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Memórias do Jornalismo: Quando o partido já não basta

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O texto a seguir compõe a série Passageiro da História, memórias de Carlos Azevedo.
Leia também:
Carlos Azevedo, Passageiro da História
[1] O dia em que Jânio Quadros renunciou
[2] Memórias do Jornalismo: A Semana da Legalidade

[3] Um país polarizado e um repórter brincando com fogo
[4] Memórias do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer
[5] Memórias do Jornalismo: Revista ousada em tempo obscuro
[6] Memórias do Jornalismo: A ditadura arreganha os dentes
[7] Memórias do Jornalismo: Clandestinidade e “libertação”
[8] Memórias do Jornalismo: Em pauta, a revolução brasileira
[9] Memórias do Jornalismo: Sete anos no esconderijo

Em 16 de dezembro de 1976 aconteceu a sanguinária Chacina da Lapa. Com a queda do Comitê Central o partido ficou provisoriamente sem direção. Minha única ligação partidária era com Aldo Arantes, que havia sido preso. Estava sendo barbaramente torturado, mas não disse uma palavra sobre mim.  

Eu estava completamente isolado. A orientação era: não procure o partido. O partido te procura. Até que isso acontecesse se passaram dois anos.

Em 1975 nós havíamos nos mudado para uma velha casa na Vila Industrial. Tinha algumas vantagens: uma entrada para carro pelos fundos do quintal. Ficava em frente a um pequeno clube que cobrava mensalidades modestas e tinha uma boa piscina onde as crianças se divertiam. Ficava a um quarteirão da casa onde moravam a mãe e a tia de Maria Lucia. E a menos de 800 metros da estação de trem.

Embora preocupado, decidi que não íamos mudar. E tratei de manter todas as atividades que me cabiam antes. Até trabalhava ainda mais. Mantive a leitura de jornais, análise de conjuntura e produção de pautas e matérias para Movimento. 

Comprei um rádio potente e um gravador para captar o programa de rádio transmitido toda noite pelo partido pela Rádio Tirana, da Albânia. Eram falas sobre a conjuntura internacional e do Brasil. E matérias do jornal A Classe Operária, da direção do PCdoB, produzidas por João Amazonas e Renato Rabelo, que estavam exilados em Paris. Gravava, copiava a gravação em finas folhas de papel de seda (10 cópias) e enviava para vários endereços. 

Além disso, durante aquele período escrevi dois livros. Um sobre a política etnocida da ditadura contra os indígenas, que enviado para o Exterior, foi traduzido em diversas línguas. E serviu de prova contra a ditadura no Tribunal de Bertrand Russel. O outro livro tratava da estrutura agrária do Brasil, que avaliei erradamente como semifeudal. A parte desse livro que trazia dados estatísticos sobre a propriedade da terra foi publicada em Movimento.

Além disso fazia caminhadas diárias, boas para a saúde física e também muito úteis para ir pensando nos materiais que produzia.

Nessa altura tínhamos uma kombi. Fazia parte de um projeto nosso de produzir e comercializar plantas ornamentais, que fracassou. A kombi ficou e a usamos em passeios e viagens. Em algum momento em 1978 viajamos Maria Lucia, Ana (9 anos), eu e a cachorra Bolinha pelo litoral Sul. Retirado o banco do meio, instalamos um tablado com colchonete que serviria de cama para nós três. Por baixo ia um fogão a gás, panelas e alimentos. Bolinha dormiria no banco da frente.

Viajamos com muita calma de Campinas a Cananéia, de balsa passamos para Ilha Comprida, uma praia de 70 quilômetros. Ali descobri que esquecera de trazer água suficiente. Viajamos por algumas horas pela praia e só fomos encontrar água ao entardecer. 

Dormimos dentro da kombi. Dia seguinte, deparamos um pescador chegando do mar. Vinha aborrecido porque só capturara duas pescadas amarelas. Quisemos comprar, ele não aceitou vender, nos deu.  Maria Lucia fez com elas uma gostosa salada do peixe com batata e cebola. Fiz uma batida de cachaça com limão. Passamos horas brincando nas ondas de águas cristalinas, Bolinha inclusive, mas sem descuidar de Ana. Se a menina ia mais fundo um pouco a cachorra já corria para perto dela.

Maria Lucia queria tomar um banho de água doce. Viajamos para Peruibe, tomamos banho num hotelzinho e jantamos na praia. Na manhã seguinte fomos ao Guaru, que então era um recanto selvagem. Na margem do rio havia um rancho de pescadores. Atravessamos o rio e caminhamos pela praia. Lembro-me em determinado momento que uma grande cobra verde desceu pelo barranco bem na nossa frente e entrou no mar. Paramos no caminho e Maria Lucia fez um almoço com camarão. Na manhã seguinte começamos a voltar. Paramos num posto para abastecer. O frentista veio limpar o para-brisa. Bolinha, que fazia a segurança, latiu furiosa. “Calma, ele só está limpando o vidro”.    

Rogério não pôde viajar porque estava trabalhando e namorando. Luciano, 13 anos, não quis vir, ficou cuidando dos vários gatos da casa, vendo TV horas sem fim, tomando Toddy com leite e pão, seu alimento preferido. Ele sempre iria gostar de ficar em casa. 

A ditadura, em crise econômica e perdendo sustentação política, fazia concessões. Havia pressão dos exilados, dos presos políticos e aos poucos a campanha pela anistia ganhou apoio na sociedade. Em vez da anistia ampla, geral e irrestrita o regime fabricou uma anistia que antes de qualquer aspecto, livrava a cara dos torturadores e assassinos, e foi dando aos pedaços anistia para os opositores políticos. Ainda assim, foi um avanço: os presos deixaram os presídios e os exilados puderam voltar ao país. No Brasil não acontecem mudanças transformadoras. Acossada, a oligarquia recua soltando pedaços de concessões. 

A ditadura ainda iria se arrastar por seis anos, negociando seu recuo, com concessões à oposição democratizante, mantendo no essencial o entulho autoritário. Mais que isso, visto em perspectiva se constata o prevalecimento da oligarquia empedernida que até os dias de hoje (2026) maneja os cordões do poder. Por vezes a tendência popular chega ao governo, mas nunca consegue tomar o poder.

O partido marcou um contato com Maria Lucia no Rio de Janeiro. Ela foi com a Ana, ficaram no Hotel Guanabara, bem no centro. O contato era para combinar o meu reencontro com o partido. Ela aproveitou e levou a filha de 9 anos para conhecer o monumento do Cristo Redentor. 

Fui ao encontro de um camarada. Mas havia outro querendo falar comigo. O que estava acontecendo? O partido estava dividido. Após a queda da Lapa uma parte se reorganizou sob a direção do operário e antigo militante  ferroviário José Duarte, com sede em São Paulo. Ele assumiu que era a direção existente, portanto, no comando da organização. Ao mesmo tempo, João Amazonas, Arruda Câmara e Renato Rabelo, desde Paris e Tirana, lembravam que eram os membros do Comitê Central em liberdade e, portanto, eram a direção. 

Fui procurado por representantes das duas tendências e manifestei minha definição pelo que me parecia a continuidade da direção legítima. O partido mergulhou na luta interna. 

No início de 1979, mesmo antes da anistia, decidi voltar à vida legal. Me encontrei com os ex-companheiros de Realidade, Narciso Kalili e José Carlos Marão, este na época casado com minha irmã Yara. O casal fez um churrasco para nos receber. Meus pais haviam se separado anos antes, mas estavam presentes junto com vários amigos.

Por algum tempo continuei colaborando com Movimento. Para ganhar algum dinheiro também fui colaborar com Narciso Kalili, que estava lançando Doçura, uma interessante revista de serviços distribuída gratuitamente nas caixas dos supermercados Pão de Açúcar.

Com a anistia, os dirigentes do PCdoB estavam de volta à legalidade. A direção continuava a publicar A Classe Operária. E decidiu produzir também um jornal legal, mensal, que seria distribuído nas bancas de jornais e vendido a um preço irrisório. 

Coube a Rogério Lustosa, querido camarada já falecido, a direção do jornal. Destacados para a equipe, Bernardo Joffily e sua companheira Olívia Rangel, que estavam voltando de anos de trabalho na Rádio Tirana, da Albânia. Eu era o quarto. 

Antes de tudo tive de enfrentar um triste rompimento. Fui comunicar a Raimundo Pereira que não podia mais continuar colaborando como Movimento porque o partido me chamara para fazer seu jornal. E ainda tinha que ficar na Doçura, de onde tirava meu sustento e da família. Fui para esse encontro acabrunhado, mas Raimundo, como sempre, foi nobre. Declarou lamentar, mas entender. Afinal eu devia disciplina ao partido. 

Fomos criar o jornal que veio se chamar Tribuna da Luta Operária. Mensal, tamanho grande, oito páginas. Texto bem popular etc. Mas como fazer? Dinheiro? Não tem. Sede? Não tem. “Virem-se!” Enfim, com recursos minguados o número zero veio a público em novembro de 1979. Contou com a bela capa de cabeças de operários desenhada por nada menos que o companheiro Elifas Andreato a meu pedido.

Nesse meio tempo eu trouxe a família de Campinas para São Paulo. Maria Lucia tirou os inquilinos do apartamento de sua tia em Vila Monumento, no Ipiranga, e trouxe as duas velhinhas de volta. Com um agravante, elas estavam mais alquebradas. E eu, insensível ao problema, não sei por que, podendo alugar uma casa perto delas, decidi ir morar no Butantã, do outro lado da cidade. Minha desculpa é que era perto do campus da USP, os meninos poderiam ir estudar ali. Nenhum dos dois estudou lá.

Quanto ao filho mais velho, Rogério, com 24 anos, casou-se com uma sul-africana de origem indiana. Por influência dela vendeu o apartamento que comprara no Largo do Pará, centro de Campinas, e foram morar em Bolonha, Itália, a pretexto de cursar a faculdade de medicina.

Na Tribuna a gente fazia de tudo. O jornal estava sendo impresso numa gráfica perto do aeroporto de Congonhas. Um bando de jovens militantes me procurou para que eu os ajudasse e pegar o jornal. Não sabiam dirigir. Queriam que eu dirigisse uma kombi, mas era a kombi mais quebrada, batida, enferrujada, que eu já vira. Ela andava meio torta. E lá fomos nós. Na volta, carregada, eu vim bem devagar, atrapalhando o trânsito, esperando que a polícia não nos parasse. E a turminha se divertindo.

Ultimamente o que estava me empolgando era o trabalho de editor e repórter na revista Doçura. Aos poucos fui aderindo à vida boemia de meus colegas de redação.

Meu histórico de militância foi a maior parte do tempo sozinho, cumprindo as tarefas de propaganda. Fui ficando incomodado com os ruídos, a agressividade das partes naquele processo de divisão e luta interna que estávamos vivendo. E o lado do jornalismo boêmio me atraindo. Em abril de 1980, a greve dos metalúrgicos do ABC, sem receber apoio de outras tendências políticas, foi derrotada. Sensação de que as coisas não avançavam. Desanimei. E deixei o partido. 

Meu argumento era que minha família havia passado por grandes vicissitudes durante anos e agora eu queria cuidar melhor dela. Na verdade, estava deixando em segundo plano o compromisso com a luta, com o povo em abstrato, e voltando-me para buscar o sucesso individual, a satisfação pessoal que eu havia sufocado por mais de uma década de militância política. Não estava passando para o outro lado, nunca passaria, continuava vivenciando a crítica socialista da sociedade, mas procurava outras formas de manifestar buscando um trabalho que também me desse prazer. A volta ao grande jornalismo. Mal comparando, um arremedo de Augusto Matraga?

Dona Julinha, mãe de Maria Lucia e doce criatura, faleceu em dezembro de 1980. Esta continuou cuidando da tia Maria José, que sofria com uma doença que hoje chamamos de Alzheimer. E diabetes, que lhe custou cirurgias nas pernas. Iria falecer onze anos depois, em 1991, Maria Lucia ao seu lado, no Hospital dos Servidores.

Narciso Kali tinha um lado gênio que era saber realizar uma publicação bem-sucedida. Mas acho que ele logo se cansava. Deve ter se cansado de Doçura. O movimento de crítica à violência contra a mulher estava surgindo. Ele me mandou a Belo Horizonte fazer reportagem sobre um engenheiro que assassinou a mulher a tiros, a sangue frio. Contei a história em detalhes. Ele fez uma capa explosiva. Uma bala de revolver está a caminho da cabeça de uma mulher, como havia acontecido. E manchetou: Os maridos assassinos de Minas Gerais!

O Pão de Açúcar impediu a circulação da revista em Minas. E demitiu Narciso. Eu também me demiti. 

Narciso foi trabalhar no departamento de jornalismo da TV Globo de São Paulo, ao lado dos antigos companheiros de Realidade, Woile Guimarães, Luís Fernando Mercadante e Eurico Andrade.

Troquei meu carro, levei a família de férias para Peruíbe. Na volta, em janeiro de 1982, estava sem dinheiro. Os amigos na TV Globo se movimentaram: Woile Guimarães e os outros se juntaram a Humberto Pereira e Gabriel Romeiro, diretores do programa de TV Globo Rural.   

Estava de novo na estrada, viajando por todo o país e deixando com Maria Lucia a responsabilidade de cuidar da casa, de dois filhos adolescentes. Eu não sabia nada de televisão. Mas aos 42 anos tinha história. E sede de rodar pelo mundo.

A ditadura militar chegava ao fim, a campanha das Diretas Já tomava conta das ruas, o movimento popular em ascensão. O general ditador João Figueiredo, doente e desanimado, nem queria mais governar. Havia animação e se renovavam as esperanças pela democracia e por uma vida melhor. Viajando pelo interior tive quase nenhuma participação nesse movimento. Mas no dia 25 de janeiro de 1985 eu e Maria Lucia estávamos no grande comício da Praça da Sé. Naquela manhã eu havia embarcado num avião da Vasp em Campo Grande, Mato Grosso do sul, para participar do comício.

Trabalhava para o programa de TV, Globo Rural, da TV Globo. A equipe era competente e procuramos fazer um bom jornalismo, dando voz aos agricultores e às boas práticas agrícolas. Acabamos por produzir uma reportagem que obteve grande repercussão e ficou na história do programa. A reportagem sobre uma boiada transportada por boiadeiros a pé, cruzando praticamente todo o Mato Grosso do Sul, saindo de Corumbá, na fronteira com a Bolívia indo até a divisa com São Paulo. Produzimos uma série de sete matérias de 10 a 15 minutos cada. 

Indo ao ar por sete domingos contínuos, virou quase que uma novela seguida com entusiasmo por um público recorde no horário das 9 horas. Um resumo dela foi ao ar no Globo Repórter com duração de 40 minutos. Durante alguns anos quando a Globo fazia pesquisa sobre qual reportagem o publico queria ver de novo a Boiada era citada em primeiro lugar.  

Demorei três meses envolvido nesse trabalho, desde encontrar um fazendeiro que concordasse em deixar filmar a viagem de uma boiada de sua propriedade, até trabalhar como repórter e dirigir uma equipe de três profissionais – cameramen, dois auxiliares, de som e luz – nas condições mais difíceis pelo pantanal do Mato Grosso do Sul.

Era janeiro, o Pantanal começava a encher de água vinda das chuvas nos rios de cabeceira. Calor, muito calor. Como acompanhar a caminhada de cerca de 1.200 bois pelo brejo, como dizem os pantaneiros?

Deixei o Globo Rural em 1984 por erros que cometi. Envolvido por pessoa intrigante e ambiciosa por poder, me indispus com Humberto Pereira, o Editor-Chefe. Por arrogância, fui injusto com ele e fiquei sem condições de continuar. 

Em 1985 uma conjunção de acasos me levou a assumir no meio a campanha de TV de Fernando Henrique Cardoso a prefeito de São Paulo.

Em seguida fui trabalhar na TV Cultura, levado pelos meus amigos e irmãos Raul Bastos e Mauro Bastos, este, chefe de reportagem no jornalismo da emissora.

Ali dirigi o documentário Quarenta Anos da UNE. Mas não fiquei muito tempo. Fui chamado pela amiga Ivone Cirilo, chefe da assessoria de comunicação da Secretaria de Educação do governo Orestes Quercia, cujo secretário era Chopin Tavares Lima. E a ajudei a montar a equipe de imprensa da secretaria. 

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