Desde o final de dezembro passado, o Irã é palco de uma série de protestos que surgiram como uma expressão da insatisfação popular com o atual cenário de crise econômica do país, do qual as narrativas ocidentais tentam descrever como um movimento que busca derrubar o modelo implementado a partir de 1979, com o triunfo da Revolução Islâmica que resultou na formação da atual República Islâmica do Irã.
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Alguns desses relatos da mídia hegemônica afirmam, inclusive, que os protestos teriam, como uma de suas reivindicações, o retorno do regime deposto naquela Revolução, o monarquista absolutista do xá Mohammad Reza Pahlavi, considerado um dos mais sanguinários da sua época.
Para explicar o processo que levou o país à Revolução Islâmica e ao surgimento do Irã atual, Opera Mundi conversou com o professor de Relações Internacionais Bruno Lima Rocha, que é mestre e doutor em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além de jornalista da HispanTV Brasil.
Segundo ele, a República Islâmica foi formada a partir de “uma jurisprudência baseada nas interpretações do xiismo duodecimal, junto com uma sociedade moderna e uma economia avançada, e esse perfil de um Islã mais voltado para a justiça social”.
Leia a entrevista na íntegra de Opera Mundi com Bruno Lima Rocha:
Opera Mundi: como era o regime do xá Mohammad Reza Pahlavi, deposto pela Revolução Islâmica? Quais eram contradições que a Revolução Islâmica queria combater quando o derrubou e quais ela efetivamente superou?
Bruno Lima Rocha: o regime do xá nasceu em 1953, após o golpe contra a monarquia constitucionalista. No campo da cultura e do comportamento, era de corte liberal. O comportamento das mulheres em Teerã era parecido com o das mulheres em Beirute, que era o lugar mais avançado da Ásia Ocidental. Ao mesmo tempo, a renda petrolífera não estava transformando o país, havia alguma iniciativa sobre urbanização e aumento do serviço público, mas a distribuição de renda era terrível e a repressão interna era absurda.
A principal tese da Revolução Iraniana seria uma teoria modernizante dentro de princípios e instituições modernas a partir da hegemonia cultural do país, que é a jurisprudência da religião xiita da vertente majoritária, e a espinha dorsal da cultura persa.
Em cima disso, a proposta da Revolução era usar a renda petrolífera para o país se modernizar, buscar novas cadeias de valor e ampliar a distribuição de renda, sem necessariamente criar uma economia 100% planificada. Assim foi ao longo dos anos 80. No entanto, o país nunca viveu um ano sequer sem sanção externa, e ainda teve que enfrentar as consequências da Guerra Irã-Iraque. (1980-1988).
O que foi a Revolução Islâmica de 1979 e como foi o processo no qual, através dela, surgiu a República Islâmica do Irã?
A Revolução Islâmica foi um levante popular nascido do desgaste do governo do xá, que enfrentava muitos protestos no final dos anos 70. Entre 1977 e 1979, houve um afastamento do Exército Nacional Iraniano do governo do xá. Não é que eles deixaram de ser parte do aparelho de Estado, mas não se envolveram na repressão interna, que passou a ser responsabilidade quase da SAVAK – como era chamada a Organização de Segurança e Inteligência Nacional do Irã, considerada a “polícia secreta” do país durante o regime do xá.
Daí que a primeira geração da Guarda, ou do Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica, foi composto de estudantes jovens à época, que não viam no Exército Nacional uma capacidade de defesa do país e que queriam enfrentar a repressão política. Portanto, foi uma revolução popular, que teve a participação de amplos setores, incluindo o que podemos considerar como esquerda revolucionária, além do Tudeh, que é o Partido Comunista do Irã.
Nesse cenário, surgiu uma figura de consenso, que estava no exílio e que viria a ser o que nós conhecemos como o aiatolá Khomeini. É importante destacar, também, que a República Islâmica não foi imposta, ela foi instituída através de um plebiscito.
Como foi instituída a figura do aiatolá no Irã? Como o aiatolá Khomeini chega ao poder e qual a sua importância para a consolidação do novo regime?
A monarquia absolutista do xá era como uma ponta de lança dos interesses do Ocidente, como uma versão persa da monarquia saudita, e a principal liderança opositora a esse regime era o Ruhollah Musavi Khomeini. Ele era visto pela população como alguém muito sábio por sua formação teológica, uma erudição gigantesca, e que estava exilado na França. Ele voltou em 1979 e passou a ser reconhecido como o grande aiatolá Khomeini.
Ao longo dos anos 80, ainda havia a União Soviética e a Guerra Fria, e o Irã fez uma inflexão nacional, tentando afirmar elementos e instituições baseadas numa cultura prevalente no seu território.
A experiência iraniana com instituições do Ocidente não foi boa, nenhuma delas, nem a experiência de uma própria República Soviética dentro do Irã não foi boa. A relação com impérios ocidentais foi muito ruim, concomitante ao chamado “revivalismo islâmico”, que foi justamente essa inflexão da jurisprudência islâmica buscando saídas.
Talvez a grande relevância da figura do aiatolá se deu ao institucionalizar um conjunto de regras, criar uma jurisprudência própria e fazer essa concomitância entre tradição e uma modernidade baseada em uma cultura prevalente.
A Revolução Islâmica pode ser considerada uma revolução de esquerda? Houve setores de esquerda que apoiaram aquele movimento de 1979?
Não foi de esquerda, mas foi uma revolução nacional e anti-imperialista. E teve sim grande participação de dois setores da esquerda, reconhecidos não só pela grande presença a partir dos movimentos de estudantes que encabeçaram os protestos como depois na formação dos comitês e no período de preestabelecimento da República como instituição.
Um desses setores é o Tudeh, o Partido Comunista do Irã, que é muito antigo. O outro setor é o de uma esquerda mais insurgente, que atende pela sigla MEK (de Organização dos Mujahidin do Povo Iraniano), que hoje opera um lobby junto às potências ocidentais, que é o Conselho Nacional de Resistência do Irã, e que participou ativamente dos protestos, da luta direta contra a repressão política, mas que infelizmente, a partir de 1982, tem a infeliz ideia de se juntar a Saddam Hussein (líder do Iraque) e lutar contra o Irã, pelo domínio do Cuzistão, que não por acaso é a província com a presença do maior número de campos petrolíferos do Irã.
Também houve uma grande participação de sindicatos na luta contra o xá. O Irã tem uma tradição sindicalista grande, desde a nacionalização do petróleo, entre 1951 e 1953, que teve a presença ativa de sindicatos de petroleiros.
Ainda assim, o fato é que a Revolução Iraniana foi orientada majoritariamente pela instituição de maior prestígio na maioria da população iraniana, que era o clero xiita, e que depois vai resultar na criação da República com a jurisprudência baseada nas interpretações do xiismo duodecimal, junto com uma sociedade moderna e uma economia avançadíssima, e esse perfil de um Islã mais voltado para a justiça social.
O Irã do período do xá era um país aliado do que hoje se define como Ocidente? Quais vínculos geopolíticos foram construídos a partir da Revolução Islâmica e como eles evoluíram para o cenário no qual o país se insere hoje?
O Irã da época do xá era um país muito alinhado ao Ocidente, e provavelmente é o que promete o seu descendente que está em Washington. A ajuda dos Estados Unidos substitui a que a inteligência britânica entregava desde o século 19.
Desde o dia um da República Islâmica, cria-se uma aliança direta com as populações organizadas politicamente de prevalência xiita. Daí vem essa aliança estratégica com o Hezbollah. Daí surge o reconhecimento da Palestina e se estabelece a Embaixada da Palestina em Teerã.
Durante muito tempo, na primeira década, houve uma confusão na Ásia Ocidental, que o Ocidente chama de Oriente Médio, porque o Saddam Hussein empurra o nacionalismo árabe para um confronto com a República Islâmica de prevalência xiita, e isso acirra uma percepção anti pan-arabista na região.
Mas no Líbano, à medida que o Hezbollah vai avançando e vai ganhando mais espaço que a Amal como maior partido xiita, sempre houve uma relação muito boa com a esquerda libanesa, que é pró-Palestina, e com o movimento de resistência islâmico libanês, que é o Hezbollah. O Irã vai tecendo alianças com populações de maioria xiita, tem uma relação muito boa com a Armênia, por exemplo, e vai tentando criar os vínculos com os vizinhos.
Nos primeiros 12 anos da Revolução Islâmica, a vizinhança do Mar Cáspio era tudo União Soviética e a relação não era muito boa. No período pós-soviético, o Irã foi tendo uma integração maior com países asiáticos e euroasiáticos, e hoje o país é um dos pilares dessa economia que se desenvolve, ou tenta se desenvolver por fora do eixo do dólar.
O Irã faz parte da Organização de Cooperação de Xangai, da União Econômica Euroasiática, e tenta avançar com a Organização de Cooperação Islâmica. Também tem presença no BRICS, e tudo aquilo que desenvolve uma economia industrial que não fica só na exploração primária e venda de commodities, especialmente se tem possibilidade de fechar contratos fora do eixo do dólar, está do interesse estratégico internacional do país.
Atualmente, o Irã deve ser conceituado como um regime conservador ou progressista? Uma democracia ou uma ditadura? Como funciona o regime?
O Irã é um país que tem instituições sólidas, previsíveis. É uma República com uma casa revisora, que ela não é um Senado, é um Conselho, que tem uma função não de poder moderador, mas de casa revisora mesmo, porque dificilmente intervém em questões domésticas, só se são de sobrevivência, diante de ataques externos ou de terrorismo interno, como foram os distúrbios da virada do dezembro para cá. Eu diria que na Ásia Ocidental é dos regimes mais próximos de uma democracia estável que podemos apontar, pois tem alternância partidária, com reformistas e conservadores (chamados de principialistas) se revezando no poder há muito tempo.
A outra coisa é que é proibida apostasia, então não tem uma dimensão sectária. Todas as religiões são respeitadas, têm seu estatuto e também presença de cota parlamentar. É um país de prevalência persa, mas não tem uma imposição de ditadura cultural, há direitos das minorias, de cultura, religião, o acesso à saúde é para ser universal, à educação e a prevalência jurídica da interpretação do Islã é o de justiça social: o Islã beneficente, benevolente, solidário com o próximo e não interpretações ultraconservadoras, como, por exemplo, o salafismo, que abaliza sem nenhum problema o acúmulo de riquezas praticamente imoral, como é o caso de monarquias absolutistas e como era, diga-se de passagem, o caso do xá, que ostentava sua riqueza de forma vergonhosa para a população local.
Nós temos a obrigação, no Ocidente, de classificar os sistemas políticos tem que ser compatível com os acúmulos históricos de cada região e com o seu entorno. Nesse sentido, é preciso dizer que a modernidade no Irã ela se estabelece através da República Islâmica, inclusive com a questão de um direito coletivo que ultrapassa personalismos – como, por exemplo, na época do xá, ser ou não amigo do monarca, ou ter ou não acesso a empresários ocidentais..
Eu diria que é uma república institucionalizada, estável, com um direito ao protesto dentro das regras de um país que é agredido externamente desde que ele foi refundado na Revolução Islâmica e que em usos e costumes vem avançando bastante nos últimos três ou quatro anos. Que tem alternância de poder previsível, com a presença de pelo menos dois partidos grandes e outros quatro ou cinco que são setorializados.
Como a cultura persa convive com a prevalência da religião islâmica xiita no Irã? Existe uma harmonia, ou uma contradição entre essas expressões?
Quando o Islã é introduzido no que é a Pérsia histórica, atual Irã, se deu num processo lento de conversão. Alguns colegas historiadores do Islã político entendem que, como já havia monoteísmo zoroastrista, isso não foi tão difícil, porque a formação estatal persa e farsi era mais administrativa do que imperial – ou seja, havia mais liberdade de movimentos e escolhas e cultos e cultura local sob a administração persa do que sob domínio romano, ou greco-romano.
O início da islamização foi no século 7 e a conversão ao xiismo só se deu na dinastia Safávida, no século 16. Então, foram quase mil anos de uma transição de uma maioria zoroastrista para o Islã, com a Shia, a facção rebelde ou a facção leal, se deu uma conversão posterior.
Só que a afirmação do Irã moderno se dá em cima de duas bases: a cultura prevalente persa e o xiismo como uma religião que caminha pari passu com o Estado. Os períodos de curtas dinastias que flertaram ou que aceitaram a monarquia parlamentarista – e que depois deram golpe, como o caso dos Pahlavi – foram uma espécie de modernização ocidentalizada. Já o Irã moderno é a conjunção de instituições contemporâneas de duas matrizes: o xiismo duodecimal e a obrigação de proteger todos os rebeldes da Shia, das várias vertentes do xiismo. Daí vem a obrigação de “proteger os oprimidos do mundo”, em um sentido mais amplo.
Eu acredito que essa prevalência da cultura persa na formação da grande identidade nacional iraniana é muito importante, porque ela é que sustenta essa formação pluriétnica e pluricultural, que inclui: árabes, turcomenos, balúchis, azeris, curdos, e o direito de minoria com respeito à religião.
As minorias de fé cristã e judaica no Irã são protegidíssimas, porque não têm histórico de separatismo nem de aliança com o imperialismo. Em outros setores, infelizmente, essas lideranças se aliaram com o imperialismo, e aí há uma maior vigilância do Estado.
Então, esse mosaico cultural balúchi, turcomeno, armênio, curdo, azeri e árabe convive graças à prevalência étnico-cultural persa-iraniana.
Como é, atualmente, a questão dos direitos das mulheres no Irã? Em termos de direitos civis, como é a vida de uma mulher iraniana em comparação a mulheres em países muçulmanos ou em países cristãos onde há forte influência da religião na política?
Não sendo mulher, e sobretudo não sendo uma mulher iraniana, eu respondo em cima da informação circulante: existia a questão da obrigação do hijab (véu muçulmano), mas ela já caiu há muito tempo. No mundo do trabalho, é possível observar muitas mulheres. Hoje elas são maioria na população estudantil, são maioria no mundo da ciência, são maioria entre profissionais liberais. Tem uma juventude de mulheres iranianas que tem uma ascensão social bem forte através do estudo e da capacidade nas profissões.
Ainda existe uma dimensão conservadora no matrimônio, nas relações pessoais, embora os relatos que a gente tem da juventude iraniana é que há mudanças acontecendo também nesse sentido, nos últimos anos.
Ademais, existe uma presença feminina nos órgãos de Defesa da República e nos órgãos políticos, com ministras e parlamentares mulheres. No último ano, a grande agenda positiva do Irã foi a promoção do esporte feminino. Foi um ano de ouro para o esporte feminino iraniano e para a promoção de cientistas mulheres.
Os protestos que vimos nos últimos dias refletem um desgaste do atual regime iraniano? As pessoas querem uma mudança de regime ou talvez a volta do regime do xá?
Os protestos são um reflexo da crise econômica derivada na desvalorização do dólar, cuja principal causa são as sanções, a dificuldade em transacionar com moedas estrangeira em um país que foi cortado do sistema Swift. Segundo todos os relatos, a média de idade dos manifestantes está 17 e 23 anos. Ademais, há vários registros sobre os autores dos atos violentos terem sido remunerados, ou afirmarem ter recebido promessas de remuneração financeira.
Também há presença de grupos separatistas a partir de movimentos organizados além fronteiras. A oposição interna não separatista possui setores, como o Conselho Nacional Iraniano, que é subordinado ao Reza Pahlavi, filho do último xá, que mora em Washington, e o Conselho Nacional de Resistência Iraniana, que é herdeiro do MEK, que eu mencionei antes, aquele grupo que foi insurgente contra o xá e mudou de lado com dois ou três anos depois, durante a Guerra Irã-Iraque.
Ainda assim, sejamos francos, existe uma demanda legítima por uma política econômica mais fortalecida, para que não tenha inflação de alimentos e que a infraestrutura básica do país seja totalmente adaptada à economia das sanções. A saída para o Irã, no médio prazo, é uma economia totalmente integrada, ou majoritariamente integrada, fora do eixo do dólar.
Os protestos, então, são legítimos?
Existe uma adesão parcial de uma juventude que não está no mundo institucionalizado, no serviço militar, nas universidades, nas forças complementares da guarda e que não tem muita prática religiosa. É uma juventude que está meio “à margem das instituições chave” e que é um motor, uma fonte de recrutamento para agentes externos que estão sempre dispostos a receber financiamento e criar tumulto.
Esses protestos por temas econômicos são legítimos, tanto que isso foi reconhecido pelas autoridades do país. Porém, é muito difícil você ter protestos violentos num país que está cercado e que esteve em guerra recentemente, como o Irã, que viveu uma guerra de 12 dias em junho contra um protetorado dos Estados Unidos (Israel) e terminou sendo bombardeado em uma de suas usinas atômicas.
Nesse cenário, é muito difícil separar o que é o agente externo e o que é o desconforto ou o incômodo com a política econômica interna.
Se a política econômica melhorar, se tiver um maior controle sobre o setor importador de alimentos, que também é problemático, é muito provável que as condições econômicas e materiais de vida melhorem, e assim vai diminuir essa tentação de aderir a um oásis de consumo e realização, que é prometido via internet.
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