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Irã mira banco do Brics para driblar Washington e reforçar multilateralismo

Doze de agosto de 2026 ficará marcado como o dia em que o Golfo Pérsico bateu à porta do Sul Global financeiro. Abdolnasser Hemmati, presidente do Banco Central do Irã, anunciou que seu país “em breve” se tornará membro do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB). A notícia, confirmada pela agência semioficial Tasnim, não é apenas mais um passo na integração iraniana ao Brics — bloco do qual Teerã faz parte desde 2024. É, sobretudo, um movimento estratégico em meio à ofensiva de sanções americanas e uma vitória simbólica para uma instituição que, silenciosamente, se consolida como o braço financeiro de uma nova ordem multilateral.

A declaração foi feita às vésperas da reunião de ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do BRICS, realizada sob a presidência da Índia em 2026. A Rússia já manifestou apoio à adesão iraniana. A direção do NDB, contudo, ainda não confirmou oficialmente a conclusão da adesão iraniana.

O encontro de Dilma em solo iraniano

Criado em 2015, o NDB nasceu com a missão de mobilizar recursos para infraestrutura e desenvolvimento sustentável em economias emergentes e países em desenvolvimento. Seu capital autorizado é de US$ 100 bilhões, e a instituição vem ampliando progressivamente sua composição.

A articulação ganhou corpo em encontro direto entre a presidente do NDB, Dilma Rousseff, e Hemmati, durante agenda do Brics. Na mesa, a formalização da entrada iraniana no banco criado em 2015 por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

Desde que se tornou membro pleno do bloco, o Irã vinha manifestando interesse em integrar também o braço financeiro da aliança. Agora, a janela se abre. Para Teerã, a adesão não é luxo diplomático: é questão de sobrevivência econômica em meio a um cerco financeiro orquestrado por Washington.

A arte de contornar o sistema SWIFT

As sanções americanas cortaram o Irã de boa parte do sistema financeiro internacional, incluindo o SWIFT — a rede de comunicação bancária que conecta mais de 11 mil instituições em 200 países. Sem acesso pleno, o país petrolífero precisa de rotas alternativas para escoar seu petróleo e importar o que consome. É aí que o NDB entra em cena.

A entrada no NDB não eliminaria essas dificuldades automaticamente. A própria instituição precisa preservar sua capacidade de acesso aos mercados internacionais e sua classificação de crédito. Além disso, não há garantia de que o banco financiará projetos iranianos sujeitos a riscos decorrentes das sanções.

O banco do Brics oferece financiamento em moedas locais, reduzindo a dependência do dólar e do euro, e opera em paralelo às instituições tradicionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional. Não se trata apenas de crédito: trata-se de um circuito paralelo que permite ao Irã respirar fora da atmosfera de pressão ocidental.

Um multilateralismo que se multiplica

A entrada do Irã consolida uma tendência que vem se desenhando desde a expansão do Brics em 2024. O NDB, antes um clube de cinco países, transforma-se aos poucos em instituição multilateral de fato. Bangladesh, Egito, Emirados Árabes Unidos e Uruguai já foram admitidos como membros, e a lista continua a crescer.

O banco combina o pragmatismo chinês — que busca um sistema financeiro menos centrado no dólar — com a ambição diplomática do Sul Global por uma arquitetura internacional menos dependente dos Estados Unidos e da Europa. Analistas apontam que NDB e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB) somados têm carteiras de empréstimos capazes de rivalizar com o Banco Asiático de Desenvolvimento e o BIRD.

O governo iraniano também defende o uso de moedas nacionais nas transações entre integrantes do BRICS, reduzindo a exposição ao dólar. Hemmati afirmou que Teerã busca acordos monetários bilaterais e trilaterais com outros membros do grupo.

É justamente nesse ponto que a questão iraniana se conecta ao debate mais amplo sobre a reforma da ordem econômica internacional.

O silêncio eloquente de Washington

O que torna a adesão iraniana particularmente significativa é o contexto geopolítico. Enquanto o governo Trump mantém pressão sobre Teerã, o Brics se oferece como válvula de escape institucionalizada. A entrada do Irã no NDB sinaliza que mesmo países sob sanções severas encontram abrigo em estruturas multilaterais que não exigem o endosso de Washington.

Para analistas, é um teste de stress da ordem global: até que ponto instituições alternativas conseguem sustentar economias inteiras fora do eixo atlântico? A resposta iraniana pode definir o ritmo da desdolarização e a viabilidade de um sistema financeiro genuinamente multipolar.

Um banco que virou geopolítica

O NDB nasceu em 2015 como uma promessa modesta: financiar infraestrutura em países emergentes sem as condicionalidades políticas do FMI ou do Banco Mundial. Onze anos depois, transformou-se em peça central de um jogo maior.

A adesão iraniana é sintoma de uma realidade: quem não pode — ou não quer — jogar pelas regras do Consenso de Washington e Bretton Woods está construindo suas próprias mesas. Teerã senta-se agora a uma delas. E, ao fazê-lo, ajuda a confirmar que o multilateralismo do século 21 não se resume mais ao consenso ocidental.

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