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O nó Mercosul-UE: acesso ao mercado global ou desindustrialização?

Presidente Lula durante encontro com presidente da Comissão Europeia Rio de Janeiro (RJ), 16/01/2026 - O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, recebe a presidente da Comissão Europeia (CE), Ursula van der Leyen, para reunião no Palácio do Itamarati antes da assinatura do acordo Mercosul - União Européia. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

O ano de 2026 começa com um aperto de mãos que demorou 25 anos para ser selado. O Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia, um colosso que integra 718 milhões de pessoas e um PIB de US$ 18 trilhões, não é apenas um tratado comercial; é um fato geopolítico que reposiciona o Brasil em um tabuleiro global irreconhecível se comparado ao mundo de 1999, quando as negociações começaram.

Naquela época, os países viviam a regra de ouro de buscar resolver as disputas na ainda respaldada Organização Mundial do Comércio (OMC). Hoje, o cenário é de “transição de paradigmas”, como define o Professor Euzébio Jorge Silveira de Sousa, da UFRJ. Vivemos a era das cadeias globais de valor fragmentadas e de um protecionismo verde que, para muitos, guarda semelhanças incômodas com o período colonial. Enquanto Donald Trump ameaça retaliações sob o manto de um isolacionismo agressivo, o Brasil tenta usar seu “histórico pragmatismo diplomático” para não perder protagonismo.

A indústria no divã: modernização ou desmonte?

Se o agronegócio celebra a tarifa zero para 99% das exportações – do café ao suco de laranja -, a indústria brasileira observa o horizonte com uma mistura de esperança e temor. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a FIESP veem no acordo um catalisador para a desoneração de insumos e a cooperação tecnológica. Mas o otimismo das entidades esbarra na análise crua do economista Luiz Gonzaga Belluzzo. “Precisamos escapar da simplificação de que um acordo comercial beneficia igualmente os dois partícipes”, alerta Belluzzo. 

Para ele, a indústria brasileira, que hoje definha em 9% do PIB, está na zona de impacto. O setor de Bens de Capital, coração da inovação tecnológica, é o mais vulnerável. “A Alemanha é superavitária em tecnologia. O impulso será para eles venderem para nós, o que pode aprofundar o nosso atraso”, pontua o economista.

A Abiquim (setor químico), embora comemore a abertura, não esconde o temor do déficit comercial. Em 2025, o setor já operava no vermelho em US$ 13,5 bilhões. Sem uma reforma interna que ataque os juros estratosféricos, a abertura pode significar o golpe de misericórdia para empresas que já lutam contra a enxurrada de produtos chineses.

A salvaguarda do SUS e o dilema da saúde

No meio deste redemoinho econômico, a saúde surge como um campo de resistência estratégica. O Brasil conseguiu uma vitória política importante: a exclusão das compras do Sistema Único de Saúde (SUS) do capítulo de compras governamentais.

Solange Caetano, da Federação Nacional dos Enfermeiros, explica que essa decisão é vital para a soberania nacional. “Preservar o poder de compra do Estado permite que o Brasil continue estimulando a produção nacional de vacinas e medicamentos”, diz. No entanto, ela alerta para o lado humano da balança: a “fuga de cérebros”.

Com a escassez de profissionais na Europa, o acordo pode indiretamente estimular a migração de enfermeiros qualificados, atraídos por salários em euro, deixando o sistema brasileiro ainda mais sobrecarregado.

 A geopolítica do Século XXI

O nó górdio do acordo reside na sua natureza ambígua. O Professor Euzébio destaca que, embora o Brasil não possa se dar ao luxo de rejeitar acordos multilaterais na sua condição periférica, o risco de “primarização” é onipresente. Hoje, exportamos carne para a Europa e importamos fármacos e máquinas. O desafio, segundo ele, é usar o acordo para aumentar a complexidade da nossa produção, e não apenas para vender mais minério.

A mesma linha de raciocínio tem o professor Belluzzo que aponta o “investimento direto” europeu no parque industrial nacional como uma das soluções. “Existe espaço para isso, mas o acordo, da forma que está, foca mais na facilidade de exportação deles para cá”, afirma.

A contextualização histórica é inevitável. O acordo foi gestado no auge do neoliberalismo e nasce em um mundo que flerta com o autoritarismo e a economia de guerra. A retórica protecionista da França e as ameaças de Trump compõem uma “armadilha” da qual, nas palavras de Belluzzo, só escaparemos se tivermos uma política industrial nacional altiva.

O saldo final

O acordo Mercosul-UE é o “possível” dentro de um mundo de incertezas. Ele oferece ao Brasil a chance de sair de um isolamento comercial que nos mantinha conectados a apenas 8% do mercado global, saltando para 37%. E para mitigar o impacto imediato sobre as fábricas nacionais, o texto final do acordo estabelece um cronograma de assimetria deliberada. Enquanto a União Europeia zerará o imposto de 54,3% dos produtos negociados (mais de cinco mil itens) imediatamente após a ratificação, o Brasil contará com um fôlego maior. Cerca de 44,1% dos produtos do Mercosul, o que equivale a 4,4 mil itens, terão suas tarifas reduzidas em prazos que variam de 10 a 15 anos. Essa transição gradual e previsível é a aposta do governo para que a indústria brasileira tenha tempo de se modernizar antes da abertura total.

Contudo, o equilíbrio diplomático precisará ser acompanhado de perto, em Brasília, por uma política de inovação que impeça o país de se tornar um mero museu industrial a céu aberto. Como resume o Professor Euzébio: “Não vamos conseguir reproduzir o padrão de desenvolvimento do século XX. O desafio agora é suplantar a condição periférica no instável século XXI”.

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