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Orgulho, visibilidade e Reforma Agrária Popular

Foto: Arquivo MST

Por Coletivo LGBTI do MST
Da Página do MST

Agosto é um mês de orgulho, memória e luta para as mulheres lésbicas. É também um tempo de reafirmar que nossa existência, nossos afetos e nossas formas de construir coletivamente são profundamente políticas — especialmente nos territórios do campo, das águas e das florestas.

Em 19 de agosto de 1983, militantes do Grupo de Ação Lésbico-Feminista (GALF), junto a outros grupos aliados, realizaram um protesto no Ferro’s Bar, em São Paulo. Elas enfrentaram o preconceito, a opressão e as expulsões arbitrárias e violentas que atingiam mulheres lésbicas naquele espaço. A mobilização tornou-se um marco histórico e deu origem ao Dia Nacional do Orgulho Lésbico.

Treze anos depois, em 29 de agosto de 1996, cerca de 120 mulheres reunidas no I Seminário Nacional de Lésbicas (Senale) instituíram o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica. Essas datas expressam a força de uma trajetória coletiva de resistência e denunciam que o apagamento, o silenciamento e a violência contra mulheres que amam outras mulheres não são acidentais: fazem parte de uma sociedade capitalista, patriarcal, racista e heteronormativa, que busca controlar nossos corpos, desejos e projetos de vida.

No campo brasileiro, ser mulher lésbica significa enfrentar formas específicas de invisibilização. Muitas de nós vivemos e trabalhamos em territórios rurais, assentamentos, acampamentos e comunidades tradicionais; produzimos alimentos, preservamos sementes, cuidamos da terra, organizamos coletivos, participamos das lutas e construímos alternativas para a vida.

A Reforma Agrária Popular que defendemos precisa reconhecer e fortalecer a diversidade presente nos territórios. Não há transformação social profunda sem enfrentar o patriarcado, o racismo, a LGBTI+fobia e todas as relações de exploração que sustentam o agronegócio e a concentração da terra. A luta pela terra não se separa da luta pelo direito de existir com dignidade, viver nossos afetos livremente e construir famílias, comunidades e relações baseadas no cuidado, no respeito e na autonomia.

As mulheres lésbicas têm contribuído cotidianamente para a construção de uma agricultura agroecológica, solidária e voltada à soberania alimentar. Ao plantar, colher, guardar sementes crioulas, organizar a produção, cuidar da saúde coletiva e formar novas gerações, reafirmamos que a terra deve cumprir sua função social: produzir vida, alimento saudável, justiça e liberdade — e não lucro para poucos.

Em um contexto de crescimento dos discursos antifeministas e LGBTIfóbicos, é urgente combater todas as violências contra as mulheres lésbicas: o preconceito, a discriminação, as tentativas de “cura”, os estupros corretivos, as agressões e o lesbocídio. São expressões de uma ordem que não aceita mulheres autônomas, que recusam a tutela masculina e escolhem viver seus afetos fora da heteronormatividade compulsória.

Amar mulheres, organizar-se coletivamente e ocupar os espaços de luta também são formas de resistência. Ao recusarmos a centralidade masculina nas relações afetivas, sexuais e políticas, abrimos caminhos para novos vínculos de solidariedade, cuidado e companheirismo. Nossa existência afirma que outra forma de viver e se relacionar é possível.

Neste mês de orgulho e visibilidade lésbica, celebramos as que vieram antes de nós, honramos as que resistem nos diferentes territórios e reafirmamos nosso compromisso com uma sociedade sem exploração, opressão e violência.

Reforma Agrária Popular: Por terra, teto, pão, diversidade e liberdade!

*Editado por Fernanda Alcântara

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