
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou na noite desta terça-feira da cerimônia de abertura da 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), realizada em Niterói (RJ). Acompanhados por ministros de Estado e autoridades locais, os líderes do governo federal reafirmaram o compromisso com a soberania nacional e a inclusão social, mas o tom central do evento foi um desafio lançado pelo presidente à comunidade científica: a necessidade de construir um plano de financiamento robusto e inovador para a área.
Desafio à comunidade científica
Em seu discurso, Lula cobrou da SBPC e da Academia Brasileira de Ciências (ABC) a apresentação urgente de uma proposta ousada para o setor. O presidente alertou que, dentro das limitações do atual arcabouço fiscal, não há orçamento suficiente para alavancar a ciência brasileira.
“Se a gente for discutir pesquisa a partir do orçamento que a gente tem, a gente não vai ter investimento”, afirmou, sugerindo que a comunidade científica ajude o governo a “pensar aonde arrumar dinheiro” e a construir alternativas fora da caixa para viabilizar o setor.
Soberania e geopolítica
O presidente conectou o investimento em ciência e tecnologia à soberania nacional e à geopolítica global. Ele destacou que o Brasil não pode ficar à margem da disputa entre Estados Unidos e China em áreas como inteligência artificial e minerais críticos.
“Ao invés de ficar brigando com eles, eu quero derrotá-los estudando mais do que eles, investindo mais do que eles”, disse.
Lula também defendeu a criação de um plano robusto para a Defesa Nacional, lembrando que o país possui 16.800 km de fronteira seca e 8.000 km de costa marítima, e que a proteção do pré-sal e da Amazônia exige Forças Armadas equipadas e valorizadas.
Inclusão e história das universidades
Lula fez uma extensa reflexão sobre o histórico de exclusão no ensino superior brasileiro. Ele criticou a antiga visão da elite de que a universidade não era para trabalhadores, negros ou indígenas, e resgatou a criação de universidades federais no ABC Paulista durante seus primeiros mandatos.
O presidente também comparou o atraso histórico do país, notando que a primeira universidade brasileira só surgiu em 1920, e celebrou a mudança de perfil das instituições federais, que hoje atendem majoritariamente estudantes de classes populares.
Entregas e a nova Estratégia Nacional
A ministra da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luciana Santos, destacou que o governo já destinou R$ 55 bilhões para o setor, com mais R$ 30 bilhões em recursos empoçados a caminho, totalizando R$ 80 bilhões. Ela entregou a Lula a nova Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (ENCTI), que prevê um plano decenal com a meta de atingir 2% do PIB em investimentos até 2034. A ministra celebrou inovações 100% nacionais, como a vacina Spintec, o ônibus elétrico, o barco voador da Amazônia e o laboratório Sirius.
“É uma honra entregar aqui uma versão da Estratégia Nacional de Ciência e Tecnologia para um plano decenal… Essa estratégia, presidente, foi feita com muitas mãos, foi iniciada na 5ª Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia, que há 14 anos não acontecia. São 100 mil pessoas que participaram dessa construção e esse documento estabelece um compromisso do Estado brasileiro com essa política pública.”
A ministra também lançou o desafio de um novo pacto para elevar os investimentos, mirando a meta histórica de 2% do PIB até 2034:
“Os objetivos que nós estamos pretendendo na ENCTI é um sonho histórico de garantir 2% do PIB até 2034 para a ciência brasileira. E, para isso, nós precisamos do investimento empresarial para aumentar esses investimentos. Então, a gente vai fazer isso no contexto, presidente, de um novo pacto que nós vamos construir.”
Anfitriões celebram avanços no Rio
O prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, destacou que a cidade abraça a ciência, com 40% da população em nível superior, e listou grandes obras de infraestrutura federal no estado, como a retomada do Estaleiro Mauá e do Complexo Petroquímico de Itaboraí.
O reitor da UFF, Antônio Cláudio da Nóbrega, ressaltou que dois terços dos estudantes da universidade vêm de famílias com renda de até três salários mínimos e cobrou o aumento do número de doutores no país, hoje em 10 a cada 100 mil habitantes, contra 30 na OCDE.
O governador em exercício do RJ, Ricardo Couto, por sua vez, elogiou os investimentos federais em saúde e educação no estado e pediu reflexão à população sobre as escolhas políticas futuras.
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