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Projeto de terras raras em Caldas ameaça soberania e meio ambiente

 Enquanto a mineradora australiana Meteoric Resources protocolou em março de 2026 o pedido de Licença de Instalação para o Projeto Caldeira, investimento de R$ 2,2 bilhões em terras raras, moradores de Caldas e Poços de Caldas veem o empreendimento como mais um capítulo do velho extrativismo brasileiro. Em vez de trazer desenvolvimento, o projeto ameaça a agricultura, o turismo, a saúde pública e a soberania nacional. As críticas vêm de quem vive na região e conhece de perto os riscos de um modelo econômico voltado apenas para a exportação de matéria-prima de baixo valor agregado.

Andressa Schpallir, presidenta do PCdoB de Poços de Caldas e conselheira do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Codema), questiona a lógica de exploração sem contrapartida industrial. “Não basta que Minas Gerais, mais uma vez, apenas exporte os minérios para os EUA e outros países, como já acontece com o minério de ferro. É preciso que se instale uma cadeia industrial de alta tecnologia para atuar em todos os elos das terras raras”, afirma a dirigente. Schpallir defende que o país precisa de um controle estatal mais rígido e limites à participação estrangeira, criticando o PL 2.780/2024 por não proteger os interesses nacionais. Para ela, o projeto atual condena a região a ser uma “zona de sacrifício”, onde os lucros são externos e os riscos, locais.

Riscos ambientais e proximidade nuclear

A localização do empreendimento é um dos pontos mais críticos. As cavas previstas situam-se a menos de um quilômetro da Unidade de Descomissionamento de Caldas (INB), que abriga mais de 20 mil toneladas de rejeitos radioativos. Schpallir cobra uma análise séria dos impactos na saúde, citando o exemplo de outros projetos onde pilhas de rejeitos próximas a áreas urbanas geram riscos respiratórios e poluição sonora. O físico Daniel Tygel, presidente da Aliança em Prol da APA da Pedra Branca, reforça o alerta ao destacar que o método de lixiviação química com ácido sulfúrico atacará 5 milhões de toneladas de argila por ano. “Aqui 100% do processo é químico. É um volume muito grande de argila que tem suas propriedades alteradas e se torna mais ácida”, explica Tygel.

Mineradora pressiona pelo início da extração

A Meteoric Resources sustenta que o Projeto Caldeira representa uma das operações de terras raras mais sustentáveis fora da China. A empresa australiana afirma que o método de extração em argila iônica dispensa explosivos, perfurações e barragens de rejeitos, utilizando lixiviação com sulfato de amônio — solução considerada benigna e semelhante a fertilizante — seguida de empilhamento a seco e devolução das argilas às cavas para reabilitação progressiva. A mineradora garante recirculação de cerca de 96% da água, baixo consumo energético e acesso à matriz renovável da CEMIG, além de ter apresentado estudo de impacto ambiental com mais de 3 mil páginas, audiências públicas e respostas técnicas ao MPF sobre a proximidade com a INB. Segundo a companhia, o investimento gerará empregos, royalties e contribuirá para o objetivo brasileiro de agregar valor local aos minerais críticos, com planos futuros de refino no país.

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O risco ambiental da técnica de exploração

Tygel que também é ambientalista desmonta o discurso corporativo de que a amônia utilizada no processo serviria como fertilizante para o solo após a extração. Segundo ele, trata-se de uma informação falsa, pois a amônia é altamente tóxica e a argila devolvida às cavas não possui matéria orgânica para absorvê-la como nutriente. “O que eles vão fazer para tentar conter essa situação é compactar a argila para transformar em uma espécie de gigantesca laje, gerando uma desertificação da área”, adverte o físico. Ele aponta ainda o risco da drenagem ácida de mina, que pode dispersar metais pesados e radionuclídeos (átomos que emitem algum nível de radiação) pelas águas da região, atingindo bacias que abastecem cidades como Ribeirão Preto e Barretos.

Impacto no futuro econômico da região

Além do desastre ecológico, Tygel ressalta que o projeto compromete a vocação econômica histórica da cidade. Para o ex-vereador, a mineração irracional ameaça a agricultura, a vitivinicultura e o turismo hidrotermal. “O que a gente percebe é que a forma como está vindo essa proposta é inadequada e não implica necessariamente no desenvolvimento. A tendência é sufocar as outras atividades do município, de modo que, quando terminar essa onda da mineração, não tenhamos uma economia própria e resiliente”, argumenta. Ele cita o exemplo de outras cidades mineradoras que sofreram com o aumento da violência e o colapso dos serviços públicos de saúde.

As moradores pedem a suspensão imediata do licenciamento até que estudos independentes sejam realizados. Entre as propostas apresentadas pela comunidade, e ignoradas pelas autoridades locais, estão a vedação do uso de estradas municipais pelo tráfego intenso de caminhões e a criação de uma zona de amortecimento de pelo menos três quilômetros em torno da INB para garantir a segurança nuclear. Para Tygel, o momento é de perda de oportunidade: uma riqueza estratégica que poderia impulsionar o desenvolvimento nacional está sendo entregue de forma a ameaçar o futuro da região e a segurança hídrica de parte do Sudeste brasileiro.

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