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O enfrentamento ao neofascismo no Brasil

O fenômeno do crescimento da extrema-direita se situa em um contexto histórico mais amplo.  Essa ascensão não é um acaso, mas resultado direto de uma crise profunda e longa do capitalismo, que se iniciou em 2008. A estagnação econômica e a falta de expectativas, frutos do modelo neoliberal, geraram um “sentimento antissistema” que tem sido capturado pela direita e pela ultradireita.

Essa análise ganha contornos ainda mais preocupantes se comparamos o momento atual com o período que antecedeu a Segunda Guerra Mundial. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial o mundo não se assombra da forma como está assombrado com a ascensão do fascismo.

Hoje, a principal liderança fascista mundial é o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: sua postura expansionista, utilização das armas militares e da guerra como instrumento, perseguição a imigrantes, não aceitação do diferente, deportações em massa, transformação de outro país em uma espécie de campo de concentração como El Salvador.

Aqui no Brasil, hoje, a expressão mais significativa do pensamento fascista é Jair Bolsonaro e sua família. Embora a condenação do ex-presidente pelo STF represente uma vitória do Estado democrático de direito, isso não significa que o fascismo tenha sido derrotado no Brasil.

A luta contra o neofascismo no Brasil tem se estruturado em múltiplos eixos que vão desde a resposta institucional e judicial até a mobilização popular nas ruas, passando pela disputa ideológica, pela implementação de políticas públicas que enfrentem as bases materiais que alimentam o discurso extremista e sem dúvida nenhuma terá na disputa eleitoral de 2026 um momento bastante importante.

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A resposta institucional ao neofascismo através do sistema de Justiça e dos mecanismos legais de defesa da democracia constitui fato historicamente bastante relevante. A punição exemplar dos envolvidos em atos golpistas constitui um pilar fundamental dessa estratégia. A prisão de Jair Bolsonaro e de quatro generais por tentativa de golpe de Estado e planejamento de assassinato do presidente e vice-presidente representam um fato inédito na história do Brasil e uma importante vitória da democracia. O lema “SEM ANISTIA” tem sido vocalizado por movimentos sociais e populares, bem como por organizações políticas.

Porém, não é suficiente a luta institucional contra o neofascismo. A resistência nas ruas, nos espaços públicos, nos movimentos sociais deve constituir-se em um dos eixos mais tradicionais e vigorosos da luta antifascista. A batalha das ideias é o combustível necessário para a mobilização social contra o neofascismo: a luta contra o racismo, a misoginia, a intolerância, o machismo, o feminicídio, a exploração dos trabalhadores, a jornada 6 X1.

O Brasil como “trincheira mundial” contra o fascismo

Neste ano de 2026, em função das eleições brasileiras e do papel relevante que o Brasil sob Lula vem desempenhando no cenário mundial, o Brasil vem se tornando uma das maiores trincheiras mundiais de enfrentamento ao fascismo.

A vitória eleitoral do presidente Lula em 2022 representou uma exceção extraordinária, como qualifica o professor José Luís Fiori. Também ressaltamos a eleição de Gustavo Petro na Colômbia no mesmo ano de 2022, a postura combativa e corajosa da presidenta Claudia Sheinbaum no México, além da luta de resistência do governo venezuelano do presidente Maduro aos ataques estadunidenses até o sequestro do mesmo em 3 de janeiro de 2026, bem como a resistência do povo cubano e seu governo a mais de 60 anos de bloqueio econômico e cerco energético recente. No entanto, como dissemos acima, a ascensão de Trump ao governo estadunidense e suas políticas imperialistas colocam para o mundo e, em especial, à região latino-americana uma ameaça inusitada e extraordinária à soberania e à democracia em toda a região.

O governo no presidente Lula, desde 2023, vem reconstruindo as políticas públicas e a capacidade do Estado de ser um agente de desenvolvimento, além de fazer o enfrentamento ao neoliberalismo com a taxação BBB e a isenção do IR até 5 mil reais, e, recentemente, abraçando o fim da escala 6X1 e a redução da jornada de trabalho. Mas devemos reconhecer as imensas dificuldades advindas da atual correlação forças no Congresso Nacional, do sequestro do orçamento nacional por meio das emendas parlamentares, da disseminação das fake news por meio das redes de ódio e intolerância da extrema-direita no país.

Pela importância econômica, geográfica e social do Brasil, as eleições deste ano em nosso país deverão ser tratadas pela esquerda e pelos progressistas como uma batalha essencial contra o fascismo. Recuperar totalmente a soberania apresentando um projeto de nação inovador, trazendo o Estado de volta à capacidade de ser um agente de desenvolvimento e de justiça social, construindo uma verdadeira estratégia de guerra à desigualdade e ao desencanto com a política, pode reunir as diversas frentes de luta contra o fascismo no processo da disputa política de 2026, mas não somente neste ano.

Nossa tarefa é monumental: fazer a esperança ganhar as mentes e corações da maioria do povo brasileiro. Como diz o professor Fiori, “se a batalha é grande para recapacitar o Estado e reaproximá-lo dos cidadãos, em última instância, a batalha contra o fascismo é a luta para reconquistar o imaginário e a esperança das pessoas no futuro”.

Monica Valente – Diretora da Fundação Perseu Abramo do PT e Secretária Executiva do Foro de São Paulo