
O Movimento de Luta nos Bairros (MLB) tem enfrentado a violência do Estado e das construtoras em Joinville (SC), onde famílias pobres do bairro Ulysses Guimarães sofrem remoções e demolições de suas casas.
Kauê de Oliveira (SC) e Selma Almeida (SP)
LUTA POPULAR – O Movimento de Luta nos Bairros (MLB), desde sua criação, luta contra as remoções de famílias de suas casas. Por causa do preço da terra, a maioria esmagadora da população, que vive com até um salário mínimo, é obrigada a ocupar terrenos para construir suas casas simples e humildes.
A verdade é que o Estado, que deveria cuidar e resolver esse problema, é também o causador dele. E a questão se agrava, pois a única forma que o Estado encontra para “resolver” o problema da habitação é através de muita violência e arbitrariedade, usando seu braço armado, que é a polícia, para despejar o povo pobre em nome do lucro das construtoras e especuladores imobiliários.
Em nosso país, são centenas de milhares de famílias que enfrentam a dura e injusta realidade dos despejos. Como em São Paulo, na luta já conhecida e tida como exemplo de resistência dos moradores do Jardim Pantanal (edição nº 307 de A Verdade). Mas também em Joinville (SC), uma das cidades mais operárias e industrializadas do país, onde as famílias do bairro Ulysses Guimarães têm se confrontado com essa realidade de modo mais violento desde o ano passado.
Solidariedade coletiva
Com ação intensificada pelo menos desde julho de 2025, policiais fortemente armados estão presentes diariamente na comunidade Juquiá, do bairro Ulysses Guimarães, vigiando e fotografando casas, inclusive com uso de drones, e intimidando os moradores como se fossem criminosos.
Uma operação coordenada pelo então prefeito Adriano Bornschein (Novo) demoliu 11 casas de uma só vez. Imediatamente, a comunidade se uniu e organizou uma grande manifestação na mesma noite, bloqueando ruas importantes da cidade.
Diferente das mentiras que a Prefeitura e os policiais dizem e a grande mídia do estado divulga, a demolição aconteceu em casas habitadas, de moradores que chegaram do seu trabalho e viram cada tijolo conquistado com seu suor, no chão.
Emanuel, imigrante haitiano e trabalhador, relatou: “Tenho os comprovantes da Celesc, pago luz e água há mais de um ano, e eles vêm e derrubam a casa da gente”. Naquele dia, assim como Emanuel, outras famílias ficaram sem moradia, mas contaram com a solidariedade da comunidade para ter onde se abrigarem.
Mesmo com promessas feitas pela Prefeitura, depois das manifestações populares, de não demolir mais casas habitadas, em dezembro, novas demolições aconteceram, dessa vez, com uma igreja e uma casa em construção na comunidade, o que reacendeu a revolta dos moradores.
Novas mobilizações e bloqueios de vias foram feitos e viaturas da polícia chegaram rapidamente, com uso de helicóptero e equipe tática. Policiais provocaram manifestantes com uso de spray de pimenta e dando ordem de desobstrução. Mesmo mulheres, idosos e crianças foram alvo de gás lacrimogêneo e tiros de balas de borracha. Uma moradora, protegendo seu neto de quatro anos de um dos disparos, acabou sendo atingida no pescoço. Um dos moradores organizado no MLB também foi atingido por dois tiros de bala de borracha. Ao dispersar as pessoas, a polícia perseguiu e abordou manifestantes da UP e MLB, e efetuou a prisão e espancamento de outro morador, que possui limitação de fala.
Essa ainda hoje é a realidade das famílias do Juquiá. Em vésperas da Páscoa, a Prefeitura realizou novas demolições. Resultado da revolta da população de Joinville, o povo organizou uma manifestação no evento em que o então prefeito Bornschein renunciaria seu cargo para candidatar-se a vice-governador do estado, assumindo em seu lugar a então vice-prefeita Rejane Gambin, também do Novo, representantes dos herdeiros e ricos da cidade.
A nova prefeita tomou posse ressaltando, de forma hipócrita e oportunista, “seguir a moralidade cristã”. Tão cristã é sua moralidade que não bastasse colocar a polícia para agredir injustamente os mais pobres, o fez durante os períodos de Natal e Páscoa, períodos de celebração do nascimento e ressurreição de Cristo.
A violência do estado que essas famílias sofrem passam praticamente impunes e a mídia burguesa atribui às famílias a culpa pelos despejos e remoções, mascarando os interesses daqueles que lucram com o mercado imobiliário.
O MLB tem organizado o povo para enfrentar essa luta desigual contra o Estado porque entende que, só assim, pode realmente acabar com a falta de moradia digna no país.
Matéria publicada na edição impressa nº332 do jornal A Verdade
