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Presidente da Febraban é investigado por empréstimo do Master que pagou apartamento

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, contratou um empréstimo pessoal de R$ 5,5 milhões junto ao Banco Master em novembro de 2020, já no exercício da presidência da entidade. A operação, revelada nesta quinta-feira (16) pelo Valor Econômico, foi quitada em dezembro de 2021 por meio de dação em pagamento, ou seja, Sidney entregou bens ou ativos ao credor em substituição ao pagamento em dinheiro. Na mesma data, o crédito foi cedido para a Urbaniza Empreendimentos e Participações Ltda., empresa controlada por Aroldo Rodrigues da Silva, empresário com histórico de negócios imobiliários com a família Vorcaro, controladora do banco.

O caso ganhou nova dimensão pública após a operação ser incluída em uma lista de 112 créditos cedidos a terceiros, elaborada e apresentada à Justiça pelo liquidante extrajudicial do conglomerado Master. O documento oficial é peça de um processo judicial que envolve os controladores do banco, servindo para mapear as movimentações financeiras da instituição antes de sua derrocada.

Investigação judicial

A liquidação extrajudicial do Banco Master foi decretada pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. Na ocasião, a autarquia nomeou a EFB Regimes Especiais de Empresas Ltda. como liquidante oficial. Dentre as atribuições legais do liquidante, destaca-se a investigação de todas as operações realizadas pela instituição nos anos anteriores, com foco especial nas cessões de crédito, mecanismo pelo qual o banco transfere a terceiros o direito de receber o pagamento de um empréstimo.

A lista com as 112 operações mapeadas foi anexada a um processo judicial no qual Henrique Vorcaro, pai do ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro, tenta obter o desbloqueio de bens. A inclusão do nome de Isaac Sidney no mapeamento detalha o caminho percorrido pelo crédito concedido ao dirigente setorial. No rito de liquidações extrajudiciais, esse tipo de levantamento é praxe para identificar se ativos de valor foram transferidos para partes relacionadas antes ou durante o período de crise financeira da instituição.

Relações anteriores

A relação profissional entre Isaac Sidney e o grupo controlador do Banco Master é anterior à concessão do empréstimo. Antes de ingressar na Febraban, Sidney construiu uma longa carreira no Banco Central, onde atuou como diretor de Relacionamento Institucional e Cidadania entre julho de 2016 e abril de 2018. Sua passagem pela diretoria do órgão regulador ocorreu sob a gestão de Ilan Goldfajn, durante o governo do ex-presidente Michel Temer.

Após se desligar do BC e cumprir a quarentena legal, Sidney atuou, entre o fim de 2018 e abril de 2019, como advogado no escritório Warde Advogados. Nesse intervalo, prestou assessoria jurídico-regulatória a Daniel Vorcaro e ao Banco Máxima,  denominação anterior do Banco Master, no processo de transferência de controle societário junto à própria autarquia que havia integrado meses antes.

Naquele período, o Banco Central chegou a indeferir inicialmente o pedido de transferência de controle, em fevereiro de 2019, apontando inconsistências na documentação apresentada pelas partes. Entre os pontos questionados estava a comprovação de capacidade financeira, que utilizava imóveis de propriedade de Aroldo Rodrigues da Silva situados no município de Jequitibá, em Minas Gerais. A aprovação definitiva da transferência de controle pelo órgão regulador ocorreu em outubro de 2019, quando Sidney já havia deixado o escritório de advocacia para ingressar na Febraban.

Cessão sob suspeita

O empréstimo sob análise, no valor de R$ 5,5 milhões, foi formalizado em 26 de novembro de 2020 e teve como finalidade a aquisição de um apartamento duplex de 410 metros quadrados em São Paulo, com o próprio imóvel registrado sob alienação fiduciária como garantia da operação. Em dezembro de 2021, a dívida foi extinta mediante a entrega do bem como pagamento. Na mesma data da quitação, o crédito correspondente foi cedido para a Urbaniza Empreendimentos e Participações Ltda, pertencente a Aroldo Rodrigues da Silva.

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Aroldo já havia figurado em relatórios e reportagens sobre a estruturação do Banco Master devido à sua proximidade comercial com a família Vorcaro e ao aporte de seus ativos imobiliários na tentativa inicial de homologação do banco perante a autoridade monetária em 2018.

O conjunto de transações desperta discussões regulatórias e éticas no mercado financeiro. O fato de o principal representante das instituições financeiras do país obter um financiamento expressivo com um banco controlado por um grupo ao qual prestara assessoria jurídica meses antes, somado ao posterior direcionamento do crédito para um parceiro de negócios dos controladores, gera questionamentos sobre conflito de interesses e a necessidade de regras de governança mais rígidas para dirigentes de entidades setoriais reguladas.

Outro lado

Procurado pela reportagem do Valor Econômico, o presidente da Febraban, Isaac Sidney, apresentou documentos para comprovar a regularidade legal da transação, incluindo a cópia do contrato firmado, comprovantes de transferências bancárias via TED, proposta de financiamento concorrente de outra instituição bancária para o mesmo imóvel, declarações de Imposto de Renda e o respectivo instrumento de quitação do débito. O dirigente declarou que a operação foi realizada “em estrita consonância com as normas aplicáveis” e afirmou que só teve conhecimento sobre a cessão do crédito no momento em que realizou a quitação da dívida.

O liquidante judicial, representado por seu escritório de advocacia, declarou que não emite pronunciamentos sobre processos que ainda se encontram em andamento na Justiça.

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