
O Brasil se tornou “o teste mais forte” da estratégia de Donald Trump para ampliar o controle dos Estados Unidos sobre o hemisfério ocidental. A avaliação é do New York Times, que nesta segunda-feira (17) qualificou as ações do governo do presidente norte-americano como uma nova etapa da chamada Doutrina Donroe.
Para o jornalista Jack Nicas, que assina a reportagem, essa doutrina opera como “um conjunto de punições e recompensas” voltado a enquadrar governos latino-americanos, favorecendo aliados e isolando países que resistem à agenda de Washington — e foi justamente no governo Lula que a estratégia encontrou seu maior limite.
Segundo o NYT, a diferença em relação a fases anteriores da política externa dos EUA é o abandono de justificativas ideológicas, como anticomunismo ou defesa da democracia.
A lógica atual seria “puramente pragmática”, voltada a maximizar a influência norte-americana, garantir acesso privilegiado a recursos estratégicos e ampliar o raio de ação econômica das empresas dos EUA.
Nesse contexto, Trump tem aplicado tarifas, pressionado governos eleitos, ampliado operações militares e retomado mecanismos de coerção que afetam diretamente a soberania latino-americana.
O artigo cita que as ações funcionam como uma atualização da antiga Doutrina Monroe, formulada em 1823, que buscava barrar a presença europeia no continente. Em 2025, o alvo declarado é a China, cada vez mais presente na região por meio de investimentos, acordos de infraestrutura e comércio.
Para o governo Trump, conter a influência chinesa exige reconfigurar alianças, definir zonas de influência e utilizar instrumentos econômicos e militares para forçar adesões.
Ao mesmo tempo, o jornal aponta que a política não é apenas retórica. Ela se materializa em medidas concretas, como sanções, tarifas de 100% contra governos específicos, pressões diretas sobre processos internos de outros países e intervenções militares no Caribe e na costa sul-americana.
Nesse redesenho, o Brasil ocupa a posição mais sensível — e, segundo o NYT, mais estratégica — para medir os limites da ofensiva norte-americana.
Tarifa de 50% foi usada para tentar interferir no processo contra Bolsonaro
O ponto central do artigo é a denúncia explícita de que Trump usou tarifas de 50% e novas sanções como forma de interferir no andamento do processo judicial contra Jair Bolsonaro.
“Mas o Brasil representa o teste mais forte da abordagem de Trump. Em julho, ele atingiu o país com tarifas de 50% e sanções em um esforço para impedir o processo criminal do governo brasileiro contra o ex-presidente Jair Bolsonaro, aliado de Trump”, diz o texto.
A pressão partiu diretamente de Trump, que tratou a condenação de Bolsonaro como um ataque a um aliado político. A ofensiva incluiu declarações públicas, comunicação diplomática hostil e a imposição repentina das tarifas, que afetaram setores estratégicos da economia brasileira. Segundo o jornal, o objetivo era “não deixar o processo avançar”.
A resposta do governo Lula foi oposta ao que Washington esperava. Em vez de ceder, o presidente criticou publicamente a interferência e reforçou que a Justiça brasileira atuava de forma independente.
O artigo destaca que, após o episódio, Lula cresceu nas pesquisas de opinião, enquanto o governo dos EUA viu sua pressão inicial perder apoio no próprio Congresso norte-americano.
O desfecho imediato foi desfavorável a Trump. A tentativa de proteger Bolsonaro fracassou e, semanas depois, o ex-presidente brasileiro foi condenado em caráter definitivo.
Segundo o NYT, a Casa Branca se viu isolada na ofensiva e o custo político da pressão acabou sendo maior do que o eventual benefício, revelando os limites da Doutrina Donroe quando aplicada a um país de grande peso regional com liderança forte.
Após fracasso, Trump recua e busca aproximação com Lula
Diante do insucesso, o governo Trump alterou abruptamente sua postura. Segundo o NYT, o republicano se reuniu com Lula poucas semanas após a condenação de Bolsonaro e declarou que “gostava” do presidente brasileiro — gesto que marcou o fim imediato da escalada de hostilidade.
É neste ponto que o jornal identifica o Brasil como “teste mais forte”: o país resistiu, não cedeu e o governo norte-americano foi obrigado a mudar de curso.
O artigo ainda afirma que EUA e Brasil iniciaram tratativas para suspender as tarifas, embora setores próximos a Trump ainda defendam alguma forma de pressão como mecanismo de barganha.
O NYT sublinha que a aproximação repentina não significa necessariamente mudança de estratégia, mas sim reconhecimento de que uma política de coerção direta não produziu o resultado esperado.
Para analistas ouvidos pelo jornal, a tentativa de Trump de interferir em processos internos de outros países é uma característica central da Doutrina Donroe.
No caso brasileiro, porém, o desgaste diplomático e a firmeza do governo Lula criaram um ponto de inflexão: o uso de tarifas como ferramenta de punição encontrou limites concretos.
O episódio reforçou a leitura de que o Brasil não é um ator secundário, mas um país capaz de influenciar toda a dinâmica regional. Para Washington, reverter o conflito tornou-se uma necessidade estratégica — inclusive para evitar que a crise fosse interpretada por vizinhos como uma derrota da nova política hemisférica dos EUA.
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