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O comboio é nosso, mas o lucro é deles

Os trabalhadores enfrentam serviços cada vez mais precários. Foto: Reprodução

O governo português anunciou a privatização das linhas mais rentáveis da Comboios de Portugal logo após um investimento público milionário em novos comboios.

Luan Almeida | Portugal


INTERNACIONAL – No início de 2026, o governo de Portugal (PSD/CDS) anunciou a privatização das linhas mais rentáveis da Comboios de Portugal (CP), com a desculpa que seriam necessárias melhorias nos serviços e na gestão. Na realidade, foi a destruição dos serviços públicos, criados e estruturados durante anos com o suor dos trabalhadores. Tudo isso visando a alimentar a sanha por dinheiro dos capitalistas. 

O anúncio dessas privatizações não é um acaso, pelo contrário. Foi algo muito bem planejado. Surge precisamente após o investimento milionário da CP na compra de 117 novas automotoras (840 milhões de euros) – a primeira grande modernização em 23 anos. Dados recentes mostram que, só na Linha de Sintra, a procura pelos serviços disparou mais de 100% entre 2015 e 2025. Estamos perante uma expansão de serviços financiada pelo povo trabalhador e, agora, o governo pretende entregar de bandeja nas mãos de milionários e do capital estrangeiro.

“Sucesso” da Fertagus

O contrato com a Fertagus foi um subsídio do Estado português à empresa privada. Eles receberam os comboios que eram da CP, num esquema de bastidores, cheio de detalhes contratuais e centenas de páginas com muitos termos jurídicos que ajudaram a empresa a lucrar ainda mais.

Quando chegou o momento de manutenção e renovação dos equipamentos, a empresa optou por não o fazer. Como resultado, recebeu um belo presente: o Estado recomprou as automotoras, assumiu a responsabilidade pela sua renovação, e a Fertagus continuou operando normalmente. Quanto aos custos?  Tudo foi pago pelo Estado Português, ou melhor, pelos impostos dos trabalhadores.

Fica evidente que o discurso da privatização não se sustenta em pé.  Se uma empresa ganha a concessão com a desculpa de oferecer um “melhor serviço”, porém, ela não arca com a manutenção básica dos serviços e não aumenta a sua capacidade, por que essa empresa continua com a concessão dos mesmos? A resposta é apenas uma: o Estado, na sociedade capitalista, serve como o balcão de negócio para os lucros dos grandes burgueses.

A experiência da Fertagus é um exemplo perfeito de como a privatização de serviços públicos não garante melhoria dos serviços a longo prazo. Na realidade, essas ações aumentam os custos para os trabalhadores e os lucros para os empresários. E o pior: usando o Estado como intermediador dessa transferência sobre a farsa da “melhoria na gestão”.

Um projeto de classes

É visível o caráter de classe desse modelo de negócio. O interesse coletivo é desprezado para garantir o lucro de poucos. Mesmo diante do caos nos serviços o contrato da Fertagus foi prolongado até 2031. O governo diz que é para “restabelecer o equilíbrio financeiro”, em vez de promover um novo concurso público ou reintegrar o serviço na esfera estatal.

Enquanto isso, o serviço só piora e os comboios vivem superlotados. Diante dessa gestão deplorável, o Estado vai socorrer a empresa e disponibilizar material circulante da CP ou adquirir novos comboios com fundos públicos para suprir a falha do operador privado. Como apontam os sindicatos, é inaceitável transferir recursos públicos para sustentar um negócio privado, em detrimento da capacidade de resposta da própria empresa pública.

Devemos frear esse avanço covarde contra a classe trabalhadora. A luta dos trabalhadores dos transportes públicos em Portugal não é uma luta isolada por salários, é a defesa do direito à cidade, à dignidade e ao tempo de vida de cada cidadão que depende do comboio para sobreviver.

Matéria publicada na edição impressa nº 333 do jornal A Verdade