
No nono capitulo da série “A história oficial Versus as lutas do proletariado brasileiro”, chegamos a um momento decisivo para o movimento operário no Brasil, agora mais organizado politicamente e se destacando diante da ebulição social que se manifestava em todo o país.
Natanael Sarmento| Redação Pernambuco
HISTÓRIA (Parte 09) – A greve dos gráficos de São Paulo, em 1923, demonstrou grande mobilização e organização para sustentar a paralisação de quase dois meses (58 dias), vencer a resistência patronal e triunfar na obtenção de conquistas de todas as reivindicações da categoria em luta. A principal liderança dessa jornada exaustiva grevista foi João da Costa Pimenta um dos fundadores do PC no ano anterior.
Dentre as conquistas o reconhecimento da UGT, o piso salarial da categoria, férias anuais, assinado “preto no branco” como acordo precursor das “convenções coletivas de trabalho”. O 7 de novembro, dia inicial da greve, foi oficializado como Dia Nacional do Gráfico em homenagem a esse movimento vitorioso que inspirou outras categorias e antecedeu direitos trabalhistas da CLT – que a narrativa burguesa atribui a dádiva do caudilho dos pampas Getúlio Vargas como forma de retirar a centralidade da luta de classes dos trabalhadores da história.
Afirmação comunista no 1º de maio
Os comunistas se mobilizam nas grandes manifestações de trabalhadores do 1º de maio de todo Brasil. Disputavam espaços com os anarquistas. No 1º de maio do Rio de Janeiro, na Praça Mauá, reúne uma multidão. Os comunistas discursam no combate ideológico contra as ações voluntaristas, espontâneas, autonomistas, enraizadas nas concepções anarquistas. Pedro Bastos do PC manifesta-se contra a indicação do anarquista Carlos Dias para representar o proletariado brasileiro na Organização Internacional do Trabalho – OIT, em Genebra.
O Partido Comunista apresentou no ato uma “Moção” em denúncia da ameaça de uma nova guerra mundial – fato que se concretizaria 16 anos depois. Denunciavam as ações do ditador fascista Benito Mussolini como “testa de ferro do capitalismo internacional”.
Publicação do Manifesto Comunista
Dado importante a merecer registro no ano de 1923 é a tradução de Otávio Brandão para português do “Manifesto do Partido Comunista”, essa suma do materialismo-histórico redigida por Marx e Engels em 1847 por tarefa da 1ª Internacional. A versão traduzida foi publicada pelo jornal sindical “Voz Cosmopolita” de Porto Alegre com tiragem de 3.000 exemplares. Mas naquele ano a repressão policial contra o PCB destruiu gráficas do partido e o jornal “Movimento Comunista” deixou de circular.
“Revolução paulista de 1924”
A revolução irrompida na capital paulista irradia-se. No interior de São Paulo e com levantes em outros estados, movimento articulado, nacionalmente. A violência da “revolução paulista” superou todos os outros levantes militares do país. Foram mais de 700 mortos e milhares de feridos.
Liderada pelo General Isidoro Dias Lopes e pelos oficiais Miguel Costa, João Cabanas, Eduardo Campos, Custódio de Melo, Juarez Távora os “tenentistas” não pouparam balas e bombas. Execravam o governo de Artur Bernardes transformado em inimigo nº 1 da corporação militar, radicalizam nas ações táticas para a sua deposição.
Contudo, em virtude da natureza classista pequeno-burguesa dos revoltosos que queriam fazer a “revolução” em nome do povo e sem o povo, deram com os burros n’água. Semanas de combates e bombardeios na capital. Em desvantagem, os rebelados abandonam a capital, em colunas tentando invadir o Mato grosso, ou em debandada. A repressão desencadeada pelo governo federal em nome da “legalidade” não deixou por menos. Centenas de presos e mortos, outros tantos, exilados.
A comuna de Manaus- julho de 1924
A “Comuna de Manaus” foi o movimento mais interessante dessa vertente tenentista, pelas particularidades locais de obterem o apoio popular. Tem poucos registros na historiografia da burguesia. Explica-se: Das dezenas de levantes “tenentistas” foi o único com apoio e participação popular. Tomou o poder das oligarquias e implantou medidas revolucionárias, ainda que por curto período. Não fez conciliação com as classes dominantes locais e seu sistema corruptor, avançou.
A rebelião ocorreu entre 23 de julho e foi debelada em 28 de agosto de 1924. Tomou Manaus sob as lideranças principais de três militares: Alfredo Augusto Ribeiro, Magalhães Barata e José Carlos Dubois.
A grave crise econômica afetava a região produtora da borracha. A oligarquia local chefiada pelo governador Rego Monteiro abusava da corrupção e do nepotismo. Afastava-se do governo e entregava o poder ao esposo da filha como se fosse a administração do seringal da família.
Os militares rebelados cercaram o palácio Rio Negro, sede do governo, e destituíram o genro “governador”. Assumem a governança com uma Junta Governamental que controla a situação, bloqueia todo sistema de comunicações telegráficas e telefônicas e assegura a ordem pública.
A curta governança realizou medidas importantes: 1. Cobrou impostos atrasados das grandes empresas estrangeiras; 2. Pagou salários atrasados dos funcionários públicos; 3. Instituiu impostos mais altos para ricos empresários; 4. Bloqueou e confiscou os bens adquiridos com a corrupção e leilão desses bens.
Tais medidas moralizantes trazem popularidade aos “tenentes” – Ribeiro Júnior e os companheiros são vistos como verdadeiros heróis, pela maioria do povo. Justamente o apoio popular e de parcela da oligarquia opositora do governo central trazem dificuldades para o governo federal debelar a “Comuna de Manaus”.
A legalidade para recolocar a roda nos eixos precisou mobilizar um gigantesco contingente e utilizar tropas aeronavais nos bombardeios à Manaus. Mesmo assim, a rendição foi negociada, com penas brandas para os insurgentes.
Levante do Pará
A Fortaleza de Óbitos abrigava destacamento avançado e estratégico no Baixo Amazonas, Estado do Pará. A unidade aderiu ao movimento da “Comuna” e lutou. Foi importante ponto de apoio aos insurgentes do Norte. O governo federal mobilizou o chamado “Destacamento do Norte”, sob comando do General Mena Barreto.
Os confrontos foram violentos. Após a retomada do Forte de Óbitos pela legalidade, a “Resistência do Norte” perdeu força. Bombardeios aeronavais modificam a correlação de forças e os insurgentes se rendem.
Levante de Mato Grosso
O “Levante de Mato Grosso” em 1924 é desdobramento da “Revolução Paulista” articulada em âmbito nacional. No Mato Grosso, liderado pelos tenentes Reginaldo Kruel e Pedro Martins lideraram as ações rebeldes. Mas não lograram a coesão do 10º Regimento de Cavalaria Independente e tão pouco apoio popular. Sargentos daquela unidade resistiram ao levante. Juarez Távora evadido de São Paulo tenta invadir o Mato grosso, é repelido na “Batalha de Três Lagoas”. Muitas baixas. Sem coesão interna na caserna, nem apoio popular, isolados, a revolta definha.
O levante de Sergipe
O levante do 28º Batalhão de Caçadores de Aracaju foi liderado pelo Capitão Eurípedes Esteves de Lima e os tenentes Augusto Maynard Gomes, João Soriano de Melo e Manoel Messias de Mendonça. A rebelião militar ocorrida no ano 1924 contou com a participação de civis. A tropas rebeldes cercaram o palácio do governo e prendem o Governador Graccho Cardoso.
Assume o poder uma Junta Militar. Os revoltosos, articulados, nacionalmente, nos combates e levantes contra as oligarquias, com o controle da situação evitariam o envio de tropas sergipanas para combater os revolucionários de São Paulo e outros Estados sulinos.
Quase duas centenas de civis se apresentaram voluntariamente, inclusive mulheres, que apoiavam o movimento. A oligarquia local estava dividida e uma parcela estimulava a rebelião com notas de solidariedade abrindo a porta para apoios. A maioria da população não participou ou foi chamada. No meio do fogo cruzado de rebeldes e legalistas, protegiam-se, como podiam.
O governo federal sufocou a rebelião em 24 de agosto e restaura a “normalidade”. Militares e civis responderam criminalmente pelas suas ações. Depois de 1930, os oficiais presos foram anistiados, por Getúlio Vargas, que subiu ao poder através de golpe militar naquele ano.
O levante do Rio Grande do Sul
A Revolução de 1924 no Rio Grande do Sul foi deflagrada nos dias 28 e 29 de outubro de 1924. Nos pampas o levante tenentista contra Artur Bernardes unia-se a caudilhos civis aliados de Assis Brasil da Aliança Libertadora. Os combates mais intensos ocorreram na região das missões – Santo Ângelo, São Luiz Gonzaga, São Borja – na fronteira do Uruguai.
Os rebeldes faziam oposição ao caudilho Borges de Medeiros. Mas, com apoio federal as tropas legalistas resistem. Os militares insurgentes sob a liderança do Capitão Luiz Carlos Prestes se deslocam ao Paraná onde se juntam às tropas de Miguel Costa vindas de São Paulo. A conjunção das duas colunas forma a “Coluna Invicta” ou “Coluna Prestes”. Esta combaterá as tropas legalistas pelo interior Brasil de Norte a Sul, nos anos de 1925 a 1927, mas é o assunto do próximo capítulo.