
As mobilizações que marcaram o encerramento do Julho das Pretas levaram milhares de mulheres às ruas em diferentes regiões do país, reafirmando uma agenda de enfrentamento ao racismo, ao machismo e às desigualdades históricas. Marchas, debates e atividades culturais realizados ao longo do mês colocaram no centro do debate temas como reparação, Bem Viver e a ampliação da participação das mulheres negras nos espaços de poder.
Com programação ao longo de julho, culminando nas celebrações do Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e do Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, o Julho das Pretas reuniu neste ano cerca de 700 atividades organizadas por mais de 290 coletivos em 23 estados e no Distrito Federal.
As manifestações do último fim de semana ocorreram em capitais como Recife, Salvador, Belém e Belo Horizonte, reunindo mulheres negras em torno de uma pauta comum: a reparação pelas responsabilidades históricas do Estado e da sociedade na produção das desigualdades raciais e a defesa do Bem Viver, projeto político baseado no cuidado, na ancestralidade, na coletividade e na preservação da vida.
Em Recife, a Marcha das Mulheres Negras denunciou a sub-representação das mulheres negras nos espaços de poder. Já em Belém, onde o ato chegou à 11ª edição, a mobilização foi guiada pelo tema “Ancestralidade, um projeto de futuro que se faz agora”, reforçando a importância da memória, dos direitos humanos e da participação política. Em Salvador, a marcha reuniu centenas de mulheres em defesa da igualdade, da justiça social e de novos pactos de Bem Viver.
Em São Paulo, a União Brasileira de Mulheres (UBM) convocou suas direções estaduais e municipais a promoverem atividades durante todo o mês de julho. Em manifesto, a entidade definiu o Julho das Pretas como “um chamado à organização, à mobilização e ao fortalecimento da luta das mulheres negras em todo o Brasil”, incentivando rodas de conversa, atos públicos, atividades culturais e debates que fortaleçam o protagonismo das mulheres negras e reafirmem o compromisso com a justiça, a igualdade e a democracia.
Ocupar os espaços de poder
A defesa da ampliação da participação das mulheres negras nos espaços de decisão também esteve no centro das reflexões da presidenta da União Brasileira de Mulheres (UBM), Manuela Mirella, recentemente eleita para comandar a entidade em âmbito nacional. Em publicações nas redes sociais, a dirigente destacou que ser uma mulher negra na política significa enfrentar diariamente estruturas historicamente excludentes.
“Ser uma mulher negra na política é desafiar, todos os dias, estruturas que nunca foram pensadas para nos ver ocupando espaços de poder. É ter a competência questionada antes mesmo de falar, precisar provar duas vezes mais para conquistar um lugar e enfrentar o racismo e o machismo que insistem em nos dizer onde devemos estar”, escreveu.
Manuela também chamou atenção para a baixa presença de mulheres negras na política institucional. Hoje, elas ocupam menos de 6% das cadeiras da Câmara dos Deputados — apenas 29 das 513 vagas. Para a dirigente, esse cenário não é fruto do acaso, mas consequência de um processo histórico de exclusão.
“Essa realidade não é fruto do acaso. É consequência de um sistema que, historicamente, excluiu mulheres negras da política, da representação e do poder”, afirmou.
Segundo ela, ampliar essa presença significa também transformar a forma como são construídas as políticas públicas.
“É justamente por isso que a nossa presença importa. Porque quem sente na pele o peso do racismo, do machismo e das desigualdades enxerga prioridades que muitas vezes são ignoradas”, destacou.
Legado que aponta para o futuro
Celebrado em 25 de julho, o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha também homenageia, no Brasil, Tereza de Benguela, liderança quilombola do século XVIII reconhecida por comandar a resistência negra no Quilombo do Quariterê, no atual Mato Grosso.
Ao lembrar a data, Manuela destacou que o legado de Tereza permanece vivo na luta por igualdade e representação.

Mais do que encerrar um calendário de atividades, o Julho das Pretas reafirmou, neste ano, a organização das mulheres negras como sujeito político na luta por democracia, igualdade racial e justiça social. Das marchas realizadas em diferentes capitais ao chamado por maior representação nos espaços de decisão, as mobilizações reforçaram que enfrentar o racismo estrutural também passa por ampliar a voz e o protagonismo das mulheres negras na construção dos rumos do país.
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