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Lula aposta em infraestrutura nacional para colocar Brasil na corrida da IA

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou nesta quinta-feira (20), em Macaíba, no Rio Grande do Norte, um pacote de aproximadamente R$ 2,5 bilhões para ampliar a infraestrutura brasileira de inteligência artificial (IA). O anúncio combina investimento em supercomputação, desenvolvimento de chips, pesquisa e criação de uma infraestrutura nacional de nuvem.

Ao justificar a escolha do Nordeste para receber o principal equipamento, Lula transformou a decisão tecnológica em uma política de redução das desigualdades regionais. “Eu não tenho nada contra o Sul, nem contra o Sudeste”, afirmou. Em seguida, completou: “Mas não é justo colocar todo o investimento onde já está toda riqueza”.

A declaração sintetiza uma concepção de desenvolvimento que procura associar política científica e tecnológica à desconcentração econômica. Para o presidente, a infraestrutura necessária à economia digital não deve ficar restrita aos polos tradicionais do Sul e do Sudeste, mas também funcionar como instrumento de desenvolvimento regional.

“Tinham outros estados querendo. São Paulo queria, Campinas queria. E por que eu decidi aqui? Porque eu acho que a gente precisa olhar o Brasil, e os estados que mais necessitam. Se a gente quiser acertar, o comportamento tem que ser igual ao da sua mãe com seus filhos. Se uma mãe tiver com cinco filhos, sentados em uma mesa comendo, ela vai dar um pedaço para cada um, mas se tiver um debilitado, ela vai pegar no colo e vai dar dois bifinhos e vai dar cafuné a mais nele. E nesse instante o Rio Grande do Norte merecia um cafuné no nosso Governo”, falou.

O pacote integra o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), que prevê investimentos de maior escala em pesquisa, infraestrutura, formação profissional e aplicação da tecnologia. Documentos oficiais do governo já apontavam a IA como um dos vetores estratégicos da política de ciência, tecnologia e inovação brasileira.

“Soberania não é retórica, é atitude”

A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, apresentou durante o evento, a estratégia do governo federal para ampliar a capacidade brasileira em inteligência artificial (IA) e computação de alto desempenho.

“Isso aqui é na veia soberania digital brasileira”, afirmou a ministra ao apresentar o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA). Para ela, a questão não se resume à aquisição de equipamentos: o objetivo é fazer com que o Brasil tenha capacidade de desenvolver tecnologias próprias, formar profissionais, dominar componentes críticos e utilizar seus dados e conhecimento em benefício da população.

“Soberania não é retórica, soberania para nós é atitude, é prática, é tirar do papel”, disse.

Um dos argumentos centrais de Luciana Santos é que o Brasil não parte do zero na inteligência artificial. O país possui universidades, centros de pesquisa, empresas, startups e instituições com grande volume de dados e conhecimento científico. Ela citou o Sistema Único de Saúde (SUS), a Embrapa, universidades, Butantan, Fiocruz, Receita Federal e o Pix como exemplos de estruturas que acumulam dados e conhecimento considerados estratégicos.

Luciana Santos destacou ainda que o Brasil ocupa a 13ª posição mundial em produção científica. A construção de capacidade computacional própria, nesse contexto, seria uma forma de aproximar a produção científica brasileira da fronteira tecnológica.

A estratégia apresentada por Luciana Santos está organizada em três rotas tecnológicas. A primeira prevê a compra de um supercomputador para o Rio Grande do Norte. A segunda estabelece uma cooperação tecnológica com a China para uma estrutura de computação avançada no Rio de Janeiro. A terceira aposta no desenvolvimento de circuitos integrados e chips baseados na arquitetura aberta RISC-V.

A lógica é evitar que a busca por soberania resulte simplesmente na substituição de uma dependência internacional por outra. “A gente não quer trocar uma dependência por outra”, disse. A política, segundo ela, deve diversificar fornecedores, negociar transferência tecnológica, formar brasileiros, ampliar conteúdo local e dominar componentes considerados críticos.

Luciana Santos afirmou que o supercomputador que será instalado no Parque Científico e Tecnológico Augusto Severo, em Macaíba, deverá colocar o Brasil entre os dez países com maior capacidade de processamento de inteligência artificial.

A escolha do Rio Grande do Norte foi apresentada como parte de uma política deliberada de desenvolvimento regional. O estado reúne universidades, centros de pesquisa, empresas e uma forte capacidade de geração de energia renovável, especialmente eólica e solar.

A ministra resumiu a dimensão regional do projeto com uma formulação que associa energia e conhecimento: “Esse estado transformou o vento e o sol em energia e agora vai transformar essa energia em conhecimento, tecnologia, inovação e empregos do futuro”.

A segunda rota será desenvolvida no Rio de Janeiro em cooperação com a China. Luciana Santos explica que a estrutura terá uma finalidade complementar: ampliar o domínio tecnológico brasileiro e fortalecer a cadeia produtiva nacional de IA.

A terceira rota, baseada na arquitetura aberta RISC-V, segue a mesma lógica. A tecnologia permite o desenvolvimento de chips sem a dependência de uma arquitetura proprietária. Luciana Santos destacou a participação de diversos países nesse ecossistema, incluindo China, Índia e Estados Unidos.

Para a ministra, o teste decisivo da política de IA será sua capacidade de produzir resultados concretos para a população. Ela citou aplicações na saúde, com desenvolvimento de vacinas e medicamentos; na agricultura, com melhoria da produtividade; na previsão de chuvas e secas; na indústria; e na eficiência dos serviços públicos.

“Então, o supercomputador não serve apenas para fazer conta mais rápido”, afirmou. “Ele serve para transformar problemas que levariam décadas para resolver em coisas do dia a dia do povo brasileiro.”

Supercomputador de R$ 1 bilhão no Rio Grande do Norte

O investimento previsto chega a R$ 1,06 bilhão, dos quais R$ 960 milhões serão destinados à aquisição do equipamento e R$ 100 milhões à preparação e operação da estrutura. A máquina terá capacidade de 7.200 petaflops em FP16, mais de 50 mil núcleos de processamento e consumo estimado em 4 megawatts.

A dimensão do salto tecnológico é expressiva. O atual Santos-Dumont, instalado no Laboratório Nacional de Computação Científica, no Rio de Janeiro, opera em escala muito inferior. Segundo os dados apresentados no anúncio, um modelo de linguagem de grande porte que exigiria anos para ser treinado na máquina atual poderia ser processado em cerca de um mês com o novo equipamento.

Uma resposta à disputa tecnológica entre EUA e China

A opção brasileira ganha dimensão geopolítica diante da crescente disputa entre Estados Unidos e China pelo domínio das tecnologias de inteligência artificial.

A poucos dias do anúncio, informações sobre a pressão do governo Donald Trump para que países escolham entre os ecossistemas tecnológicos americano e chinês haviam recolocado o tema no centro do debate internacional. Nesse contexto, a decisão brasileira de ampliar simultaneamente a capacidade própria e estabelecer cooperação tecnológica com a China adquire significado estratégico.

Lula já havia afirmado que o Brasil ainda não possui capacidade para competir tecnologicamente com americanos e chineses e que pretende manter os dois países como parceiros. O novo pacote materializa essa estratégia: ampliar a capacidade nacional sem aderir integralmente a um dos polos da disputa tecnológica.

O desafio, entretanto, está justamente na execução dessa política. Equipamentos de computação de alto desempenho dependem de componentes, semicondutores e aceleradores produzidos por um número reduzido de empresas globais. A própria ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, reconheceu que existem riscos e incertezas diante das ameaças americanas de restringir o fornecimento de tecnologias críticas a países que negociem com a China.

“Não se trata só de adquirir uma máquina”

A estratégia anunciada pelo governo procura enfrentar essa dependência por meio de contrapartidas tecnológicas. O edital do supercomputador deverá exigir transferência de tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, conteúdo local e participação de fornecedores brasileiros, além da capacitação de 5 mil profissionais em cinco anos.

Também está prevista a criação de um Centro de Transparência Algorítmica, com R$ 50 milhões, destinado a analisar riscos e falhas de modelos de IA disponíveis no mercado. A iniciativa será coordenada por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Outra vertente é a chamada “nuvem brasileira”. A proposta é ampliar a infraestrutura pública de computação em nuvem, com servidores localizados no país e maior controle brasileiro sobre software e dados. O governo já investiu mais de R$ 1 bilhão em servidores fornecidos por grandes empresas de tecnologia e administrados por Serpro e Dataprev.

A intenção agora é avançar para uma infraestrutura em que equipamentos possam ser produzidos no Brasil e utilizem software compartilhado com o Estado.

O discurso de Lula, portanto, apresenta a inteligência artificial como uma questão que ultrapassa a inovação tecnológica. A aposta é transformar infraestrutura computacional, formação de mão de obra, indústria de chips, pesquisa e energia limpa em componentes de uma estratégia de desenvolvimento. A escolha do Nordeste para sediar o principal supercomputador reforça ainda uma dimensão política do projeto: fazer da nova fronteira tecnológica também uma ferramenta de desconcentração regional e de afirmação da soberania nacional.

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