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Mais de 90% dos moradores de comunidades do Rio desaprovam operações violentas

Nove em cada dez moradores dos quatro principais conjuntos de favelas do Rio de Janeiro discordam da forma como operações policiais armadas são conduzidas e consideram que as mesmas não contribuem para aumentar a segurança dos moradores.

As informações constam da pesquisa “Por que moradores de favelas aprovam ou reprovam operações policiais com confronto armado?”, divulgada nesta quarta-feira (20), e feita pelas ONGs Fala Roça (Rocinha), Frente Penha, Instituto Papo Reto (Alemão), Instituto Raízes em Movimento (Alemão), Redes da Maré e A Rocinha Resiste, organizações da sociedade civil com atuação direta nos territórios pesquisados (saiba mais no final da matéria).

O levantamento abarca os complexos do Alemão, da Penha, a Maré (Zona Norte) e a Rocinha (Zona Sul) que, juntos, somam 21% dos moradores de favelas da cidade e que, em sua maioria, são alvo de operações policiais violentas regularmente.

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A pesquisa, feita de maneira qualitativa e quantitativa, revela que a rejeição a operações desse tipo é ampla: 92% desaprovam a forma como são conduzidas e 95% consideram que elas não contribuem para aumentar a segurança das famílias.

Além disso, 73% dos moradores discordam das ações realizadas nesses territórios, enquanto 25% são a favor e 2% não responderam. Questionados se há excessos e ilegalidades por parte da polícia, 91% afirmaram que sim, percepção compartilhada até mesmo por 85% daqueles que apoiam as operações.

Esgotamento da população

Coordenadora do estudo e diretora fundadora da Redes da Maré, Eliana Sousa Silva explica que “ao dar voz a quem é diretamente impactado, acessamos dimensões fundamentais da vida cotidiana do morador de favela em dias de operação policial”.

Ela acrescenta que as respostas “mostram que há um quadro de esgotamento da população por conta das operações violentas, o reconhecimento dos excessos dos policiais e uma evidente falta de legitimidade dessa que se tornou, ao longo dos anos, a única política de segurança em favelas e também a única forma das polícias atuarem nesses territórios”.

Segundo a pesquisa, quando perguntados se operações policiais como a Contenção precisam acontecer outras vezes, 85% dos moradores dizem que não, 7% consideram que às vezes e 7% afirmam que sim.

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O levantamento também mostrou que 68% dos entrevistados defendem que as operações “precisam ser realizadas de outra forma” e 24% dizem que “não deveriam ser realizadas operações policiais em favelas”.

Mesmo entre os que concordam com as operações, apenas 20% defendem o modelo atual. “A vida para quando tem operação”, disse um dos entrevistados que participou da pesquisa qualitativa.

Contraponto

A pesquisa é um contraponto importante às visões que permeiam boa parte da população — especialmente a que não vive nas comunidades diretamente atingidas — e que, há anos, é induzida a acreditar que o crime organizado se combate, sobretudo, com violência estatal nos territórios.

Isso fica claro em pesquisa realizada poucos dias após a Operação Contenção. Comandada pelo ex-governador bolsonarista Cláudio Castro em 28 de outubro de 2025, nos complexos do Alemão e da Penha, a operação foi a mais letal já realizada no Brasil, com 122 mortos. De acordo com levantamento da Quaest divulgado em 1º de novembro, 64% dos moradores do estado do Rio de Janeiro aprovaram a ação e 73% declararam que a polícia deve seguir realizando incursões semelhantes em outras comunidades.

Esse modelo de atuação, defendido pela direita e pela extrema direita e que tem sido aplicada por boa parte dos governos estaduais há mais de 40 anos, tem se mostrado inócua no combate ao crime, além de altamente prejudicial às populações mais pobres que vivem sob o jugo dessas facções, sejam elas do tráfico ou milícias. Para citar apenas um recorte, somente entre 2023 e 2025, a Maré, sozinha, somou 92 operações policiais, de acordo com a Redes da Maré.

Fato que demonstra a ineficácia desse modelo é que dias após a Operação Contenção, o Comando Vermelho (CV), alvo da ação, voltou a operar normalmente nas comunidades. Além disso, é público e notório que nas últimas décadas, as facções aumentaram sua capilaridade e ampliaram seu poder e suas áreas de atuação em praticamente todo o Brasil.

Maior discordância está entre jovens e negros

Outro dado aferido pela pesquisa é que o rechaço em relação a esse tipo de operação é mais elevado entre os mais jovens, chegando a 79% na faixa dos 18 aos 29 anos.

“Esse número pode estar relacionado à maior exposição — direta ou indireta — às dinâmicas da violência motivadas pelas operações policiais: seja porque são eles que estão nos espaços públicos no momento em que a polícia entra, seja porque são alvos de processos de criminalização, ou ainda pela proximidade com outros jovens”, diz o estudo.

A pesquisa também mostrou que a população negra tem 81% de discordância em relação a essas ações armadas violentas. O maior percentual de concordância, 30%, está entre os brancos. Da mesma forma como no caso da juventude, os negros tendem a ser mais expostos à violência policial por razões ligadas ao racismo histórico e estrutural brasileiro.

Da mesma forma, a pesquisa mostra que a percepção do preconceito nas operações policiais é majoritária. Quando questionados sobre se acham que há racismo no modo em que as operações são realizadas nas favelas, 61% dizem que sim, 13% às vezes e 25% que não. “Se é preto e jovem, já entra como suspeito”, relatou um dos participantes.

Experiência concreta e medo da polícia

A experiência dos moradores dessas comunidades com tais operações e a relação deles com a política também foram aferidas na pesquisa. Ao todo, 93% dos entrevistados disseram ter vivenciado diretamente ou ter um familiar que vivenciou operações policiais. Esse padrão se mantém independentemente da posição em relação às operações, com percentuais elevados tanto entre aqueles que discordam (94%) quanto entre aqueles que concordam (91%) com elas. 

Dentre os que passaram por essa experiência, a restrição de circulação aparece como o impacto mais recorrente, apontado por 51% dos que discordam das operações e 41,5% entre os que concordam.

Em seguida aparece a invasão ou violação de domicílio, estabelecimento comercial ou veículo, mencionado por 37,5% entre os que discordam e 22,9% entre os que concordam com as operações. A presença recorrente de tiroteios e de balas perdidas foi apontada por 30,5% dos que discordam e 20,7% dos que concordam com as operações.

No que tange à visão sobre a polícia, 78% dos moradores declararam sentir medo desses agentes durante as operações. Pouco ou bastante medo é prevalente entre os dois grupos, sendo a resposta de 85% entre aqueles que são contrários às operações e 59% entre os favoráveis.

Indignação e revolta

Operação Contenção. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

A pesquisa chama atenção para uma “evidente inversão na percepção do papel do Estado na proteção do cidadão, que se repete quando são questionados sobre indignação ou revolta em relação às operações”. Os dados apontam que 50% dos entrevistados sentem bastante indignação, 25% um pouco e 24% afirmaram não sentir indignação ou revolta. Balas perdidas e desrespeito aos moradores são as principais razões citadas para terem esses sentimentos em relação aos policiais.

Por outro lado, a pesquisa ressalta que quando os moradores foram perguntados sobre a atuação dos grupos armados em seus territórios, houve menor incidência de medo e indignação: 52% afirmaram não se sentirem indignados e 59% responderam que não têm medo. “A menor incidência de medo e revolta em relação aos grupos armados pode ser entendida pela natureza da experiência, devido ao convívio próximo e à presença cotidiana no mesmo território”, pondera o estudo.

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Perguntados sobre se há excessos e ilegalidades durante as operações por parte da polícia, 91% dos entrevistados responderam que “sim” ou que “sim, às vezes”. Também ficou configurado que os entrevistados não apenas reconhecem os abusos, como também os rejeitam: 90% consideram os excessos inaceitáveis, alcançando 95% entre aqueles que discordam das operações policiais. Entre os que concordam com as operações, 74% consideram as práticas ilegais e inaceitáveis. “Ou seja, concordar com as operações não significa aceitar violência”, argumenta o estudo.

Há também rejeição à letalidade deliberada: apenas 3% concordam com a afirmação de que “geralmente, nas operações, a polícia precisa matar”. Do total, 41% afirmam que “nunca está certo matar durante as operações” e 54% concordam que “deve ser evitado matar, mas há situações em que não há como evitar”.

Na avaliação de Arthur Dóring, do Instituto Raízes em Movimento, “os dados mostram que o morador de favela não aguenta mais que a presença estatal seja associada ao medo e à violência em seus territórios. É preciso garantir direitos e transformar de fato a vida de quem vive hoje sob este medo e violência constantes, vindos de todos os lados”.

Sobre a pesquisa

A pesquisa foi realizada em duas etapas, uma qualitativa e uma quantitativa. Na primeira, foram realizados oito grupos focais, com a participação de 79 moradores. Na etapa quantitativa, foram feitas entrevistas estruturadas presenciais com 4.080 moradores, entre os dias 13 e 31 de janeiro de 2026, distribuídas de forma igualitária entre as quatro localidades (1.020 em cada). 

O estudo teve apoio da Cátedra Patrícia Acioli da UFRJ, Centro de Estudos de Segurança e Cidadania (CESeC), Fundação Tide Setúbal, Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (Geni) da UFF, Instituto Fogo Cruzado, Laboratório de Análise da Violência (UERJ) e Open Society Foundations.

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