Em 1924, o Partido Comunista imprimiu em Recife uma brochura de Charles Rappoport, Noções do Comunismo, cuja contracapa trazia uma ordem curta: “Lede e fazei ler”. Dainis Karepovs colheu essa frase e a pôs como epígrafe de sua bibliografia[1]. A escolha tem peso de método. Ler e fazer ler são operações distintas, e a distância entre elas organiza o livro. Uma ideia pode ser lida por um militante e parar ali; para circular, precisa de papel, gráfica, tradutor, livreiro, sebo e um leitor seguinte. Uma bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968, lançado em maio de 2026 em coedição da Ateliê Editorial e da Fundação Perseu Abramo, na Coleção 100 Anos da Revolução Russa, foi armado ao redor dessa diferença.

Uma Bibliografia do Marxismo no Brasil: Dos Primórdios a 1968
Dainis Karepovs
Edição: 1ª
2026
Editora Fundação Perseu Abramo e Ateliê Editorial
ISBN: 978-65-5626-171-3 (Fundação Perseu Abramo)
547 páginas
Karepovs desloca a história do marxismo no Brasil do terreno das doutrinas para o dos meios materiais que permitiram ler, traduzir, imprimir, vender, apreender, destruir, esconder e preservar textos marxistas. O gesto tem genealogia. Secco lembra, no prefácio, que o marxismo só se tornou objeto acadêmico no Brasil a partir dos anos 1960, e que mesmo a vaga de estudos críticos sobre as ideias marxistas anteriores a 1964, formada na década de 1970, raramente se debruçou sobre a infraestrutura intelectual dessas ideias, isto é, sobre seus suportes materiais. É essa lacuna que a bibliografia ocupa. Em vez de reconstituir a recepção de Marx pela via dos conceitos, Karepovs a reconstitui pela via dos objetos que a tornaram possível: a brochura barata, o fascículo destacável de jornal, a tradução feita a partir do francês, a tiragem clandestina, o exemplar sobrevivente num sebo.
Quem procurar uma história das ideias encontrará uma história do livro, da cultura política da esquerda, da repressão anticomunista e da formação intelectual dos trabalhadores. Essas quatro camadas não são paralelas; elas se determinam. A história do livro fornece o suporte; a cultura política da esquerda fornece as redes de autores, capistas, tradutores e distribuidores que faziam o impresso andar; a repressão anticomunista fornece o limite, a apreensão e a fogueira; e a formação intelectual dos trabalhadores fornece a finalidade, já que o impresso marxista, no Brasil, quase sempre nasceu com função pedagógica, voltado a formar quadros e a alfabetizar politicamente um público que o Estado mantinha à margem da cultura letrada. Ler a bibliografia por qualquer uma dessas camadas isoladamente é desfigurá-la.
Bibliografia como instrumento
A bibliografia é o instrumento; a circulação dos impressos é o objeto. A distinção importa porque define o estatuto epistemológico do livro. Uma bibliografia, na acepção corrente, é repertório que agrupa textos para facilitar o acesso a eles, e nessa medida serve ao pesquisador como ferramenta. Karepovs aceita essa função, mas a subordina a outra. Aqui o repertório não apenas localiza títulos; ele permite reconstruir a curva de presença social do marxismo no país, ano a ano, editora a editora. O número de edições de um título deixa de ser dado bibliográfico e passa a ser indício histórico, do mesmo modo que uma tiragem confiscada documenta menos um fracasso editorial do que um ato de Estado. Convém, porém, não confundir os planos. A bibliografia registra o que sobreviveu e o que ficou documentado, não a totalidade do que circulou. Entre o impresso e o registro há a perda, e essa perda, como o próprio autor reconhece, é parte constitutiva do objeto, não uma falha do levantamento.
Chamá-la de catálogo é correto, desde que se entenda o catálogo como forma histórica de organizar vestígios de luta política e circulação intelectual. Quando a lista registra tiragens, edições, editoras e anos, deixa de ser inventário e passa a medir a presença social de uma corrente de ideias. O número de edições de um título funciona como índice, no sentido que a linguística dá ao termo: indica, sugere, corrobora em parte. Sozinho, não decide nada. Cruzado com o momento político e econômico, mostra quando uma ideia encontrou leitores e quando foi empurrada para a clandestinidade. É por aí que a bibliografia se torna pergunta historiográfica: como uma tradição intelectual se converte em força social?
O prefácio de Lincoln Secco faz, nesse ponto, o trabalho mais produtivo do volume. Secco insiste em que as ideias marxistas nunca circularam sozinhas. Dependeram de livros, brochuras, jornais, volantes, revistas, editoras, gráficas, tradutores, capistas, distribuidores, livreiros, sebos, leitores e redes militantes[2]. A consequência é metodológica. A história das ideias se empobrece quando aparta a doutrina de seu suporte, porque a greve, o comício e a formulação de um quadro partidário passavam pelo impresso. Estudar o marxismo brasileiro sem estudar suas gráficas é examinar o sintoma e ignorar o corpo.
Essa convicção vem de uma linhagem precisa. O ponto de partida é Edgard Carone, que em 1986 publicou O Marxismo no Brasil: das origens a 1964, recenseando em boa parte livros do próprio acervo. Karepovs declara partir dele e, segundo Secco, amplia a periodização, multiplica os títulos e reorganiza tudo por autor, com índices de editoras e de ano[3]. Reduzir Carone a precursor seria impreciso. O que une os dois é concreto: o colecionismo, os sebos, as bibliotecas pessoais, a história da República, do movimento operário e do livro. A bibliografia de Karepovs nasceu como correção nas margens de seu exemplar de Carone, fruto de cerca de trinta anos de garimpo em arquivos, bibliotecas e sebos[4]. Essa origem artesanal explica por que a obra liga o dado seco de uma tiragem ao gesto de encontrar um volume raro numa estante empoeirada.
A decisão mais discutível, e por isso a mais instrutiva, está na periodização. Karepovs recua o marco inicial para 1893 e fecha em 1968. O recuo exige cuidado, porque o marxismo brasileiro do fim do século XIX se confunde com socialismos reformistas, com a Segunda Internacional, com a imprensa operária e com formas instáveis de militância. Cobrar daqueles homens uma ortodoxia que só se firmaria décadas depois seria anacronismo. Karepovs escapa da armadilha apoiando-se em Claudio Batalha, que estudou a difusão do marxismo na virada do século e concluiu que os socialistas brasileiros daquele período podem não ser marxistas pelos critérios de hoje, mas seriam classificados como tais pelos critérios de seu tempo[5]. Com isso, o recuo a 1893 deixa de ser detalhe cronológico e se torna escolha conceitual. A bibliografia não pergunta se aqueles textos satisfazem uma definição posterior de marxismo, mas como o socialismo foi lido, impresso e debatido quando começou a circular em livro no Brasil.
O marco final opera no mesmo registro. Karepovs separa o golpe de 1964, corte político, do Ato Institucional n. 5, corte cultural. A distinção se apoia em Roberto Schwarz e em sua tese sobre a relativa hegemonia cultural da esquerda sob a ditadura de direita[6]. O paradoxo é forte: entre 1964 e 1968, num país governado por militares, as edições marxistas aumentaram. A primeira tradução integral do Livro 1 de O Capital saiu em 1968, pela Civilização Brasileira de Ênio Silveira; a História da Revolução Russa, de Trotsky, fora anunciada em página inteira de jornal em 1967. Schwarz não entra como ornamento. Dá o conceito que permite ler 1968, e não 1964, como o ano em que a circulação foi rompida, quando o AI-5 destrói a hegemonia cultural que o golpe não conseguira tocar.
Duas barreiras pesaram sobre essa circulação, e a introdução as encara de frente. A primeira é o analfabetismo, que Karepovs liga à formação social brasileira, à herança escravista e à restrição histórica da cultura letrada às classes dominantes. Os números são duros: na virada para a República, mais de 80% da população não sabia ler, contra 13,3% nos Estados Unidos; a taxa nacional ainda era de 65,3% em 1900 e de 33,7% em 1970[7]. Num mercado de leitores tão estreito, imprimir mil exemplares de um texto marxista significa coisa diferente do mesmo gesto numa sociedade alfabetizada. A segunda barreira é a violência estatal e paraestatal, que não funciona como contexto externo, e sim como parte da própria história dos impressos. Karepovs reconstrói o desaparecimento do acervo da editora Unitas[8], em São Paulo, entre 1935 e 1936: dezenas de milhares de volumes apreendidos e, ao cabo de anos de tramitação no Tribunal de Segurança Nacional, incinerados, com a perda dos próprios autos que deveriam comprovar a apreensão. A burocracia, nesse relato, é instrumento de destruição que opera por ofícios e memorandos.
Nenhum exemplo condensa melhor o método do livro do que a primeira edição brasileira do Manifesto Comunista[9], de 1924, traduzida por Octávio Brandão. A tiragem de três mil exemplares, anotada no relatório que Brandão enviou à Internacional Comunista, só ganha sentido ao lado do que veio depois: centenas de exemplares apreendidos e destruídos pela polícia nos Correios de Porto Alegre e uma censura postal que confiscava correspondência e fornecia cópias à repressão. O número, isolado, seria curiosidade. Cruzado com o ciclo político e com a repressão postal, vira a prova do argumento central: a ideia só se torna força social quando encontra suporte, rede e leitor.
Há crítica a fazer, e ela nasce da própria escala do empreendimento. Diante do trecho disponível, não é possível avaliar os critérios de inclusão e exclusão, as lacunas regionais, o tratamento das correntes internas do marxismo ou a coerência do corpo bibliográfico ao longo de quase três mil registros[10]. A grandeza de um trabalho assim não dispensa a pergunta sobre seus critérios. Ao contrário, torna-a mais urgente. Karepovs é transparente quanto a algumas escolhas: aboliu as divisões temáticas de Carone, manteve apenas a exceção dos livros de viagem aos países socialistas e suprimiu a seção “Literatura Proletária” por considerá-la incompleta. Resta saber, e só o exemplar integral dirá, como essas decisões se sustentam no conjunto, sobretudo no tratamento das correntes que disputaram o nome do marxismo no Brasil.
A epígrafe da introdução fecha melhor do que qualquer síntese. Em 1894, Machado de Assis observava que o socialismo chegaria ao Brasil a seu tempo, e que os livros já estavam aqui havia muito, restando traduzi-los e espalhá-los[11]. A bibliografia de Karepovs é o inventário daquele “traduzi-los e espalhá-los”, com tudo o que a tarefa custou. O livro não arquiva um passado encerrado. Reabre uma pergunta que segue de pé: como uma tradição intelectual sobrevive quando seus livros são caros, perseguidos, apreendidos, mal distribuídos ou esquecidos? A resposta, no caso brasileiro, está menos nas doutrinas do que no papel que as carregou, tantas vezes reduzido a cinzas. A bibliografia mede o que sobreviveu; o que ardeu nos incineradores do Tribunal de Segurança Nacional permanece como ausência, e nenhuma lista, por mais paciente, devolve um livro queimado.
A importância desse trabalho para a historiografia marxista brasileira não se mede pelo que ele acrescenta ao que já se sabia, e sim pelo que ele torna possível perguntar daqui em diante. Durante muito tempo, a história do marxismo no Brasil foi escrita como história de ideias, de rupturas teóricas e de filiações doutrinárias, como se o pensamento se transmitisse por contágio entre cabeças e não por mediações materiais. Um levantamento dessa ordem desloca o solo da pesquisa. Ele obriga quem estuda a esquerda a tratar a edição, a tradução, a tiragem e a distribuição como variáveis explicativas, e não como pano de fundo. Quem quiser, depois disto, sustentar que tal corrente foi hegemônica num dado momento terá de mostrar onde estavam suas gráficas, quantas edições alcançou e a que público chegou. A bibliografia funciona, nesse aspecto, como uma exigência metodológica imposta ao campo: ela encarece as afirmações genéricas e premia as que se ancoram em evidência impressa.
Há ainda um efeito mais difícil de quantificar, que é o que mais conta. Trabalhos como este transformam a perda em objeto de conhecimento. Ao registrar o que circulou e ao deixar visível, por contraste, o que foi destruído, a bibliografia converte a repressão de obstáculo externo em dado interno da história intelectual brasileira. Isso tem consequência política, não só erudita. Significa reconhecer que a fragilidade da tradição marxista no Brasil não decorre de alguma incapacidade nativa para a teoria, e sim de uma violência sistemática contra os seus suportes, exercida por um Estado que preferiu queimar livros a discuti-los. Reconstituir essa materialidade é uma forma de restituição. Não devolve os exemplares incinerados, mas devolve à esquerda brasileira a memória de uma cultura impressa que existiu, resistiu e foi parcialmente apagada. Para uma historiografia que se quer crítica, esse é o serviço mais duradouro que um inventário de livros pode prestar: provar que houve o que destruir.
Erik Chiconelli Gomes, pós-Doutor (USP | Unicamp), Doutor em História Econômica – USP e Coordenador Acadêmico e do Centro de Pesquisa e Estudos da Escola Superior de Advocacia – OAB/SP
Notas
[1]A epígrafe abre o volume (KAREPOVS, Dainis. Uma bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2026, p. 9). Em nota, o autor informa que a frase foi retirada da contracapa da brochura de Charles Rappoport, Noções do Comunismo, editada pelo PCB em Recife, em 1924 (p. 10).
[2]SECCO, Lincoln. Prefácio. In: KAREPOVS, Dainis. Uma bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2026, p. 13-15.
[3]SECCO, 2026, p. 14-15; KAREPOVS, 2026, p. 21. O livro de referência é CARONE, Edgard. O Marxismo no Brasil: das origens a 1964. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, do qual Karepovs declara partir, ampliando a periodização e a quantidade de títulos.
[4]KAREPOVS, 2026, p. 67-68. Sobre os cerca de trinta anos de pesquisa em arquivos, bibliotecas e sebos, ver também CEMAP INTERLUDIUM. Uma bibliografia do marxismo no Brasil. São Paulo, 21 maio 2026. Disponível em: https://cemap-interludium.org.br/uma-bibliografia-do-marxismo-no-brasil/2026/. Acesso em: 18 jun. 2026.
[5]BATALHA, Claudio H. M. A difusão do marxismo e os socialistas brasileiros na virada do século XIX. In: MORAES, João Quartim de (org.). História do marxismo no Brasil: os influxos teóricos. Campinas: Editora da Unicamp, 1995. v. 2, p. 11-43. Karepovs cita a passagem pela 2. ed. (2007), p. 9 (cf. KAREPOVS, 2026, p. 26).
[6]KAREPOVS, 2026, p. 22-23, que cita SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. In: O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978, p. 62.
[7]KAREPOVS, 2026, p. 18-20. As taxas reproduzem dados do IBGE, Censos Demográficos, e o cotejo internacional (Estados Unidos, 13,3%) aparece à p. 18.
[8] KAREPOVS, 2026, p. 45-47. O autor reconstrói a apreensão de dezenas de milhares de volumes em São Paulo entre dezembro de 1935 e março de 1936 e o destino dado a esse acervo no Tribunal de Segurança Nacional.
[9] KAREPOVS, 2026, p. 29-31. A tiragem de três mil exemplares consta do relatório de Octávio Brandão à Internacional Comunista; a apreensão e destruição de parte da edição nos Correios de Porto Alegre e a descrição da censura postal aparecem às p. 29-30.
[10]KAREPOVS, 2026, p. 60 (“quase três mil livros e brochuras, incluídas as reedições”) e p. 64-67 (Tabelas 7 e 8, que somam 2.929 publicações entre 1893 e 1968).
[11]MACHADO DE ASSIS. A Semana. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 15 abr. 1894. Apud KAREPOVS, Dainis. Uma bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2026. p. 17.
Referências
BATALHA, Claudio H. M. A difusão do marxismo e os socialistas brasileiros na virada do século XIX. In: MORAES, João Quartim de (org.). História do marxismo no Brasil: os influxos teóricos. Campinas: Editora da Unicamp, 1995. v. 2, p. 11-43.
CARONE, Edgard. O Marxismo no Brasil: das origens a 1964. Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986.
CEMAP INTERLUDIUM. Uma bibliografia do marxismo no Brasil. São Paulo, 21 maio 2026. Disponível em: https://cemap-interludium.org.br/uma-bibliografia-do-marxismo-no-brasil/2026/. Acesso em: 18 jun. 2026.
FUNDAÇÃO PERSEU ABRAMO. Conheça Uma bibliografia do Marxismo no Brasil de Dainis Karepovs. São Paulo, 17 jun. 2026. Disponível em: https://fpabramo.org.br/conheca-uma-bibliografia-do-marxismo-no-brasil-de-dainis-karepovs/. Acesso em: 18 jun. 2026.
KAREPOVS, Dainis. Uma bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2026.
MACHADO DE ASSIS. A Semana. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 15 abr. 1894.
SCHWARZ, Roberto. Cultura e política, 1964-1969. In: O pai de família e outros estudos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978.
SECCO, Lincoln. Prefácio. In: KAREPOVS, Dainis. Uma bibliografia do Marxismo no Brasil: dos primórdios a 1968. Cotia: Ateliê Editorial; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2026. p. 13-15.