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Presidentes da CUT e CTB acreditam na aprovação do fim da escala 6×1

Em meio a uma intensa agenda de mobilização nacional pelo fim da escala de trabalho de 44 horas semanais, os presidentes das duas maiores centrais sindicais do Brasil, CUT e CTB, estão confiantes e defenderam que a pressão pelo fim da escala 6×1 deve levar à aprovação da pauta na Câmara dos Deputados na próxima semana.

Para Sérgio Nobre, presidente da Central Única dos Trabalhadores, “a aprovação atende a um clamor popular e à pressão do movimento sindical, que está unido na defesa dessa pauta, tratada como prioritaria”.

Adilson Araújo, presidente da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil, afirma que a discussão sobre o fim da escala 6×1 “aproxima o Brasil de países que, por muito tempo, fizeram a opção de reduzir a jornada de trabalho, como foi o caso da França, que, ao reduzir para 35 horas semanais, viu isso resultar na geração de 350 mil postos de trabalho”.

Às vésperas da votação na Câmara, eles associaram a escala extenuante aos problemas de contratação formal e defenderam que o Brasil siga a “linha do desenvolvimento” internacional.

CUT: 40 horas já! Pesquisa aponta jornada extensa como barreira à formalização

Sergio Nobre destacou um estudo realizado pelas centrais sindicais em parceria com o Instituto Vox Populi e a Fundação Perseu Abramo, que contou com mais de 5.500 entrevistas sobre as transformações no mundo do trabalho. Segundo ele, a pesquisa buscou entender por que o empresariado reclama de dificuldade para contratar com carteira assinada enquanto cresce a informalidade.

“A pesquisa revelou que os motivos são dois. Um é a questão do baixo salário”, afirmou. Ele exemplificou com trabalhadores do comércio que entram em grandes redes ganhando R$ 1.900 e, após descontos, “levam para casa menos do que o salário mínimo”. Para Nobre, esse ponto precisa ser debatido “muito fraternalmente com o setor empresarial, porque assim não vai contratar ninguém mesmo”.

O segundo fator, segundo o presidente da CUT, é decisivo: “o grande fator também, que pesa muito é a jornada de trabalho extensa, a rigidez das escalas de trabalho e, em especial, a escala seis por um, que torna impossível conciliar o trabalho com a vida”.

Nobre vinculou a questão a um direito básico: “O trabalho é muito importante, mas ele não pode impedir a pessoa de ser um bom pai, de ser uma boa mãe, de cuidar dos filhos”. E reforçou o resultado da pesquisa: “80% dos entrevistados apontam a redução da jornada para 40 horas e o fim da escala de seis por um como a grande pauta do movimento sindical”.

O dirigente também rejeitou a ideia de compensações que impliquem perda de direitos, como cortes no FGTS: “Repúdio a esse tipo de proposta, porque não é preciso compensação, porque a proposta ela se paga”. E encerrou com um recado direto: “A classe trabalhadora esperou demais pelas 40 horas. Eu sou presidente da CUT, que nasceu há 43 anos com essa pauta de 40 horas. 43 anos já se passaram. Portanto, nós não vemos sentido em esperar mais quatro ou cinco anos. Chega, né? Nós queremos 40 horas, já, agora”.

CTB denuncia “terrorismo” e aponta cenário internacional favorável

Adilson Araújo, presidente nacional da CTB, classificou a escala 6×1 como “desumana” e criticou o tom do debate: “Na medida que esse debate ganhou a pauta do Congresso Nacional, que se aproxima o momento da votação, há uma inquietação, um alarmismo muito forte. Eu diria que de algum modo até um certo terrorismo por parcela extremista, diria assim, os próceres da direita, da extrema direita”.

Ele citou exemplos internacionais para sustentar a viabilidade da proposta: “Uma edição mais recente do Financial Times aponta que a medida a ser adotada no Brasil, com vista ao fim da escala 6×1, coloca o Brasil na linha do desenvolvimento”. Araújo mencionou a França, que, ao reduzir a 35 horas semanais, “viu resultar na criação de 350 mil postos de trabalho”, e a Islândia, que experimenta a jornada de quatro dias.

O presidente da CTB também apresentou dados sobre acidentes de trabalho: “O Brasil figura na lista dos países do G20 enquanto o segundo país com maior índice de morte por acidente de trabalho e nós somos hoje, segundo dados da OIT, o terceiro país no mundo com maior registro de acidente de trabalho”. Segundo ele, em 2025 foram registrados “mais de 806 mil trabalhadores e trabalhadoras brasileiras lesionadas, ou seja, um registro de 3.644 mortes”.

Para Araújo, a mudança é uma “exigência do tempo presente, que tem apoio de 70% da população” e está em harmonia com quem deseja “ter um tempo maior para cuidar dos filhos, conviver com a família, lazer, estudar mais, se qualificar, ou seja, objetivamente ter uma vida digna”.

Relator pede “mobilização social”

Na Câmara dos Deputados, o relator da PEC 221/19, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), afirmou, em audiência pública em Florianópolis (SC), na quinta-feira (21), que a aprovação do fim da escala 6×1 “não será fácil” e depende de pressão popular. “Nós precisamos de 308 votos, e não é fácil. Na média, temos 114 votos”, disse. Ele anunciou que o relatório será apresentado na segunda-feira (25) e votado na comissão especial no dia 27.

Sindicalistas presentes pediram a adoção imediata das 40 horas e de dois dias de descanso, sem transição. O deputado Pedro Uczai (PT-SC) sugeriu prazo de apenas 60 dias para entrada em vigor. Já o representante da Federação das Indústrias de Santa Catarina, Carlos Kurtz, defendeu que jornada e escala sejam definidas por negociação coletiva, alertando para riscos de perda de competitividade.

Governo reafirma defesa do fim “imediato” da 6×1

Já o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, em audiência na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, reforçou a posição do governo: “Nós queremos acabar com a escala 6×1 imediatamente”. Ele defendeu a redução para 40 horas semanais, sem redução salarial, e afirmou que o Projeto de Lei nº 1.838/26, enviado ao Congresso, prevê a mudança imediata, com duas folgas semanais.

O ministro também argumentou que a adoção da escala 5×2 pode resultar em ganhos de produtividade: “Muitas empresas estão com dificuldade de preencher vagas quando informam que a escala é 6×1. Aquelas que resolveram antecipar a redução, implantando a escala 5×2, tiveram como resultado a redução das faltas no trabalho, viram a produtividade aumentar, assim como a qualidade do serviço”.

Segundo Marinho, atualmente 66,8% das empresas já operam no modelo 5×2, enquanto 33,2% mantêm a escala 6×1.