Notícias

O dia em que o chicote foi substituído pelo fuzil

Assembleia Geral da ONU. Foto: Reprodução

Durante Assembleia Geral da ONU, Estados Unidos, Israel e Argentina rejeitaram a classificação do tráfico de escravizados como crime contra a humanidade.

Beatriz Behling (SP)


SOCIEDADE – Recentemente, na Assembleia Geral da ONU, Estados Unidos, Israel e Argentina foram os únicos países a votarem contra ao reconhecimento do tráfico de escravizados africanos como o maior crime contra a humanidade, revelando a face nua do imperialismo. O gesto não foi apenas diplomático, mas uma defesa patrimonial. Reconhecer o crime da escravidão poderia exigir reparações que fariam tremer a barriga dos bilionários, alimentadas pelo capital acumulado nos séculos do tráfico humano e escravidão.

Essa conexão desembarca diretamente nas favelas brasileiras através de um mercado de sangue. Como denunciado recentemente pelo Intercept, Israel utiliza Gaza como um laboratório vivo para “testar” armamentos em seres humanos, vendendo depois essa “eficiência” ao Brasil. Empresas como a Elbit Systems e a IWI lucram milhões fornecendo fuzis e drones para polícias que operam sob a doutrina do extermínio. O resultado prático dessa parceria é o horror: em março de 2026, uma única operação no Rio de Janeiro deixou 122 mortos, uma chacina. O uso dessa tecnologia de guerra em territórios civis não é segurança pública; é a gestão militarizada da pobreza, onde o fuzil israelense cumpre o papel moderno de conter a classe trabalhadora negra e periférica.

A existência das favelas e a brutalidade que as cerca são os sintomas de uma abolição que nunca ocorreu. A “abolição” de 1888 foi, tecnicamente, uma reestruturação financeira da elite agrária. Com a Lei de Terras, de 1850, o Estado garantiu que a terra fosse um privilégio de quem pudesse pagar, impedindo que o ex-escravizado tivesse seu próprio chão. Para famílias como os Moreira Salles (Itaú) e as dinastias do agronegócio que herdaram o poder dos barões do café, dar terra ao negro significaria perder o controle sobre a mão de obra. Se o liberto tivesse onde plantar, o patrão não teria quem aceitasse trabalhar por migalhas nas safras de exportação.

A manutenção do latifúndio e a negação da reforma agrária são pilares econômicos da escravidão moderna. A burguesia transferiu o custo de manutenção da vida do trabalhador (moradia, saúde e alimentação) ao próprio trabalhador, e passou a “alugar” sua força de trabalho de forma descartável.

O fuzil israelense que promove chacinas nas periferias é a ferramenta necessária para garantir que a massa de excluídos não questione a concentração de riquezas. A escravidão não acabou, apenas trocou os custos fixos da senzala pelos barracos nas favelas, e o chicote pela tecnologia de ponta do genocídio. A verdadeira abolição exige enfrentar essa aliança entre o latifúndio brasileiro e o militarismo internacional, pois, enquanto o lucro valer mais que a vida, o 13 de Maio continuará sendo o dia em que o chicote foi substituído pelo fuzil.

Matéria publicada na edição impressa nº 333 do jornal A Verdade