
Todos os anos, no dia 15 de maio, os palestinos lembram e denunciam a Nakba (“catástrofe”, em árabe), marco de um processo contínuo de limpeza étnica, colonização e apartheid promovido pelo Estado de Israel e que se arrasta por quase oito décadas. Em todo o território palestino, o povo sai às ruas em protesto, levando as chaves de suas antigas casas, que representam a esperança e o direito dos palestinos de retornarem às suas terras e viverem em paz.
Heron Barroso | Redação
LUTAS DO POVO – A palavra catástrofe pode ser definida como um acontecimento súbito e terrível, que causa grande destruição e sofrimento. Comumente, é usada para descrever desastres naturais ou grandes acidentes. Mas, para o povo palestino, a ideia de catástrofe tem um significado particular, presente e doloroso.
Nakba palestina tem início em 15 de maio de 1948, o dia seguinte à autoproclamação de “independência” de Israel. Sim, independência entre aspas, afinal, colonizadores não podem declarar independência de um território que já pertence a outro povo. Nesse dia, 774 cidades e povoados palestinos foram invadidos e destruídos por grupos armados sionistas. Em poucas semanas, mais de 15 mil pessoas foram mortas e milhares ficaram feridas ou mutiladas. Os sobreviventes foram forçados a fugir com apenas as roupas do corpo e as chaves de suas casas – chaves que hoje, 78 anos depois, tornaram-se o símbolo do Direito de Retorno.
Ao todo, aproximadamente 800 mil palestinos foram expulsos de suas terras em 1948 – cerca de 85% de toda a população que vivia no território destinado a Israel pelo plano de partilha da ONU. De pequenos proprietários de terras e pastores, os palestinos foram transformados, da noite para o dia, em “refugiados”.
A origem da catástrofe
A Nakba tem suas raízes no final do século 19, quando o movimento sionista propôs a criação de um Estado judeu na Palestina, então parte do antigo Império Otomano. Nessa época, a população da Palestina era composta por 95% de árabes (muçulmanos e cristãos) e apenas 5% de judeus.
Financiados pela grande burguesia europeia e estadunidense, os judeus sionistas começaram a comprar terras e construir assentamentos judaicos na região, expulsando os camponeses árabes que viviam e trabalhavam nessas propriedades há séculos.
Com o fim do Império Otomano, após a Primeira Guerra Mundial, a Palestina passou a ser controlada pelo Império Britânico, de 1920 até 1948. Nesse período, a imigração judaica para a região aumentou significativamente, incentivada pelo imperialismo. A resposta palestina foi a Grande Revolta Árabe (1936-1939), um levante popular contra o domínio inglês e a colonização sionista.
A revolta começou com greves e protestos, mas rapidamente evoluiu para uma insurreição armada. O programa era claro: o fim da expulsão dos camponeses de suas terras por colonos judeus e a independência da Palestina. A repressão foi brutal: mais de 10% da população adulta masculina palestina entre 20 e 60 anos foi morta, ferida, presa ou exilada.
A criação do Estado de Israel
O fim da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) determinou a derrota militar da Alemanha nazista pelas forças aliadas, especialmente a URSS, e revelou ao mundo o horror do Holocausto, com o assassinato em massa de judeus e comunistas.
Nesse contexto, ganhou força o apelo pela criação de um Estado judeu. Em 1947, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou um plano de partilha da Palestina (Resolução 181), que previa a criação de dois Estados: um judeu e outro palestino, além da internacionalização de Jerusalém. Apesar de os judeus somarem cerca de 33% da população e possuírem apenas 7% das terras, o plano da ONU lhes destinou 55% do território.
A ONU, ao “criar” um Estado sobre a terra de outro povo, negou o direito à autodeterminação dos palestinos. Um trágico erro! Os sionistas, apoiados pelo Inglaterra e pelos EUA, impuseram sua vontade à força. Ao final de 1948, Israel havia tomado cerca de 40% da área inicialmente destinada aos palestinos pelo plano da ONU.
A ocupação e a colonização da Palestina avançaram ainda mais após a Guerra dos Seis Dias, em 1967, quando Israel ocupou a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Oriental, consolidando seu domínio militar sobre essas áreas. O apartheid e a violação de direitos do povo palestino se aprofundaram. Novos assentamentos ilegais foram criados, casas demolidas, terras confiscadas e um sistema jurídico duplo foi imposto: liberdades democráticas para colonos judeus e ditadura militar para palestinos.
Mais de 800 mil palestinos já passaram pelo sistema carcerário israelense arbitrariamente, sem acusação formal ou processo legal, incluindo milhares de crianças. Nessas prisões, verdadeiras masmorras, os palestinos são torturados física e psicologicamente, isolados de suas famílias por anos e privados das necessidades mais básicas, numa flagrante violação dos direitos humanos cinicamente ignorada pelos “países civilizados”.
A ocupação militar sionista também dividiu e isolou o território palestino, tornando impossível uma vida social, econômica e política autônoma. Na Cisjordânia, a expansão dos assentamentos ilegais, protegidos pelo exército de Israel, continua a expulsar de suas terras comunidades palestinas inteiras. É o que os palestinos chamam de “Nakba contínua”.
Genocídio palestino
A partir de outubro de 2023, o Estado fascista de Israel intensificou sua ofensiva militar sobre a Faixa de Gaza, bombardeando, por meses seguidos, hospitais, escolas e campos de refugiados. Mais de 70 mil palestinos, incluindo 18 mil crianças e 13 mil mulheres, foram mortos pelas bombas imperialistas, cerca de 3% dos habitantes do território em apenas dois anos. Em termos de comparação, se o Brasil sofresse um massacre de proporções similares, mais de 7 milhões de pessoas teriam sido assassinadas.
Hoje, quase 2 milhões de pessoas em Gaza foram deslocadas, muitas delas, mais de uma vez; cerca de 60% da população perdeu suas casas. Mais de 40% das gestantes e lactantes estão gravemente desnutridas e dois terços sofrem de anemia, enquanto 40 mil crianças ficaram órfãs de pai ou mãe. Mais da metade dos hospitais está fora de operação e quase todas as escolas e universidades foram destruídas. A economia de Gaza regrediu 84%, e apenas 9,3% da população tem algum tipo de emprego. Não há como negar que estamos diante de um genocídio.
De fato, não há nada mais próximo à perseguição implacável e ao genocídio que o nazismo desencadeou contra o povo judeu do que a expulsão, a perseguição e o genocídio que o imperialismo e o sionismo praticam hoje contra o povo palestino. Sem dúvidas, o maior crime do nosso tempo.
Palestina livre!
A Nakba não é apenas um evento do passado, mas um processo ainda em curso. É o cotidiano vivido pelos palestinos. Ela se manifesta diariamente com a expansão ilegal de assentamentos, do roubo de terras na Cisjordânia e do bloqueio desumano imposto à Faixa de Gaza.
Qualquer trabalhador brasileiro é capaz de entender e sentir um pouco que seja o que significa a Nakba para os palestinos. A realidade enfrentada pelo povo palestino, oprimido e violentado por Israel, é muito próxima do que os jovens negros, os povos indígenas, os quilombolas e as mulheres pobres vivem em nosso país. A violência do Estado, a negação de direitos, os despejos, a fome e o racismo também existem no Brasil. Por isso, a grande solidariedade que existe do povo brasileiro à causa palestina.
A catástrofe palestina precisa acabar! A base para uma paz justa começa com a retirada total e incondicional de Israel de todos os territórios ocupados, o retorno do povo palestino à sua terra natal, o reconhecimento de seu direito à autodeterminação e o estabelecimento de um Estado independente na Palestina.
A liberdade da Palestina – do Rio ao Mar – é uma bandeira que todos os que lutam por um mundo sem guerras, opressão e injustiças jamais podem abaixar.
Matéria publicada na edição impressa nº 333 do jornal A Verdade