendas previstas com o Batalhão de Choque e com o Ministério Público. Como se trata de uma política pública vigente desde 2016, qualquer eventual atualização exige construção técnica, escuta das autoridades e avaliação responsável dos dados atuais.

O que precisa acontecer agora é justamente o amadurecimento desse debate. Estamos apresentando fundamentos técnicos, evolução tecnológica e proposta metodológica de implementação gradual, por meio de jogos-piloto monitorados.

A expectativa é positiva no sentido de abertura para o diálogo. Mas é importante ressaltar que o processo exige tempo, responsabilidade institucional e construção conjunta. Não se trata de decisão unilateral, mas de eventual modernização construída com base em dados, planejamento e segurança.

Vermelho – O senhor e a Anatorg afirmam que o Estado de São Paulo tem o dever e possui plena capacidade técnica, operacional e institucional para o controle de duas torcidas, por meio da Drade e do 2º Batalhão de Choque, com vasta experiência na área. Qual tem sido a recepção por parte da Polícia Civil e Militar à proposta?

Renan Bohus – A recepção tem sido institucionalmente positiva. Desde o primeiro momento, tanto a Drade quanto o 2º Batalhão de Choque demonstraram abertura para ouvir os fundamentos técnicos do projeto e dialogar sobre os aspectos operacionais envolvidos.

É importante destacar que o projeto não pretende impor uma solução, mas construir uma proposta em conjunto com as forças de segurança. A Polícia Civil e a Polícia Militar acumulam vasta experiência na gestão de grandes eventos e são peças centrais em qualquer eventual avanço.

Se o projeto evoluir, isso ocorrerá com planejamento técnico, análise operacional detalhada e participação direta das polícias. Segurança pública não se faz sem as instituições que atuam na linha de frente.

Vermelho – Em avaliações passadas, o senhor já destacou que São Paulo é um receptáculo de grandes eventos, porém só no futebol optou-se pela exclusão, uma “saída mais simples e menos responsável”. O que levou esta política a ser implementada e durar tanto tempo?

Renan Bohus – A implementação da torcida única, em 2016, ocorreu em um contexto específico de segurança pública, marcado por episódios de alta tensão e por limitações tecnológicas importantes naquele momento. À época, a medida foi compreendida como uma resposta emergencial para contenção de risco.

O que se observa é que políticas públicas criadas em caráter excepcional tendem a se prolongar quando não há um movimento coordenado de reavaliação por parte dos diversos atores envolvidos, como clubes, federação, poder público e sociedade civil. Não se trata necessariamente de omissão deliberada, mas de uma acomodação institucional ao modelo vigente.

É importante destacar que a própria Secretaria de Segurança Pública já havia iniciado conversas sobre a possibilidade de rediscussão do tema antes mesmo da formalização do projeto. Isso demonstra que o debate já vinha amadurecendo internamente.

O ponto central agora é reconhecer que o contexto mudou. Houve avanço tecnológico, aprimoramento operacional das forças de segurança e maior integração de inteligência. Diante dessa nova realidade, é legítimo e institucionalmente saudável reavaliar a política pública à luz dos dados atuais.

Vermelho – Como efeito colateral da torcida única, os conflitos entre torcidas deixaram de acontecer nos estádios e arredores, inclusive em datas não relacionadas aos jogos, dificultando o controle e a resposta do poder público. Este é mais um ponto que justifica o pedido?

Renan Bohus – Sim, esse é um ponto relevante. A ausência do torcedor visitante nos estádios produz impacto direto no espetáculo esportivo. Historicamente, as manifestações culturais das torcidas sempre foram parte essencial do futebol brasileiro. Futebol é cultura, lazer e identidade coletiva. A torcida única acabou reduzindo essa dimensão simbólica do jogo e esfriando uma tradição que sempre foi marcante nos clássicos.

Do ponto de vista da segurança, é importante contextualizar que a medida surgiu em um momento específico, marcado por desafios relevantes na gestão de conflitos. Hoje o cenário é distinto. Houve avanço tecnológico significativo, integração de sistemas de monitoramento, reconhecimento facial e fortalecimento da inteligência preventiva.

Além disso, São Paulo possui uma Polícia Militar altamente preparada, com atuação reconhecida nacionalmente na gestão de grandes eventos, inclusive oferecendo capacitação para outras unidades da federação. A Polícia Civil conta com uma delegacia especializada que atua de forma contínua na identificação e responsabilização de indivíduos envolvidos em atos de violência relacionados ao futebol.

Com esse nível de preparo técnico e operacional, o debate passa a ser sobre gestão qualificada de risco e não sobre incapacidade estrutural. O contexto atual é mais favorável à realização de jogos com duas torcidas sob planejamento adequado e controle institucional.

Renan Bohus. Foto: Arquivo Pessoal

Vermelho – Entre as justificativas que embasam a volta das torcidas visitantes consta o avanço da tecnologia, que permite o monitoramento de potenciais agressores, assim como eventuais sanções. Quais medidas, além do reconhecimento facial, podem ajudar?

Renan Bohus – Além do reconhecimento facial, há um conjunto de ferramentas que fortalecem a capacidade preventiva do Estado. O ingresso identificado é um instrumento importante, pois permite vincular o torcedor ao seu acesso e facilita eventual responsabilização individual. A integração com sistemas de videomonitoramento urbano também amplia a capacidade de controle.

O programa Smart Sampa, por exemplo, conta com mais de 20 mil câmeras apenas na capital, muitas delas integradas a sistemas de inteligência e análise de imagens. Isso possibilita monitoramento não apenas dentro do estádio, mas também no entorno e nas rotas de deslocamento.

Outro ponto relevante é a especialização da Drade, que atua especificamente em delitos relacionados a eventos esportivos, permitindo investigação direcionada e acompanhamento de indivíduos reincidentes.

Em jogos com duas torcidas, o planejamento operacional também é determinante. O controle organizado do deslocamento da torcida visitante, definição de acessos específicos, horários escalonados de entrada e saída e integração entre Polícia Militar, Polícia Civil e organizadores do evento são medidas que reduzem significativamente o risco.

A tecnologia é uma ferramenta, mas ela funciona em conjunto com planejamento, inteligência preventiva e experiência operacional acumulada pelas forças de segurança.

Vermelho – A proposta prevê o retorno gradual da torcida visitante de forma experimental, com jogos-piloto em estádios com infraestrutura completa e setores de torcida bem delimitados junto às autoridades. O pedido inicial é de até 10% dos ingressos destinados à torcida visitante, percentual considerado compatível com padrões internacionais de segurança. Acredita que a realização de jogos-piloto nesses moldes seja capaz de mudar a mentalidade das autoridades?

Renan Bohus – A proposta dos jogos-piloto parte de um princípio simples: políticas públicas estruturais precisam ser avaliadas com base em dados concretos e experimentação controlada, não apenas em projeções ou memórias de eventos passados.

Em temas que envolvem segurança, é natural que episódios de maior repercussão tenham peso emocional elevado. O problema é quando decisões permanentes passam a ser guiadas mais pela intensidade desses episódios do que por análise proporcional de risco.

Os jogos-piloto permitem exatamente o contrário disso. Com um percentual limitado de até 10% de ingressos para a torcida visitante, em estádios com infraestrutura adequada e planejamento operacional reforçado, torna-se possível medir objetivamente os resultados. Número de ocorrências, gravidade, comportamento no entorno, comparação com jogos sob o regime atual e percepção posterior do público.

Esse método substitui hipótese por teste. Substitui projeção por evidência.

Mudanças institucionais não ocorrem por convencimento retórico, mas por demonstração prática. Se a experiência mostrar que é viável, o debate avança com base em dados. Se apontar necessidade de ajustes, eles podem ser feitos com responsabilidade.

O que se propõe não é ruptura abrupta, mas uma transição gradual, monitorada e tecnicamente fundamentada. É assim que políticas públicas amadurecem.

Vermelho – No documento que pede o fim da torcida única, existe o reconhecimento do torcedor como sujeito central do futebol, ao passo que sua presença nas arquibancadas valoriza a democracia no esporte, além de ser uma manifestação cultural e social. Qual é a importância desses aspectos não só para o esporte, mas também para a sociedade?

Renan Bohus – O direito de torcer é expressão de um direito fundamental. A Constituição assegura liberdade de manifestação, participação cultural e convivência social. Além disso, desde o Estatuto do Torcedor, posteriormente incorporado à Lei Geral do Esporte, o torcedor é reconhecido como sujeito de direitos, não apenas como consumidor de espetáculo.

Isso muda a perspectiva. O torcedor não é elemento periférico do futebol. Ele é parte central da experiência esportiva. A presença nas arquibancadas representa manifestação cultural, identidade coletiva e participação social.

O convívio entre torcidas, quando organizado e seguro, também tem dimensão pedagógica. A convivência é base da democracia. A restrição permanente elimina o exercício da tolerância e da pluralidade. Já o ambiente regulado, com regras claras e responsabilização individual, estimula maturidade social.

Além disso, o futebol tem papel relevante na inclusão de jovens, especialmente em regiões periféricas. Quando se fortalece o eixo cultural do futebol, amplia-se o acesso a programas de lazer, pertencimento e organização social. Isso não enfraquece a segurança pública, ao contrário, contribui para ela no médio e longo prazo.

Portanto, a discussão não é apenas sobre estádio. É sobre cidadania, cultura e responsabilidade coletiva dentro de um ambiente institucionalmente organizado.

Vermelho – Com base em uma reportagem da ESPN, que analisa uma década de vigência da medida, é apontado que a política não eliminou os conflitos, mas contribuiu para a formação de uma geração que nunca vivenciou clássicos com duas torcidas. Como avalia este cenário, pensando na nova safra de torcedores?

Renan Bohus – A política de torcida única produziu efeitos que vão além da segurança imediata. Uma geração inteira cresceu sem vivenciar clássicos com duas torcidas no mesmo estádio. Isso altera a experiência cultural do futebol.

O ambiente das arquibancadas sempre foi espaço de manifestação coletiva, identidade e pertencimento. Quando se restringe a presença do visitante, quando se limitam manifestações culturais e quando os ingressos se tornam financeiramente inacessíveis para muitos jovens, o futebol passa a se aproximar mais de um produto padronizado do que de uma experiência social viva.

O ato de torcer envolve paixão, dedicação, construção de identidade e convivência com o diferente. O clássico com duas torcidas sempre foi também um exercício simbólico de rivalidade dentro de regras institucionais. A ausência dessa experiência pode gerar distanciamento e reduzir o efeito educativo do esporte.

O futebol é o esporte mais assistido e praticado no mundo justamente porque combina competição, cultura e pertencimento. Quando se esvazia parte dessa dimensão, corre-se o risco de afastar a nova geração das arquibancadas e transformar o torcedor em mero consumidor passivo.

A proposta do projeto busca recuperar o equilíbrio entre segurança e experiência cultural. A convivência regulada, com planejamento e responsabilização individual, pode contribuir não apenas para o espetáculo, mas também para fortalecer valores de tolerância, respeito às regras e participação social.

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