
O presidente Lula (PT) afirmou nesta sexta-feira (14) que pretende colocar a educação e a defesa da soberania nacional entre as prioridades de um eventual quarto mandato. Em entrevista simultânea aos podcasts Não Inviabilize, de Déia Freitas, e As Cunhãs, das jornalistas Inês Aparecida e Hébely Rebouças, Lula também abordou as relações com os Estados Unidos, segurança pública, feminicídio, bets, habitação, sucessão política e a disputa eleitoral no Ceará.
Em uma conversa que alternou temas políticos com histórias pessoais e momentos de descontração, Lula confirmou a candidatura à reeleição e disse que pretende apresentar ao país um projeto capaz de dar um novo salto no desenvolvimento. “Eu sou candidato a presidente da República porque eu acho que nós temos que dar um salto de qualidade no Brasil. Eu agora quero levar o Brasil ao padrão dos países altamente desenvolvidos. E começa pela educação”, afirmou.
Entre as metas apresentadas está a ampliação da educação em tempo integral. Ao responder a Déia Freitas sobre as dificuldades enfrentadas por mães que precisam trabalhar e não têm onde deixar os filhos durante todo o dia, Lula afirmou: “O meu compromisso é terminar o meu mandato, no próximo mandato, com todo o país e com todo mundo tendo a escola em tempo integral”. Para o presidente, é preciso considerar não apenas o custo da política pública, mas também as consequências de não realizá-la: “Fazer é caro. E quanto custa não fazer?”.
Lula também defendeu assistência aos estudantes das instituições federais, com alimentação e moradia para aqueles que necessitam. “A universidade tem que garantir a comida e também um lugar para dormir para os estudantes que não podem pagar”, disse. Segundo ele, a orientação é que os institutos federais contem com condições de moradia e alimentação estudantil.
“Não se meta nos negócios do Brasil”
Um dos momentos mais políticos da entrevista ocorreu quando Lula tratou das relações com os Estados Unidos e das pressões sobre o Brasil. O presidente afirmou que pretende conversar diretamente com Donald Trump e deixar claro que não aceitará interferências no processo eleitoral brasileiro.
“Eu só quero seriedade”, afirmou Lula. Segundo ele, a mensagem a Trump será direta: “Não se meta nos negócios do Brasil e sobretudo na questão da eleição”. O presidente acrescentou que “quem vier dar palpite na eleição aqui nesse país vai perder” e afirmou que o Brasil não abrirá mão de sua soberania.
Apesar das divergências, Lula ressaltou que não busca confronto com Washington e defendeu relações diplomáticas baseadas no respeito mútuo. “O Brasil quer ter uma boa relação com os Estados Unidos. São 201 anos de relação diplomática. Nós não queremos brigar com os Estados Unidos, nem com a China, nem com a Rússia, nem com a França, nem com a Inglaterra, nem com o Uruguai, nem com a Bolívia. A gente quer viver bem com todo mundo”, declarou.
Para Lula, a soberania deverá ocupar lugar central no próximo ciclo político, diante das disputas internacionais envolvendo recursos estratégicos. Ele citou minerais críticos, terras raras, água, florestas e as fronteiras terrestre e marítima brasileiras entre os ativos que precisam ser protegidos.
Segurança pública e combate ao “andar de cima”
Questionado pelas apresentadoras de As Cunhãs sobre a violência e o avanço das organizações criminosas, Lula defendeu maior articulação entre União, estados e municípios. Segundo ele, a aprovação da PEC da Segurança Pública permitirá estabelecer com maior clareza as responsabilidades de cada esfera de governo e abrir caminho para a criação do Ministério da Segurança Pública.
“A PEC está no Senado para ser votada, definindo qual é o papel da União, qual é o papel do Estado, qual é o papel da Prefeitura”, afirmou. Lula disse ainda que, após a aprovação da proposta, será criado o ministério.
O presidente defendeu que o enfrentamento ao crime organizado concentre esforços também nos responsáveis pelo financiamento e comando das organizações. “Nós precisamos combater o crime no andar de cima”, disse. Segundo Lula, a estratégia deve buscar “pegar os que mandam” e devolver às comunidades os territórios submetidos ao poder das facções. Para ele, a tarefa exigirá ação conjunta dos três níveis de governo.
Feminicídio: “Não quero voto de homem que bate em mulher”
A violência contra as mulheres ocupou outro trecho importante da entrevista. Lula reafirmou uma declaração que já havia feito anteriormente: “Eu não quero voto de homem que bate em mulher. Pode votar neles. A mim não me interessa”.
O presidente relacionou o enfrentamento ao feminicídio tanto ao fortalecimento da legislação e das políticas públicas quanto à educação. Ele citou medidas adotadas desde a criação do pacto de enfrentamento ao feminicídio, incluindo mudanças legais, monitoramento eletrônico de agressores e alterações na Lei Maria da Penha.
Para Lula, porém, a legislação sozinha não será suficiente. Ele defendeu que a igualdade entre homens e mulheres e o combate à violência de gênero sejam trabalhados desde a infância nas escolas. Também destacou a importância da autonomia econômica feminina, associando educação, profissão e renda à possibilidade de as mulheres romperem relações violentas.
Lula diz que pode defender fim das bets
Ao ser questionado por Déia Freitas sobre famílias que perderam dinheiro com apostas eletrônicas, Lula fez uma das declarações mais contundentes da entrevista. O presidente comparou o problema das bets à experiência dos antigos bingos e afirmou que os jogos chegaram às casas por meio da internet. “Se depender da minha vontade pessoal, nós acabamos com as bets”, declarou. Lula criticou situações em que recursos destinados às necessidades básicas das famílias acabam sendo gastos em apostas. “Não é possível você saber que um homem ou uma mulher está gastando o dinheiro do leite do filho numa aposta. Está gastando o dinheiro da manteiga, o dinheiro do feijão.”
Segundo ele, o governo pretende ampliar as restrições ao setor. “O meu objetivo final, se ninguém me mostrar uma razão social dessas bets continuarem, nós temos que acabar com elas”, afirmou, reconhecendo que existe resistência no Congresso e parlamentares ligados ao segmento.
Moradia e ampliação do Minha Casa, Minha Vida
Lula também dedicou parte da conversa à política habitacional. O presidente afirmou que a meta é chegar a três milhões de moradias contratadas e ampliar o acesso ao financiamento para segmentos de renda média. “Eu criei o mais importante programa habitacional da história desse país, o Minha Casa, Minha Vida”, disse. Lula acrescentou que o governo busca permitir que trabalhadores com rendimentos mais elevados também encontrem condições de financiamento para adquirir a casa própria.
O presidente destacou ainda o Minha Casa, Minha Vida Entidades, modalidade na qual movimentos e organizações participam da construção das moradias, e mencionou investimentos em habitação rural. “A gente está provando que as comunidades, quando elas assumem responsabilidade, elas constroem casas de melhor qualidade e maiores”, afirmou.
Ceará, Ciro Gomes e apoio a Elmano
A política cearense ganhou espaço na reta final da entrevista. Questionado sobre pesquisas eleitorais e o desempenho do governador Elmano de Freitas, Lula manifestou confiança na reeleição do aliado e prometeu participar diretamente da campanha. “Eu vou no Ceará na campanha, vou gravar para ajudar o Elmano”, afirmou. Lula disse considerar o governador “o melhor para o Ceará” e citou a articulação com Camilo Santana e Cid Gomes.
Sobre Ciro Gomes, Lula criticou o que classificou como personalismo do ex-governador, mas afirmou que não pretende fazer uma campanha baseada em ataques pessoais. “Eu quero guardar do Ciro as lembranças das coisas boas que fizemos juntos. Não quero ficar falando mal do Ciro. Não vou no Ceará para falar mal dele”, declarou.
Sucessão em 2030
Lula também foi provocado a falar sobre a renovação de lideranças no campo progressista e a sucessão presidencial de 2030. Sem apontar um nome preferido, citou políticos de diferentes gerações e afirmou que existem “muitas figuras boas”, mas defendeu que essas lideranças adquiram projeção nacional.
Ao falar sobre o perfil necessário para uma futura liderança, destacou conhecimento do país e compromisso com o combate às desigualdades. “O cara tem que ter uma compreensão do Brasil, o cara tem que ter uma compreensão da desigualdade social nesse país e trabalhar para acabar com ela”, afirmou.
Transmitida ao vivo pelos canais dos dois podcasts no YouTube, a entrevista também teve espaço para relatos da trajetória pessoal do presidente e o estilo característico do Não Inviabilize, conhecido pelo quadro Picolé de Limão. Logo no início, Déia Freitas contou que ouvintes haviam apostado quanto tempo ela demoraria para se emocionar ao encontrar Lula. “Oi gentiii, cheeeguei”, disse a apresentadora, repetindo seu tradicional bordão. “Eu também cheguei”, respondeu o presidente.
O post Lula põe soberania no centro e manda recado a Trump: “Não se meta” apareceu primeiro em Vermelho.