
Em um comício marcado por forte carga simbólica e política na noite desta sexta-feira (12) em Porto Alegre, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva articulou seu discurso em torno de três pilares centrais: a união histórica das forças progressistas sob a bandeira de Leonel Brizola, a defesa intransigente da soberania nacional contra ingerências estrangeiras e um compromisso detalhado com as políticas de gênero e inclusão social. O evento, que lançou oficialmente a candidatura de Juliana Brizola (PDT) ao governo do Rio Grande do Sul, serviu como palco para uma análise crítica do cenário político atual e uma convocação à mobilização popular frente às eleições que se aproximam.
A Aliança Histórica: “Lula lá, Brizola aqui”
O tom do encontro foi dado pela própria candidata Juliana Brizola, que evocou o legado de seu avô, Leonel Brizola, para justificar a união de oito partidos distintos em torno de sua candidatura. “Lula e Brizola muitas vezes caminharam separados, mas quando o Brasil chamou, estavam sempre juntos”, afirmou Juliana, destacando que a coalizão busca resgatar o estado de um “atraso de 12 anos” imposto pelo modelo econômico anterior, caracterizado, segundo ela, pela venda de ativos públicos como água e energia.
Lula reforçou essa narrativa ao celebrar a presença da neta de Brizola, lembrando das antigas divergências que foram superadas em nome da democracia. “Poucas vezes esse país produziu um líder político da qualidade de caráter como o nosso companheiro Brizola. Nesses dias difíceis é que a gente sabe como faz falta na política um homem como o Brizola”, declarou o presidente. Para Lula, a aliança não é apenas estratégica, mas ideológica: “É Lula lá, Brizola aqui, é o povo no Piratini”. Ele criticou duramente a gestão anterior de Eduardo Leite (PSDB), acusando-a de deixar uma dívida de R$ 4,8 bilhões e índices vergonhosos na saúde e educação, prometendo articular com o próximo governo estadual a prorrogação de fundos de reconstrução e a criação de um fundo constitucional de desenvolvimento para o sul, similar aos do Nordeste e Centro-Oeste.
Soberania Nacional e o Alerta contra a Ingerência Externa
Um dos momentos mais tensos e conceituais do discurso ocorreu quando Lula abordou o contexto geopolítico e as eleições brasileiras. O presidente fez um alerta direto contra a influência da extrema-direita internacional, citando especificamente o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, como um modelo de interferência nas democracias latino-americanas.
“Eu nunca tive ingerência na eleição de outro país. E eu tenho avisado, já falei por telefone para o Trump: não se meta nas eleições brasileiras, porque se se meter, vai perder”, afirmou Lula com veemência. Ele anunciou que encontraria Trump na Assembleia Geral da ONU no dia 23 e planejava ser firme: “Eu não me meto nas eleições americanas… Agora, por favor, não mexa com o filho da Dora Lindu”.
Para o presidente, a disputa eleitoral transcende a escolha de nomes; é uma batalha pela independência do país. “Nenhum presidente de outro país vai meter o pé nas nossas eleições. Nenhum”, reiterou, vinculando a vitória de sua chapa e de aliados como Juliana Brizola à manutenção da soberania brasileira frente ao avanço global da extrema-direita.
Governar com “Coração de Mãe”: O Foco nas Mulheres
Lula dedicou extensa parte de sua fala às políticas para as mulheres, assumindo um tom pessoal e combativo contra a violência de gênero. Ele relatou conversas com a primeira-dama Janja sobre casos de feminicídio e anunciou que assumiu a responsabilidade pessoal de acabar com esses crimes no Brasil. “O ciúme não é uma doença. O ciúme é falta de humanidade, é falta de caráter”, definiu, estabelecendo uma linha dura: “Não haverá trégua. O homem que bater na mulher vai ser preso”.
O presidente detalhou uma série de conquistas de seu mandato, incluindo a redução do tempo para concessão de medidas protetivas de 16 para 3 dias, a expansão das Casas da Mulher Brasileira e a distribuição massiva de contraceptivos de longa duração (Implanon). Ele também destacou a aprovação da lei de igualdade salarial e a centralidade das mulheres nos programas sociais: “84% das famílias do Bolsa Família são chefiadas por mulheres… Minha Casa, Minha Vida: a chave é dada para a mulher”.
A filosofia de governo de Lula foi resumida na metáfora do “coração de mãe”. “Para governar esse país e dar certo, é preciso governar com o coração de mãe. Uma mãe, se tiver cinco filhos e cinco bifes, todo mundo vai comer um. Se tiver um fraquinho, ela dá um ‘xamega’ a mais”, explicou, justificando o foco de suas políticas nos mais vulneráveis. Ele concluiu incentivando a consciência política feminina: “Mulher tem que votar em mulher. Mas é preciso saber se a mulher é fascista ou não… Tem que eleger mulher com M maiúsculo”.
Estratégia Eleitoral
Encerrando o ato, Lula traçou a estratégia de votação para garantir a vitória da coligação no Rio Grande do Sul, instruindo os eleitores a votarem primeiro nos deputados federais e senadores da base aliada (Manuela d’Ávila e Paulo Pimenta) para, em seguida, votar em Juliana Brizola e, finalmente, nele mesmo para a presidência. “Quem vota no Pimenta, vota em mim. Quem vota na Juliana, vota em mim. E quem vota em mim, vota nos três. Aí está ganho as eleições”, simplificou o cálculo político.
O discurso de Lula misturou nostalgia militante, análise econômica crítica e propostas concretas de proteção social, posicionando as eleições de 2026 não apenas como uma renovação de mandatos, mas como uma defesa necessária da democracia, da soberania e dos direitos conquistados historicamente pelas classes trabalhadoras e pelas mulheres brasileiras.
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