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Quem construiu Tebas?

Em todo o Brasil, dezenas de operários e operárias mandam correspondências, crônicas e principalmente denúncias de suas condições de vida e trabalho ao Jornal A Verdade. Nosso Jornal publica mais uma carta enviada por um operário e leitor do nosso Jornal.

Everton Gama | São Paulo


Carta – Apesar do trabalho ocupar uma parte importante na nossa vida a uma subestimação da ideia de trabalho, principalmente quando falamos do trabalho braçal.

O trabalho é o que nos torna capaz de alterar a realidade, apenas com a força do ser humano sobre a matéria nós temos condição de alterá-la e transformá-la, apenas com o trabalho nós temos condições de produzir os itens necessários para a nossa subsistência humana, assim como só com o nosso trabalho nós temos condições de alterar as estruturas da nossa sociedade.

Como dizia Che: “Perdoem-me se insisto mais uma vez, mas é que sem trabalho não há nada. Toda a riqueza do mundo, todos os valores que tem a humanidade, não são nada mais que trabalho acumulado.” (O que deve ser um jovem comunista)

Porém o liberalismo nos ensina um trabalho preguiçoso, interesseiro e individualista, para o liberalismo o trabalho é a expressão máxima da propriedade e da liberdade individual.

“Sendo o trabalho propriedade inquestionável do trabalhador, nenhum homem senão ele pode ter direito ao que foi alcançado pelo seu trabalho.” Como diria John Locke.

Eles fazem do trabalho algo individual, algo feito na intenção apenas de satisfação e prosperidade individual, que o trabalho tem apenas como meta o ganho econômico e isso é o que eles querem que nós acreditemos.

Porém é a partir do trabalho coletivo que toda sociedade se construiu, ignorar o aspecto coletivo no trabalho serve apenas para nos dividir, favorecer os burgueses e nos afastar da realidade. Nossas mãos tem capacidade de salvar vidas, matar a fome, dar moradia e construir um futuro, negar que o nosso esforço tem a capacidade de melhorar a vida da sociedade é negar a realidade em si.

 “Não concebemos o socialismo como uma mera acumulação de produtos, mas como um desenvolvimento integral do ser humano, onde a atitude diante do trabalho é ditada pelo dever social, não pelo egoísmo.” (Che Guevara em Socialismo e o Homem em Cuba)

Portanto, além de combater esse olhar perante o trabalho temos que profundamente combater o olhar pequeno burguês perante o trabalho manual. Diversos companheiros hoje veem defensiva em trabalhar nas fábricas, na construção civil ou fazer trabalhos considerados “pesados”, pois vê como uma perda de seus privilégios nesse trabalho. Isso nada mais é que uma herança de anos e anos desde a época da escravidão.

Naquela época a elite branca entendia que fazer qualquer esforço manual (como carregar um objeto ou cultivar a terra) significava perder o status de fidalguia. O trabalho braçal passou a ser visto não apenas como cansativo, mas como algo que “manchava” socialmente o indivíduo. Esse preconceito gerou o fenômeno do bacharelismo, uma obsessão das elites por diplomas de cargos burocráticos e intelectuais, mantendo as mãos limpas.

Bom lembrar a poesia do Brecht “Quem construiu Tebas, a das sete portas? / Nos livros vem o nome dos reis, / Mas foram os reis que transportaram as pedras? / Babilônia, tantas vezes destruída, / Quem outras tantas a reconstruiu?”

Hoje o trabalho entre os operários e as operárias é fundamental para a revolução, mas para avançar precisamos superar nossa visão e costumes atrasados.

Entender que na verdade essa divisão entre trabalho intelectual e trabalho manual foi algo criado e que esse mesmo trabalho manual que era mal visto pela elite escravocrata foi aquele que deu condições de soergue Tebas das sete portas, Babilônia, Muralha da China e todo as estruturas do nosso país. 

Muitas pessoas não têm escolha perante qual trabalho vão fazer para se sustentar na vida, e nós também não podemos escolher qual trabalho devemos fazer para realizar a revolução.

Durante um momento de votação para decidir os membros do partido revolucionário numa fábrica Che disse “Quem quer que aspire a direção do partido tem que enfrentar ou, melhor dito, se expor ao veredicto das massas e ter a certeza de que foi eleito ou proposto como dirigente porque é o melhor entre os bons” (Sobre Construção do Partido)

Também não estamos na luta para fazermos pouco, também não estamos nas fábricas para fazer o básico. Queremos ser o que melhor há do militante e o que melhor há da operária e do operário, o melhor que há em nós. Só é possível dirigir e ensinar se tiver o exemplo, o espírito de sacrifício, o trabalho consciente, humilde e disciplinado.

Em resumo devemos superar a ideia do trabalho ser algo individual, uma mercadoria ou uma propriedade e devemos entender o trabalho dentro da fábrica, o trabalho político, o trabalho nas brigadas e etc, como coletivo, como um dever social, como uma extensão da nossa criatividade, como uma contribuição consciente para comunidade, e o melhor de nós, o melhor dos resultados se torna uma consequência consciente do entendimento do seu papel do coletivo e de alcançar a nova sociedade. 

Transformar fardo em privilégio, entender que o trabalho de construir uma nova sociedade além de cansativo é uma honra. A disciplina vira consequência de entender que: A importância de uma nova sociedade e a disputa consciente cotidiana para se conquistar ela.