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Poesia: O peixe na rede

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Por Renan Neuernberger
(curadoria e apresentação de Tercio Redondo)


NOVAMENTE, SPLEEN

Outrora, o universo tudo instigava
e mesmo a matéria mais escura
           e mais opaca
continha, em latência, a chama azul
a ser acesa
pelo fósforo da promessa.

Agora, porém, estou exausto.

O céu desaba sobre a cabeça
dos frágeis seres de capacete
na chuva intensa do fim da tarde.

Nada mais, aqui, será metáfora:

os meios de transporte
carregam gente e equipamentos
(alguns deles inoperantes)
pela rua da Consolação.

São mais de cinco milhões de motos
cruzando vias, sem aventura.
O rosto incógnito, o corpo exposto
nos tornam todos
           menos irmãos.

Aguardo, pedestre, o semáforo.


MEIOS DE TRANSPORTE

Para Marília Garcia

1.

A anedota do professor
                 de filosofia clássica
que, em viagem pela Grécia
espantou-se ao ler no uniforme
dos transportadores de carga
                a palavra metáfora.

2.

Os monstros alados das lendas
foram domesticados
                 e se reproduziram
sob o rígido controle
de qualidade do século vinte.

São agora veículos técnicos,
                 com asas espirais,
que ocupam o céu
das cidades (“mais de dois mil
helicópteros,
segundo estatísticas
da ANAC”), carregando
os grandes heróis
                 desta era sem aventura

num cortejo fúnebre.

3.

Ônibus significa para todos.

Catraca é, provavelmente,
uma onomatopeia
que traduz, no plano verbal
o som das engrenagens metálicas
de um sistema de barreira.

Orelhão é uma catacrese
que se perdeu por desuso,
como se perderá, um dia,
                 o espaço atribuído
ao respeitável público.

4.

Navegar é um verbo preciso:
sua ação pressupõe um barco
                             (seja encouraçado
                                    ou caiaque)
sobre o qual o astuto
                   sujeito se desloca
com o apoio do vento,
de remos ou de motores.

Navegar na internet, portanto,
é uma expressão enganosa:

qualquer pescador da aldeia
global entende
que quem cai na rede é peixe,

nunca um argonauta.

5.

Cachorro louco é o vulgo
daquele que atravessa
             velozmente a cidade
ultrapassando automóveis
e cruzando sinais.

Sabe que Deus é fiel,
por isso segue sempre à pampa:
Mesmo dando grau na curva,         
             mantém reto o proceder.

6.

Todo aeroporto é idêntico.

Com letreiros em inglês e nas línguas locais, tomamos um
                                                                                        [café
caríssimo, próximo ao portão de embarque.

Antes, porém, fora preciso passar pelo detector de metais
(retirar o notebook da mochila, colocá-lo na bandeja
da esteira do raio-X), aceitar as luzes frias e o pé direito
                                                                                 [enorme
do saguão – simulacro de monumento egípcio de um filme
                                                                [de ficção científica.

A polícia mantém-se atenta, com seus cães farejadores.

                                                   Às vezes, nos interceptam.
                                                   Às vezes, não.


O MARINHEIRO MERCANTE

Não sabe a aventura
o marinheiro.
Com cem mil toneladas de containers,
esqueceu-se do canto das sereias.

Paramilitares mercenários,
vikings, fenícios, austronésios,
icebergs, orcas, albatrozes,
             Simbad, o marujo,
o gigante Adamastor,
o barco bêbado de Arthur Rimbaud

são cifras quase sempre
inofensivas.

Satélites em órbita anulam ao marinheiro
Os mapas do tesouro, a chama das estrelas.

Uma nano odisseia ocorreu-lhe
uma vez,
quando (por algum problema técnico)
um cargueiro atravancou,
por horas a fio,
a estreita passagem do canal
de Suez.

Estes poemas integram o livro Insular, proceder. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2025.

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