“Destruiu minha vida. Destruiu meu casamento. Destruiu meus pais. Eu perdi tudo.” Em post compartilhado nas redes sociais em 19 de abril, a cearense Assíria Macêdo, de 29 anos, contou como o vício em jogos online tirou, em poucos meses, tudo o que ela tinha. Ainda com dívidas, tenta se reerguer longe das chamadas bets, embora ainda não saiba exatamente o que fazer. “Eu e meus pais vendemos as nossas casas e não sabemos mais o que fazer. Estou vivendo de favor.”
A publicação acumula mais de 6 mil comentários somente no Instagram, grande parte deles com relatos semelhantes, e dá a dimensão do que as bets se transformaram no país. Hoje, esse tipo de plataforma ocupa lugar ao lado do crédito rotativo como um dos principais fatores de endividamento das famílias brasileiras. De acordo com levantamento nacional realizado pelo Instituto DataSenado em 2024, 42% dos brasileiros que disseram ter gastado alguma quantia em apostas esportivas ao longo de um mês estavam endividados.
No total, de acordo com o levantamento, cerca de 20,3 milhões de pessoas com mais de 16 anos afirmaram ter apostado nas chamadas bets. É provável que esse número já esteja defasado, já que a realização da Copa do Mundo se transformou na principal vitrine dos jogos online que patrocinam jogadores da Seleção Brasileira e emissoras credenciadas. Em 2024, dados do Banco Central revelaram que R$ 3 bilhões dos R$ 14,1 bilhões pagos pelo Bolsa Família em agosto daquele ano foram usados em apostas.
Para o jornalista esportivo Juca Kfouri, o cenário atual das bets é reflexo da liberação sem regras durante o governo de Michel Temer e, posteriormente, da falta de controle e fiscalização nos quatro anos em que Jair Bolsonaro esteve na Presidência.
“Virou terra de ninguém. O governo Lula herda o problema e ainda tenta encontrar um caminho para solucioná-lo. A meu ver, a tentativa de regulamentar, de olho apenas na arrecadação, sem prever a possibilidade de publicidade excessiva, não é suficiente. A Copa mostrou que a propaganda das bets precisa ser tratada nos mesmos moldes da propaganda de cigarro e bebida”, aponta.
Apesar da preocupação com o agravamento do problema diante de tamanha exposição midiática, Juca diz ser contra a proibição dos jogos online por entender que isso repetiria os efeitos da “Lei Seca” entre as décadas de 1920 e 1930 nos Estados Unidos, quando o país proibiu o álcool e forçou a criação de um mercado paralelo e ilegal para a comercialização da bebida.
“Se proibir as bets por aqui, elas vão se hospedar fora do país e continuar existindo. O que é preciso fazer é insistir numa regulamentação que seja segura para a população e, principalmente, ser muito rigoroso na questão da publicidade.”
Neste ponto, Kfouri prefere evitar o que chama de “fulanização” da culpa. “Como é que alguém que tem uma função social, como um atleta ou um apresentador de tevê, não está atento a isso? As bets estão levando milhares de famílias brasileiras à ruína. E a questão não é só dinheiro, porque quem faz publicidade hoje já é consagrado e não precisaria divulgar esse tipo de conteúdo. Mas o problema saiu tanto do controle que não dá mais para ‘fulanizar’ a questão. Está generalizado. Apontar um culpado só atrasa a busca por uma solução que deve ser encontrada urgente.”
Governo anuncia resposta
Dois dias após a Revista Focus conversar com Juca Kfouri, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou uma série de medidas para endurecer as regras de publicidade das bets e exigir avisos sobre os riscos das apostas, a exemplo do que aconteceu com a bebida e o cigarro.
A ideia é que a iniciativa aconteça por meio de medida provisória ainda durante a Copa do Mundo. Empresas do mercado de apostas esportivas estimam que o torneio pode movimentar até US$ 50 bilhões no mundo, com uma parcela de 10% disso só no Brasil.
“Quando a gente tem esse incentivo às bets, é sempre importante lembrar que a bet faz mal à saúde. É como o cigarro. O Ministério da Fazenda aqui, no caso das bets, adverte: ‘Bets fazem mal à saúde e fazem você perder dinheiro’”, disse ao Globo.
O titular da pasta reiterou também que a liberação das bets com regras mais frouxas é herança de governos anteriores. “Foi o governo Temer e o governo Bolsonaro que deram autorização para as bets funcionarem e nada fizeram. E é sempre importante revisar isso. A gente tem atuado de maneira rigorosa em relação às bets. Punindo e criminalizando as ilegais e exigindo atuação dentro dos limites legais e regulamentares para as legais”, afirmou.
Os efeitos já começam a ser sentidos. Após o Conar, Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária, recomendar a suspensão de propagandas de casas de apostas veiculadas em ações de merchandising na CazéTV durante transmissões ao vivo da Copa do Mundo, a emissora hospedada no YouTube resolveu baixar o tom e anunciou um novo formato para divulgar os parceiros durante os jogos. Segundo o comunicado da emissora, a publicidade será mais formal, em resposta à enxurrada de críticas que recebeu nas redes sociais pela postura agressiva adotada anteriormente para vender anúncios.
Arrecadação e mercado ilegal
O ministro da Fazenda estima que a arrecadação federal com a tributação das bets, as apostas de quota fixa, seja de R$ 9 bilhões ao ano. Os dados apontam forte alta, com o governo arrecadando R$ 4,5 bilhões somente nos quatro primeiros meses de 2026, dobrando o resultado do mesmo período do ano anterior.
No entanto, o número poderia ser ainda maior caso não houvesse tantas casas de apostas atuando na ilegalidade. Durigan informou que a Receita verificou a movimentação de R$ 50 bilhões por 37 bets ilegais somente em junho.
O órgão, que investiga o funcionamento de empresas de apostas sem autorização legal no país, também detectou faturamento incompatível com os rendimentos declarados das empresas já cadastradas. “A partir de agora vai ser tolerância zero com as bets”, finalizou.
Caso de saúde pública
O depoimento da jovem endividada no início do texto escapou de entrar para uma estatística ainda mais grave associada às bets: a de casos que se transformam em problema de saúde pública.
O Levantamento Nacional de Álcool e Drogas, LENAD III, com dados de 2023, aponta que cerca de 10,8 milhões de pessoas a partir de 14 anos jogam de forma arriscada ou problemática. Segundo especialistas, o vício em jogos virtuais, as chamadas bets, que podem ou não ser esportivas, já é considerado problema de saúde pública e tem Classificação Internacional de Doenças, CID: Transtorno do Jogo.
O estudo mostra que os grupos mais vulneráveis são pessoas de menor renda e adolescentes que, em tese, nem poderiam acessar jogos virtuais de apostas segundo a lei brasileira. Entre menores de 18 anos, 55% apresentaram comportamento de dependência, enquanto, na população adulta, esse índice é de 39%. No recorte por faixa econômica, 53% de quem ganha até um salário mínimo joga de forma problemática.
Cerco às bets ilegais
O governo federal e órgãos de regulação têm adotado medidas para combater o mercado ilegal, a evasão de divisas e a publicidade abusiva das plataformas de apostas conhecidas como bets.
A Secretaria de Prêmios e Apostas, SPA, em parceria com a Anatel, tem atuado para bloquear sites e aplicativos não autorizados. Além disso, o Conselho Monetário Nacional, CMN, aprovou resolução que determina o bloqueio de contas e transações financeiras ligadas a empresas ilegais de apostas.
No campo da publicidade, o Conar estabeleceu regras que proíbem propagandas que incentivem o jogo excessivo ou apresentem as apostas como solução financeira. O governo federal também impôs avisos obrigatórios sobre os riscos de danos e dependência nas peças publicitárias.
Também está em funcionamento a Plataforma Centralizada de Autoexclusão, ferramenta que permite aos usuários solicitarem, de uma só vez, o bloqueio de acesso a todas as plataformas de apostas autorizadas pelo governo.
A participação em plataformas de apostas online também é restringida para quem adere aos programas do Desenrola. O bloqueio atua como contrapartida social e de saúde financeira, impedindo que o CPF do beneficiário seja utilizado em sites de apostas durante um período de autoexclusão. A restrição tem duração de um ano.