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João Bosco e seu gol contra

Foto: Sanepar

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Em 1973, Lou Reed gravou Berlin. O álbum acompanhava Jim e Caroline, um casal que atravessa drogas, ciúme, humilhação, violência e destruição. O disco tinha a estrutura de uma pequena ópera, com personagens, mudanças de ponto de vista e uma narrativa que avançava de canção em canção. Não era exatamente o que se esperava dele depois do sucesso de Transformer. Também não era um disco disposto a facilitar a vida do ouvinte.

“Caroline Says II” aparece no ponto em que a violência sofrida por Caroline já não pode ser contornada pela história do casal. Ela se levanta depois de uma agressão e diz que o homem pode continuar batendo, porque alguma coisa entre os dois terminou. A canção é escrita e cantada por um homem, evidentemente. A mulher que ouvimos é uma personagem construída por Lou Reed. Pode-se discutir a passividade dessa personagem, o modo como a agressão é convertida em tragédia, a própria maneira masculina de imaginar a voz de uma mulher submetida à violência. Tudo isso cabe na escuta. Ainda assim, naquele momento do disco, é Caroline quem ocupa o centro da narrativa. É o que aconteceu com ela que determina o sentido da cena.

Lou Reed foi questionado muitas vezes sobre a violência de Berlin. Numa entrevista à Spin, em 2008, recorreu a Shakespeare. Lembrou Hamlet e evocou Otelo e Desdêmona para sustentar uma distinção simples: Shakespeare não precisava concordar com Otelo para escrever Otelo. Um compositor também podia criar um personagem violento sem transformar essa figura numa declaração de princípios.

Essa defesa não torna Lou Reed melhor do que ninguém. Ardiloso, controverso e às vezes ríspido, ele sabia se defender. Não resolve os problemas de Berlin, nem suspende as perguntas que podem ser feitas à maneira como Caroline foi imaginada. O disco permanece aberto à crítica. Foi justamente por isso que me lembrei dele ao ouvir João Bosco falar de “Gol Anulado”.

A canção de João Bosco e Aldir Blanc também pertence aos anos 1970. Nela, um homem descobre que a mulher torce para o time rival e conta que a agrediu com um cinto depois que ela comemorou um gol. A violência surge dentro de uma crônica conjugal e futebolística construída com humor, ressentimento e exagero. Não é a mesma forma de Berlin. Em “Caroline Says II”, a narrativa se aproxima da mulher agredida. Em “Gol Anulado”, permanecemos na voz do agressor, acompanhando seu modo de contar o episódio. Essa diferença formal existe e pode ser examinada. Ela não transforma Reed em artista esclarecido nem Aldir Blanc em defensor da violência. São duas canções escritas por homens de uma época muito próxima, mobilizando a violência doméstica de maneiras distintas.

O problema maior apareceu quando João Bosco tentou responder às críticas atuais. Num primeiro momento, seu argumento é perfeitamente defensável. “Gol Anulado” é uma crônica, uma criação poética. Não é uma lei, um regulamento ou uma orientação de conduta. João Bosco tem o direito de cantá-la. A canção faz parte de uma obra importante e não precisa ser apagada para que a violência representada nela seja discutida.

A resposta muda de natureza quando ele atribui a reação à música a um “identitarismo exagerado”, chama as pessoas de loucas e afirma que elas precisam ser medicadas. Nesse momento, já não está defendendo somente a autonomia da criação. Está desqualificando quem escuta a canção a partir de experiências e perguntas que ganharam força ao longo dos últimos cinquenta anos.

A defesa da canção é uma coisa. A defesa contra qualquer crítica à canção é outra.

A palavra “identitarismo” aparece aí menos como conceito do que como um espantalho reducionista. Reúne feminismo, movimento negro, lutas LGBT, debates sobre gênero e transformações na sensibilidade social sob uma denominação vaga, geralmente usada para apresentar essas questões como inimigas da liberdade, da arte ou da complexidade humana. A crítica é desqualificada antes mesmo de ser examinada. Basta chamá-la de identitária.

Existe uma discussão séria sobre políticas liberais da identidade. Ela aparece quando a representação de determinados grupos passa a funcionar como substituta de mudanças estruturais. Uma empresa pode colocar uma mulher negra num cargo de direção e continuar sustentando relações profundamente desiguais. Uma produção cultural pode ampliar a diversidade de seu elenco sem alterar as condições materiais de trabalho ou a distribuição de poder. Essa crítica é necessária porque inclusão simbólica e transformação social não são a mesma coisa.

Não é disso que se trata quando uma mulher, um movimento feminista ou qualquer ouvinte questiona a naturalização da violência numa canção. Perguntar por que uma agressão aparece envolvida em humor, qual é o lugar da mulher na narrativa ou como aquela cena ressoa hoje não reduz a obra à identidade de seus personagens. Também não elimina a poesia. É uma forma de levar a canção a sério.

Uma obra não nasce fora da sociedade. O poeta trabalha com linguagens, imagens, conflitos, costumes e relações que encontra no mundo. Mesmo quando inventa, inventa com materiais sociais. A liberdade poética não separa a criação das condições históricas que a tornaram possível. Ela permite que a obra organize esses materiais segundo sua própria forma. Essa forma também produz sentidos e pode ser interrogada.

A violência contra a mulher não era menos violenta em 1976. O que se modificou durante esse período foi a capacidade coletiva de nomeá-la, reconhecê-la como problema público e confrontar os mecanismos que a tratavam como assunto privado, brincadeira conjugal ou excesso aceitável de um homem enciumado.

Quem escuta não precisa aceitar passivamente todas as imagens que uma tradição cultural lhe entrega. Pode amar uma obra, reconhecer sua importância e questionar o mundo que aparece dentro dela. Pode inclusive rejeitá-la. A liberdade do artista não exige a obediência do público.

“Gol Anulado” foi escrita em 1976, mas não está congelada em 1976. João Bosco continua cantando a música em 2026. Cada nova interpretação a coloca diante de outro público, de outras experiências e de perguntas que não estavam organizadas da mesma maneira cinquenta anos atrás. Uma canção viva produz novas reações porque continua atuando no presente.

Lou Reed recorreu a Otelo para explicar que representar uma violência não significa defendê-la. É um argumento válido, desde que não seja convertido em imunidade. Otelo continua sendo encenado, estudado e criticado. Berlin continua sendo ouvido e interrogado. “Gol Anulado” segue o mesmo caminho.

João Bosco não precisa abandonar a canção. Precisava apenas admitir que o público também entrou nela. A arte incomoda, não neutraliza. A obra tem o direito de continuar falando. Quem a escuta conserva o direito de responder.

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