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Intercâmbio fortalece a construção da Reforma Agrária Popular em Minas Gerais

Foto: Ali Nacif

Por Ali Nacif 

Da Página do MST

Entre os dias 12 a 15 de agosto, ocorreu um intercâmbio agroecológico realizado entre os territórios do Rio Doce e da região metropolitana de Minas Gerais, marcado pela troca de experiências, pela formação e pelo encontro entre famílias, equipes técnicas e cooperativas. Ao longo da vivência, a programação aproximou diferentes formas de produzir, organizar o trabalho e cuidar dos territórios a partir da construção da Reforma Agrária Popular.

A atividade foi pensada a partir das necessidades do Projeto ATES Paraopeba, executado pela Coopertrac, em Betim (MG), e tem como uma de suas bases a possibilidade de conhecer experiências construídas pelo MST em outros territórios do estado. Para Elias Rodrigues, um dos responsáveis pela organização do intercâmbio, o objetivo é levar os aprendizados para a realidade das famílias acompanhadas na região.

“O intercâmbio é pensado a partir da meta do projeto, que é do programa de restauração da bacia do Paraopeba. A gente pode aprender as experiências que são desenvolvidas pelo MST nos outros territórios, as práticas aqui no caso de Valadares, a cooperativa, a agroindústria”, explica Elias.

Conhecer para construir nos territórios

Nos primeiros dias, os participantes conheceram áreas produtivas dos Mutirões Agroecológicos no Assentamento Terra Prometida, em Tumiritinga, além da CooperUatu e da agroindústria de processados e polpas de frutas.

As visitas permitiram conhecer experiências que já fazem parte do cotidiano das famílias e das organizações do Rio Doce. O intercâmbio também abriu espaço para debates sobre a produção, o beneficiamento, a comercialização e a organização coletiva.

Na casa da Teresinha Sabino, assentada no Assentamento Oziel Alves, em Governador Valadares, os participantes encerraram um dos dias com uma roda de conversa para compartilhar as experiências vividas, levantar dúvidas e aproximar as diferentes realidades presentes no intercâmbio.

Fotos: Alí Nacif

A proposta é que o conhecimento circule entre os territórios. Quem chega para conhecer também traz perguntas, experiências e formas de fazer que podem contribuir com quem já desenvolve o trabalho.

Essa troca ficou evidente durante a visita à agroindústria da CooperUatu. Alan Amorim, gestor de produção industrial, contou que a própria experiência de construção da unidade, iniciada sem uma experiência anterior, trouxe aprendizados que hoje podem ser compartilhados com outras regiões.

“Pra nós que implantamos a fábrica começando do zero, sem experiência, eu acho que é sempre importante contribuir com demais regionais. A gente apanhou bastante ali no início, tanto na construção quanto na questão de equipamentos”, relata Amorim.

Para Alan, conhecer outras experiências antes de iniciar uma nova agroindústria pode ajudar a evitar erros e utilizar melhor os recursos disponíveis. A agroindústria também representa uma forma de transformar a produção das áreas em novos produtos e ampliar as possibilidades para as famílias.

“A agroindústria em si faz esse processo de agregar valor. Transforma a matéria-prima que vem das áreas em um produto de prateleira, que vai atender por mais tempo e transferir renda direta para os sócios”, explica Alan.

A restauração ambiental como parte da luta

Entre as experiências que mais chamaram a atenção dos participantes, foi o trabalho de restauração ambiental desenvolvido no território do Rio Doce.

A programação incluiu visitas às áreas de restauração e uma roda de conversa com Henrique Samsonas, que a partir de sua experiência na área, apresentou aos participantes questões relacionadas à recuperação ambiental, ao plantio e ao acompanhamento do trabalho.

Foto: Alí Nacif

Em algumas áreas visitadas, o grupo pôde observar locais onde antes não haviam árvores e comparar com áreas que já apresentam presença de vegetação. A atividade permitiu conhecer as etapas do trabalho, desde a preparação, o plantio, até a manutenção.

Para Elias, responsável pelo intercâmbio, essa experiência tem uma relação direta com os desafios enfrentados também no território do Paraopeba.

“Eu destacaria a questão da restauração ambiental pela situação de Valadares. Aqui estão num processo de recuperar as áreas. São áreas desertificadas e estão num processo intenso de implantação para restaurar o ambiente, fazer o plantio das árvores.”

A experiência também dialoga com a atuação das famílias na construção do Plano Nacional Plantar Árvores do MST, diante dos impactos provocados pelo modelo de mineração e das mudanças nas condições ambientais. “As famílias querem, para além de produzir, estar num ambiente confortável. E aqui a gente vê que, pela situação do crime, esse aumento climático, das temperaturas, estão desregulados períodos de chuva, muito calor, excesso de frio”, destaca Amorim.

A restauração, nesse sentido, aparece junto à produção de alimentos como parte da construção dos territórios da Reforma Agrária Popular.

Integração entre equipes

Outro momento importante deste intercâmbio, foi a integração das equipes dos projetos. O encontro aproximou trabalhadores que atuam no Programa Popular de Agroecologia na Bacia do Vale do Rio Doce e do Projeto ATES Paraopeba, executado pela Coopertrac em Betim.

A conversa permitiu apresentar as experiências de cada território, compartilhar dificuldades e identificar possibilidades de aprendizado entre as equipes. A aproximação também fortaleceu o trabalho de assistência técnica e as ações voltadas para a agroecologia, produção e restauração ambiental.

Fotos: Alí Nacif e Eduarda Diana

Para Elias, essa aproximação é fundamental para que os conhecimentos construídos no Rio Doce possam contribuir com as famílias acompanhadas no Paraopeba.

“A gente ir aprendendo como lidar com isso, para que a gente também consiga consolidar processos na nossa região, com as nossas áreas, com as nossas famílias acampadas e assentadas.”, afirmou.

O intercâmbio também tem sido um espaço de formação para os próprios participantes. Parte das pessoas está organizada em Núcleos de Base e algumas assumiram tarefas junto à equipe de comunicação, em uma experiência de cobertura colaborativa. A proposta é que as tarefas também sejam espaços de formação, permitindo experimentar novas funções e compartilhar conhecimentos.

Assim, essa troca de saberes mostra que essas experiências vão muito além das visitas. O encontro aproximou territórios, colocou diferentes conhecimentos em diálogo e fortaleceu a organização coletiva.

Como resume Amorim sintetiza que conhecer essas experiências significa criar condições para que os aprendizados possam voltar para os territórios e contribuir com novas construções. É a Reforma Agrária Popular sendo construída na prática: na terra, na produção, na restauração ambiental, na cooperação e, sobretudo, na capacidade de aprender coletivamente.

*Editado por Lays Furtado

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