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México reduz espaço da extrema direita e vira referência na América Latina, avalia especialista

Em meio ao avanço da extrema direita em diferentes partes do mundo, o México segue em sentido oposto, colocando-se como jogador no caos geopolítico criado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que chegou a ameaçar frontalmente o país latino. “De fato, à diferença do restante da América Latina e, na realidade, de grande parte dos países do mundo, o país vem se caracterizando como um outlier ante esse avanço”, aponta a professora Beatriz Naddi, especialista em política latino-americana.

Segundo a professora (UEMA), a combinação entre alta popularidade, continuidade de políticas sociais e reorganização do campo político ajuda a explicar por que a oposição tem encontrado pouco espaço para se afirmar.

É nesse contexto que se consolida o governo de Cláudia Sheinbaum. Eleita em 1º de outubro de 2024, após ter governado a capital mexicana, a primeira mulher a ocupar a presidência do país dá continuidade ao projeto iniciado por Andrés Manuel López Obrador, conhecido como “Quarta Transformação”, baseado na ampliação de políticas sociais, combate à pobreza e defesa da soberania nacional.

Continuidade com ajustes: o método Sheinbaum

“Sheinbaum mantém a centralidade social, mas imprime um perfil mais técnico e operativo, especialmente na segurança e na condução econômica”, aponta Naddi. A pesquisadora destaca que o governo combina a manutenção de programas sociais com um discurso de maior disciplina fiscal e uma atuação mais pragmática em áreas estratégicas, como a política energética.

Essa continuidade com adaptação ajuda a entender não apenas a estabilidade interna do país, mas também sua posição no cenário regional. “O México não aparece hoje como um polo de ruptura, nem como um governo de centro liberal clássico. Trata-se de uma potência média que busca ampliar sua autonomia sem romper com seu principal vínculo externo”, analisa.

A partir dessa combinação entre força política interna e pragmatismo externo, o país tem conseguido sustentar uma agenda progressista em um ambiente internacional cada vez mais polarizado e, ao mesmo tempo, limitar o avanço de forças conservadoras no plano doméstico.

Lei a seguir a entrevista com Beatriz Naddi, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal do Maranhão:

O governo de Cláudia Sheinbaum tem colocado em prática um trabalho iniciado por Obrador. O que difere um do outro?

Antes de tudo, é importante destacar que Cláudia Sheinbaum continua o legado político de López Obrador, marcado pelo que chamam de “Quarta Transformação”, que, resumidamente, diz respeito a grandes marcos políticos do México (entre eles, a Revolução Mexicana), sendo esta atual marcada pela exaltação à democracia, justiça social e combate à corrupção.

Frente a isso, Sheinbaum manteve a retórica de transformação e centralidade social e deu continuidade às políticas de Estado de bem-estar social, com destaque para a pensão para mulheres de 60 a 64 anos, bolsas para estudantes da educação básica e atenção médica domiciliar para idosos. As novidades estiveram, em grande medida, menos numa ruptura com o obradorismo e mais na forma de governar e em alguns ajustes de agenda.

Na segurança, Sheinbaum preserva a ideia de que é preciso enfrentar também as causas sociais da violência, mas procura imprimir um perfil mais técnico e operativo, com maior ênfase em inteligência, investigação e coordenação entre instituições, ao mesmo tempo em que mantém a Guarda Nacional como eixo da política de segurança.

Na economia, outra diferença importante é o discurso de maior disciplina fiscal. Ao assumir, Sheinbaum defendeu um orçamento “responsável” e a redução do déficit sem aumento de impostos, enquanto o fim do governo López Obrador foi marcado por forte expansão do gasto social e pela conclusão de grandes obras de infraestrutura, o que pressionou as contas públicas.

Também há um ajuste de postura na área econômica e energética. Embora Sheinbaum mantenha a defesa da soberania energética e do papel central da Pemex e da Comissão Federal de Eletricidade, seu governo vem combinando essa agenda com maior abertura a investimentos coordenados com o setor privado e com um discurso mais pragmático sobre transição energética.

Mais recentemente, inclusive, sua gestão sinalizou uma inflexão em relação ao fracking, o que marca uma diferença relevante em relação à posição mais claramente refratária de López Obrador.

Claudia está com a popularidade em alta, mas ainda há ameaça da extrema direita no país?

De fato, à diferença do restante da América Latina e, na realidade, de grande parte dos países do mundo, o México vem se caracterizando como um outlier ante o avanço da extrema direita. E isso fica, em parte, explicado pela alta popularidade mantida tanto pelo governo de López Obrador quanto pelo de Sheinbaum, que seguem uma agenda, dentro dos parâmetros político-ideológicos do México, de centro-esquerda ou esquerda.

Frente a isso, parece haver pouco espaço para a oposição, seja ela qual for. A oposição tradicional mexicana aparece fragmentada, enfraquecida e sem uma liderança nacional claramente capaz de rivalizar com o peso político de Morena e da Quarta Transformação. PAN e PRI saíram debilitados das eleições de 2024, sem espaço institucional importante. Além disso, o PRD perdeu seu registro nacional.

No arranjo legislativo, esse cenário se repete e a supremacia da plataforma governista, com Morena e seus aliados, é evidente. E, mesmo quando há derrota por parte do governo mexicano na aprovação de alguma pauta, como no último mês com o fracasso da reforma eleitoral, a proposta caiu não apenas pela resistência oposicionista, mas também porque aliados habituais de Morena, como PVEM e PT, recusaram apoio integral.

Dessa forma, a principal possibilidade de contrapeso hoje tem vindo com mais força das próprias divisões internas do campo governista. Isso não quer dizer que não haja no México redes de grupos e ativismo ultraconservador, mas elas não se traduziram até hoje numa força eleitoral nacional consolidada. O caso mais visível foi o de Eduardo Verástegui, um nome da direita radical/ultracatólica, com discurso antiaborto, anti-LGBTQ+ e afinidade com Trump.

Ele tentou se viabilizar em 2024, mas não conseguiu sequer entrar na cédula presidencial porque fracassou na coleta de assinaturas exigida.

Além disso, o Morena ocupou parte do terreno conservador, conseguindo abrigar setores e práticas que, em outros países, poderiam alimentar candidaturas mais à direita. Um exemplo importante foi a aliança firmada com o Partido Encuentro Social (PES) em 2017-2018, uma legenda de raízes religiosas e agenda socialmente conservadora, contrária ao aborto e aos direitos LGBT. Outro exemplo foi a condução da pandemia, sobretudo no início da crise sanitária, quando López Obrador adotou uma postura frequentemente criticada como negacionista, ao minimizar publicamente os riscos da COVID-19 e relativizar recomendações de prevenção.

Soma-se a isso o fato de o México ser historicamente muito nacionalista, o que dificulta vender uma direita abertamente alinhada a repertórios pró-EUA ou ao universo MAGA de Trump.

Nesse sentido, o apoio a pautas da extrema direita que vem sendo liderada na atualidade pelo presidente estadunidense afeta a própria histórica necessidade do México em afirmar sua soberania frente a Washington.

O que o Brasil pode aprender com o México hoje? E o que o México tem feito que se inspirou no Brasil?

O México pode ser uma grande escola para o Brasil atualmente no que se refere à unidade mais evidente de suas forças políticas, visto que esse cenário tem permitido ao primeiro uma maior efetividade de suas políticas, especialmente domésticas. Mesmo estando também sob liderança de um governo progressista, a polarização política e a fragilidade da base governista limitam, em certa medida, a capacidade de maiores avanços por parte do governo brasileiro em todos os âmbitos, das políticas sociais às fiscais e às econômicas.

Já no que se refere às inspirações brasileiras no México, é possível notar que, nos governos de López Obrador e Claudia Sheinbaum, algumas políticas sociais e econômicas mexicanas dialogam, em maior ou menor grau, com repertórios que marcaram os governos Lula e Dilma.

Para além da recente institucionalização de uma política de saúde universal, programas como o Vivienda para el Bienestar lembram a lógica de expansão habitacional subsidiada do Minha Casa Minha Vida; Jóvenes Construyendo el Futuro se aproxima das políticas brasileiras de inclusão produtiva e qualificação juvenil; e Sembrando Vida guarda afinidades com iniciativas de inclusão socioprodutiva rural e proteção socioambiental impulsionadas nos governos petistas.

Já no plano econômico, o Plan México e a retomada de uma coordenação estatal mais ativa do investimento em infraestrutura e setores estratégicos aproximam-se, em termos de estilo desenvolvimentista, do que no Brasil se viu com o PAC e outras políticas de indução pública do crescimento.

Como você avalia a posição política do México numa América cada vez mais polarizada?

É interessante pensar como, em diversas oportunidades ao longo da história, o México esteve em momentos distintos daqueles que o continente, particularmente a porção latino-americana, estava passando. Por exemplo, ao longo das décadas de 1960, 1970 e 1980, enquanto muitos de seus irmãos latino-americanos estavam passando por golpes e ditaduras militares, o México se manteve politicamente estável (pelo menos em sua aparência institucional), como uma república democrática (novamente, pelo menos em sua aparência institucional).

Décadas mais tarde, mais especificamente na primeira década dos anos 2000, outro descompasso entre a realidade política mexicana e muitos de seus vizinhos latino-americanos aconteceu, quando a maior parte da América Latina passava pela chamada “onda rosa”, enquanto o México estava sendo liderado pela direita neoliberal.

Agora, novamente isso ocorre, quase como uma situação reversa à anterior, com o Morena ascendendo à liderança mexicana ao mesmo tempo em que Bolsonaro, Milei e Duque. Dentro desse contexto, pode-se afirmar que o México ocupa hoje uma posição de esquerda institucional acompanhada de forte pragmatismo ante essa América polarizada.

De um lado, o governo Sheinbaum se insere claramente no campo progressista, vide sua participação, na última sexta-feira, dia 17 de abril, da articulação internacional de lideranças de esquerda e de centro-esquerda em Barcelona com Lula, Petro e outros líderes.

De outro, o próprio governo insiste em enquadrar essa atuação não como um bloco “anti-Trump”, mas como uma agenda de cooperação, paz e multilateralismo. Isso sugere que o México busca combinar identidade progressista com margem diplomática.

E essa moderação não é só escolha ideológica; é também uma necessidade estrutural. A política externa mexicana continua ancorada em princípios constitucionais como autodeterminação, não intervenção e solução pacífica de controvérsias, ao mesmo tempo em que o país precisa preservar uma relação funcional com Washington por causa do comércio, da segurança e da migração.

Por isso, o México não aparece hoje como um polo de ruptura, no estilo de experiências mais confrontacionais da esquerda latino-americana, nem como um governo de centro liberal clássico. A posição mexicana se parece mais com a de uma potência média regional que tenta ganhar autonomia sem romper com seu principal vínculo externo.

Em termos regionais, portanto, isso coloca o México mais próximo de uma esquerda nacional-desenvolvimentista, soberanista e seletivamente multilateral, do que de uma esquerda abertamente antiocidental ou antiestadunidense.

Me explique melhor o contexto político histórico do México para que se faça um panorama de como a esquerda se fortaleceu por lá.

Para entender como a esquerda se fortaleceu no México, é preciso começar pela longa hegemonia do Partido Revolucionário Institucional (PRI). Durante grande parte do século XX, o sistema político mexicano funcionou sob um hiperpresidencialismo sustentado por um partido hegemônico, com eleições pouco competitivas, forte disciplina partidária, centralidade do presidente e uma ideologia nacionalista vinculada à Revolução Mexicana, capaz de acomodar setores diversos sem se fixar rigidamente no eixo direita-esquerda. Nesse contexto, a oposição tinha pouco espaço real, incluindo a esquerda, que muitas vezes permanecia marginalizada ou absorvida parcialmente pelo próprio discurso nacionalista e social do PRI.

A mudança começa quando essa hegemonia passou a mostrar desgaste. Particularmente, o Massacre de Tlatelolco, em 1968, tornou visível o custo autoritário da ordem priista, e a abertura política dos anos 1970, embora controlada, ampliou o espaço legal para novas forças partidárias. Assim, a oposição começou a ganhar terreno não porque o regime tivesse se tornado democrático de repente, mas porque a hegemonia do PRI já não conseguia conter do mesmo modo as pressões sociais e políticas acumuladas.

O ponto de virada mais importante veio nos anos 1980, quando a crise da dívida e a adoção de ajustes estruturais deslocaram o PRI de seu velho nacionalismo revolucionário para uma orientação tecnocrática e neoliberal. A partir disso, setores tradicionais do PRI foram isolados, resultando, mais adiante, na fundação do Partido da Revolução Democrática (PRD) por dissidentes priistas. Daí nasce um elemento central do fortalecimento da esquerda mexicana: ela não veio apenas “de fora” do sistema, mas também de uma dissidência do próprio bloco dominante.

Somado às reformas eleitorais graduais, a trajetória da esquerda passa por três momentos. Primeiro, a institucionalização do PRD como principal polo da esquerda pós-priista. Segundo, a alternância de 2000, quando o Partido da Ação Nacional (PAN), de direita neoliberal, venceu a presidência e encerrou 71 anos de domínio presidencial do PRI, o que consolidou a abertura do sistema sem necessariamente resolver os problemas sociais e a crise de representação. Terceiro, e mais central para explicar a distribuição de poder contemporânea do México, a reorganização da esquerda em torno de López Obrador. Após as consecutivas derrotas nas disputas presidenciais de 2006 e 2012, ele rompeu com o PRD, institucionalizou o Morena como partido político em 2014 e venceu as eleições presidenciais em 2018.

Sheinbaum, eleita em 2024 com a maior votação da história democrática mexicana, consolidou esse ciclo. Enfim, é possível associar o fortalecimento da esquerda no México à combinação entre crise do regime priista, abertura institucional gradual e reorganização política da oposição de esquerda.