
Eram seis horas da manhã quando o sol começou a nascer sobre Lisboa, desenhando lentamente as primeiras luzes sobre as colinas da cidade ainda silenciosa. Havia no ar uma espécie de ressaca da noite anterior, quando, por toda a cidade, diferentes celebrações haviam tomado ruas, praças e espaços culturais. Concertos, encontros, apresentações, sessões institucionais e atividades de rua espalhavam-se por Lisboa como parte do que se convencionou chamar de Festas de Abril, um calendário que atravessa todo o mês, mas que ganha intensidade particular na noite de 24, quando a cidade passa a viver simultaneamente a memória e a expectativa.
Em diferentes pontos, palcos improvisados e programações organizadas reuniam públicos diversos, enquanto canções marcavam a virada simbólica da data, com Grândola, Vila Morena sendo cantada coletivamente em mais de um espaço, reafirmando uma memória que não pertence apenas ao passado, mas se atualiza no encontro entre gerações. Havia também peças de teatro, debates, atividades promovidas por associações, movimentos e freguesias, além das sessões oficiais que pontuam institucionalmente o significado da revolução, compondo uma programação ampla que se espalhava pela cidade e preparava o terreno para o dia seguinte.
Era também nessa mesma hora, naquela quinta-feira de 1974, que as tropas começaram a chegar a Lisboa, comandadas por oficiais do Movimento das Forças Armadas, entre eles Salgueiro Maia, que lideraria uma das colunas decisivas na ocupação da cidade. Para muitos, aquele seria apenas mais um dia comum de trabalho, mas, sem que soubessem, a história já estava em curso, e o que começava como uma operação militar cuidadosamente coordenada transformaria, ao longo das horas, a vida dos portugueses e passaria a integrar o imaginário das revoluções no mundo.
Cinquenta e dois anos depois, Lisboa acordava novamente com essa memória inscrita no tempo, não como repetição, mas como continuidade. Antes da multidão, a cidade já se movia, com corredores cruzando avenidas nas primeiras provas organizadas pelas freguesias, bicicletas avançando em pequenos grupos, algumas já carregando cravos presos ao guidão, e os primeiros sinais de ocupação surgindo de forma dispersa, como se o corpo da cidade se preparasse para aquilo que ainda estava por vir.




À medida que a manhã avançava, o centro ganhava densidade pela presença contínua de quem escolhia começar o dia pela memória, visitando os lugares da revolução como o Quartel da Pontinha, o Rádio Clube Português, o Largo do Carmo, a antiga sede da PIDE, o Terreiro do Paço e o Aljube, que permaneciam cheios, não como espaços congelados no tempo, mas como pontos vivos onde a história circulava. Pessoas se aproximavam, escutavam explicações, contavam histórias, traduzindo para quem estava ao lado aquilo que viveram ou aprenderam, criando uma pedagogia difusa construída no próprio ato de ocupar a cidade.
Ao longo do próprio dia 25, essa diversidade de atividades continuava a se manifestar, com corridas, encontros culturais, sessões institucionais e iniciativas espalhadas por diferentes pontos, mantendo Lisboa em movimento enquanto públicos diversos transitavam entre essas experiências até convergirem para o grande momento coletivo da tarde, quando a manifestação passaria a sintetizar tudo o que havia acontecido desde a noite anterior.
Era uma tarde quente em Lisboa quando a Avenida da Liberdade deixou de ser apenas via de passagem e se transformou em território coletivo, com um fluxo humano tão intenso que se tornava difícil identificar onde começava ou terminava a manifestação, enquanto milhares de pessoas saíam da Praça Marquês de Pombal e outras já alcançavam o Rossio, compondo um movimento contínuo que reorganizava completamente o espaço urbano.
Caminhar fazia parte da própria experiência do dia, e ao longo do percurso atravessei diferentes trechos da avenida, acompanhando ritmos distintos e observando a multiplicidade de presenças que compunham aquele momento, percebendo como a cidade se revelava em camadas e como, no meio dessa dinâmica, os reencontros aconteciam de forma quase inevitável.




Entre as estruturas de organização, onde entidades, coletivos e articulações políticas se tornavam mais visíveis, a chamada militância ganhava forma, distribuindo materiais, organizando faixas e garantindo a coesão entre diferentes grupos, e foi nesse espaço que, em diferentes momentos, voltei a encontrar os camaradas do Conselho Mundial da Paz de Portugal, presentes na manifestação entre bandeiras e cartazes, reforçando uma dimensão internacionalista que atravessa o próprio sentido do 25 de Abril e conecta a experiência portuguesa a outras lutas ao redor do mundo.
A avenida era ocupada por dezenas de milhares de pessoas, compondo um ambiente que reunia celebração e afirmação, com cartazes erguidos acima das cabeças, bandeiras abertas e palavras de ordem que atravessavam o ar e encontravam eco na multidão, enquanto 25 de Abril sempre, fascismo nunca mais se repetia em diferentes vozes com a força de quem entende que aquela frase não pertence apenas ao passado, mas define um posicionamento no presente.
A diversidade de presenças dava forma ao sentido mais profundo daquele encontro, com crianças abrindo caminho ao lado dos pais, segurando cravos e observando tudo com curiosidade, representando a continuidade de Abril, enquanto logo atrás vinham aqueles que viveram a revolução, incluindo militares ainda vivos daquele processo, corpos marcados pelo tempo, mas presentes, reconhecidos, parte visível de uma história que não se dissolveu, compondo juntos um espaço onde diferentes tempos convivem e se reconhecem.
Mães caminhavam com seus filhos, transformando a participação em uma experiência de transmissão direta, enquanto coletivos como os Netos de Abril afirmavam a continuidade histórica do processo e senhoras avançavam lentamente, muitas vezes com dificuldade, mas com a consciência de que aquele esforço carregava sentido, reforçando a ideia de que a presença naquele espaço era, em si, uma forma de afirmação.




Entre os blocos, a juventude se destacava com intensidade, com a JCP ocupando a avenida com energia própria, entoando palavras de ordem, organizando o ritmo da marcha e dançando a Carvalhesa, o hino da Festa do Avante, que este ano completa cinquenta edições, criando momentos em que o movimento assumia um ritmo que, para olhos brasileiros, lembrava um bloco de carnaval, mas sem qualquer perda de densidade política, já que a alegria não se opunha à luta, mas a atravessava.
Ao longo da avenida, surgiam também espaços de organização concreta, como mesas de solidariedade que reuniam pessoas, materiais e campanhas, oferecendo outra dimensão à manifestação e mostrando como a política se expressa também no gesto cotidiano de organizar, contribuir e construir coletivamente.
O vermelho atravessava tudo, nos cravos, nas bandeiras, nos cartazes e nos corpos, com o batom vermelho marcando presença nas bocas das mulheres e com as celestes, as floristas que em diferentes esquinas mantêm viva a imagem que atravessa gerações, oferecendo cravos que são comprados não como mercadoria, mas como gesto, sendo distribuídos de mão em mão, presos aos cabelos, às roupas e às bolsas, criando uma rede silenciosa de pertencimento que liga desconhecidos em uma experiência comum.
No meio da multidão, carrinhos de bebé avançavam pela avenida ocupando o espaço onde décadas antes tanques haviam passado, enquanto tanques reais reapareciam não como força de intervenção, mas como memória, trazendo sobre si velhos combatentes, compondo uma imagem em que passado e presente se encontram de forma direta.




À medida que a tarde se aproximava do fim, a multidão começava a se dispersar pelas ruas do centro, transformando-se em pequenos grupos e conversas prolongadas, enquanto permanecia no ar uma consciência compartilhada de que aquele dia não era apenas celebração, mas afirmação de que a liberdade exige presença e de que a democracia precisa ser continuamente vivida e defendida.
Abril continua.
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