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“Irmão” de Flávio Bolsonaro, Vorcaro tinha 90% das ligações políticas com a direita

“Irmão, estou e estarei contigo sempre.” A mensagem foi enviada pelo senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a Daniel Vorcaro em 16 de novembro de 2025, na véspera da primeira prisão do banqueiro. O parlamentar negociava com o dono do Banco Master recursos para “Dark Horse”, filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), em um acordo que previa financiamento de US$ 24 milhões.

A proximidade entre os dois integra um quadro mais amplo revelado pela revista piauí: 90% das interações de Vorcaro com interlocutores políticos identificados em um de seus celulares ocorreram com figuras da direita. Outros 9% envolveram nomes de centro e 1%, de esquerda. Sete ex-integrantes do governo Bolsonaro concentraram, sozinhos, 71% dos registros analisados.

Publicado na segunda-feira (19), o levantamento foi realizado pela revista em parceria com o InterSecLab, organização especializada em segurança digital, a partir dos dados extraídos pela Polícia Federal (PF). O conteúdo do aparelho foi copiado em 18 de novembro de 2025, um dia depois da primeira prisão de Vorcaro.

A análise reuniu cerca de 41,6 mil interações e identificou 56 interlocutores políticos: 36 classificados como de direita, 16 de centro e quatro de esquerda. Havia apenas três mulheres na relação. Ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e dirigentes do Banco Central, embora também apareçam nos dados do aparelho, ficaram fora desse cálculo.

Ex-ministro de Bolsonaro concentra quase metade dos registros

No topo da lista está o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, com 19,3 mil interações, quase metade do total. A relação entre os dois também envolveu negócios: Faria vendeu um projeto de energia eólica por R$ 67,5 milhões a uma empresa ligada a Vorcaro. Procurado pela piauí, o ex-ministro afirmou que deixou o governo em dezembro de 2022 e conheceu o banqueiro no fim de 2023, quando já atuava na iniciativa privada.

Em seguida aparecem o ex-advogado-geral da União Bruno Bianco, com 4.782 interações, e o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-ministro da Casa Civil, com 3.967. O grupo de sete ex-integrantes do governo Bolsonaro inclui ainda Fabio Wajngarten, ex-secretário de Comunicação Social da Presidência; o deputado federal Mário Frias (PL-SP), ex-secretário especial da Cultura; e os ex-ministros da Cidadania João Roma e Ronaldo Bento.

Bianco afirmou à revista que conheceu Vorcaro mais de um ano depois de deixar o serviço público e que os contatos decorreram do exercício da advocacia. Entre os demais interlocutores identificados estão Antonio Rueda, presidente do União Brasil, e João Doria, ex-governador de São Paulo.

Flávio negociava e cobrava dinheiro para o filme

A participação de Flávio Bolsonaro no financiamento de “Dark Horse” é objeto de investigação no STF. Documentos da PF tornados públicos em setembro apontam o senador como interlocutor direto de Vorcaro nas negociações, com cobranças de pagamentos, reuniões presenciais e acompanhamento das gravações.

O inquérito apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção e outros delitos relacionados ao financiamento. Os US$ 24 milhões correspondem ao valor negociado, e não ao total comprovadamente transferido. Flávio nega irregularidades e sustenta que a transparência sobre o caso confirmará sua versão de que não houve nada de errado com o filme.

Mensagens apagadas e atuação na crise

Parte expressiva das conversas não pôde ser lida porque as mensagens eram temporárias ou haviam sido apagadas. No caso de Ciro Nogueira, 3.832 das 3.967 interações expiraram. Entre os registros de Wajngarten, 1.071 de 1.151, cerca de 93%, também não estavam disponíveis. Os vestígios técnicos permitiram contabilizar essas trocas, mas não recuperar seu conteúdo.

Wajngarten declarou à piauí que foi contratado pela defesa de Vorcaro em abril de 2025 para cuidar de sua comunicação. Atribuiu o volume de mensagens à distribuição de notícias para uma lista com mais de 200 contatos.

As conversas preservadas mostram outras atividades. Em 28 de abril de 2025, Wajngarten encaminhou ao banqueiro dados bancários para um pagamento de R$ 20 milhões à TV Record e, na mensagem seguinte, informações para outro de R$ 3,2 milhões à própria empresa, a WF Comunicação Estratégica.

Em 17 de novembro, dia da primeira prisão de Vorcaro, o banqueiro pediu que a Record destacasse a solidez do Master diante do anúncio de entrada de investidores privados. Naquela noite, o telejornal da emissora apresentou uma nota nesse sentido. Wajngarten encaminhou o vídeo a Vorcaro. Questionado pela revista, reiterou que sua função era distribuir notícias e não esclareceu a finalidade do pagamento à emissora.

O que a investigação aponta sobre a fraude bilionária

O caso Banco Master envolve diferentes frentes de investigação. Uma delas apura a venda de carteiras de crédito supostamente fraudulentas ao Banco de Brasília (BRB), instituição pública controlada pelo governo do Distrito Federal.

Segundo a PF, o Master teria simulado a aquisição de créditos de uma empresa chamada Tirreno e depois revendido essas carteiras ao BRB. As operações investigadas somam R$ 12,2 bilhões, transferidos entre janeiro e maio de 2025. Esse valor se refere às transações sob suspeita entre os bancos, e não a uma estimativa comprovada de perdas individuais de clientes.

Em nota divulgada após novo depoimento de Vorcaro à PF, em 15 de outubro, sua defesa negou a existência de fraude e de prejuízo ao BRB ou aos clientes. Os advogados afirmaram que as operações foram lícitas e pediram o arquivamento da investigação e a revogação da prisão preventiva.

Outra frente envolve recursos destinados à aposentadoria de servidores. Segundo a piauí, dezoito regimes próprios de previdência de estados e municípios aplicaram R$ 1,87 bilhão em letras financeiras do Master entre outubro de 2023 e dezembro de 2024. Esses títulos não têm cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Com a liquidação do banco, os recursos ficaram sem essa proteção. Vorcaro permanece preso preventivamente na Papudinha, em Brasília.