Passada a frustração pela não realização do carnaval de blocos de rua esse ano, a secretária municipal de Cultura, Liliana Cardoso, se reuniu com representantes de 25 blocos para alinhar soluções de modo a evitar que a situação se repita em 2026. O encontro, realizado nesta quinta-feira (06) na Assembleia Legislativa e organizado pela deputada estadual Laura Sito (PT), teve a intenção de garantir melhores condições para a realização do carnaval de rua na capital gaúcha, com demandas relacionadas a segurança adequada, infraestrutura básica e apoio para os blocos.
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A reunião foi marcada pela expressiva presença de blocos que costumam desfilar nos bairros periféricos da cidade e não apenas aqueles que ocupam as ruas nos bairros mais centrais.
Conforme a parlamentar, a reunião ocorreu num contexto de negligência histórica da cultura popular por parte do poder público. O exemplo de tal negligência, salientou Laura, foi o atraso do edital de apoio aos blocos. “Queremos que a Polícia Militar atue para garantir a segurança das pessoas, e não como força repressora. Também são necessários banheiros químicos, distribuição de água, ambulâncias e toda a estrutura essencial para um carnaval digno”, afirmou.
Durante o encontro, os blocos reivindicaram que a Secretaria Municipal de Cultura atue como mediadora junto ao Ministério da Cultura para viabilizar apoio ao carnaval de Porto Alegre. Houve o entendimento de que a falta de diálogo entre a Prefeitura e o governo federal resultou em equívocos na orientação sobre o acesso à Lei de Incentivo à Cultura. Muitos organizadores de blocos acreditaram que seus projetos aprovados já garantiriam patrocínio, enquanto na verdade eles precisariam captar recursos junto às empresas. O relato é que o erro causou insegurança e dificuldades na realização das festas.
Representante do Bloco Turucuta, Artur Klasmann diz ter gostado da reunião para entender os fatos recentes envolvendo a proibição de desfile dos blocos, além de levar à secretária as reivindicações dos blocos para a gestão municipal. “Sinto que os representantes dos blocos acolheram as explicações da atual secretária e estão dando um voto de confiança a ela, na sua boa vontade para produzir um evento bem estruturado e seguro para a cidade em 2026. E sinto também que nossas reivindicações foram acolhidas num primeiro momento”, analisou.
Para ele, a reunião serviu como ponto de partida na organização dos próximos carnavais, assim como o início de uma relação de confiança entre os blocos e a secretária Liliana para que os próximos eventos sejam organizados com a participação ativa de quem faz há décadas o carnaval na cidade.
“Nós conhecemos a estrutura rígida, burocrática e conservadora da atual gestão municipal, na qual a secretária Liliana está inserida, mas sabemos que tanto o Município quanto o Estado sabem que, hoje em dia, os blocos estão se comunicando e se organizando, ganhando força e apoio popular para superar as barreiras que nos são impostas. Não é interessante para ninguém da política, nem para a economia ou para a cultura, que aconteça novamente uma tentativa de impedir os blocos de irem para a rua promover a alegria no espaço público”, ponderou Klasmann.

Por sua vez, a deputada destacou a importância do suporte aos blocos independentes, especialmente os ligados às comunidades periféricas e à cultura negra, os quais ela destacou que são historicamente ignorados e que desempenham um papel fundamental na identidade cultural e na resiliência das comunidades de Porto Alegre. “O carnaval ainda não aconteceu na cidade porque foi inviabilizado. É fundamental que o poder público municipal assuma sua responsabilidade e garanta as condições para que a festa popular ocorra”, disse Laura Sito.
Luciano Soares Cardoso, presidente do Bloco do Gato, também avaliou positivamente a iniciativa da reunião para que haja mais transparência entre os blocos e a Secretaria Municipal de Cultura. Segundo ele, a conversa foi “jogo limpo”, com o sentimento de que a secretária foi receptiva, acrescido do fato de que ela foi nomeada há pouco para o cargo.
Cardoso ainda destacou o fato de Liliana ser uma mulher negra, a primeira mulher negra a comandar a Secretaria Municipal de Cultura, e conhecer a realidade dos blocos, inclusive dos blocos da periferia. “A gente sempre sofre com essa burocracia que tem no carnaval de Porto Alegre, que não é de agora, e também com a truculência da polícia perante os blocos de periferia, porque geralmente os blocos do centro não tem tanto essa truculência como tem os blocos das periferias.”
O presidente do Bloco do Gato enfatiza que a reunião também procurou apontar caminhos para que os blocos tenham mais visibilidade em 2026. O seu sentimento é de que a secretária se mostrou disposta para que isso aconteça. “Ficou feio todo o Brasil tendo carnaval no calendário e Porto Alegre fora do calendário do carnaval de blocos. O pessoal indo para a praia para pular carnaval, enquanto aqui em Porto Alegre não se tinha isso, mas a secretária entrou agora, é nova e está disposta para que a gente tenha um belo carnaval de rua”, acredita.
Para ele, os blocos de carnaval também representam a cultura de Porto Alegre e a cultura negra, que merece ser respeitada. Cardoso ainda fez um apelo para que seja dado um voto de confiança à nova secretária. “O pessoal também tem que parar de boicotar a secretária de cultura, que é uma mulher negra e merece ser abraçada por todos nós da liga, dos blocos de rua, que parem de boicotar o mandato dela para que a gente tenha um belo carnaval de 2016.”
Uma nova reunião foi marcada para o próximo dia 18 de março, após o desfile das escolas de samba no Complexo Cultural do Porto Seco, para tratar das reivindicações dos blocos.
Confira as demandas apresentadas pelos blocos na reunião:
Ações a longo prazo (2026)
- Investimento no carnaval de rua, incluindo tanto ações centrais quanto descentralizadas.
Ações a curto prazo (2025)
- Estabelecimento de parcerias para garantir infraestrutura e serviços essenciais da cidade.
- Maior clareza e agilidade nos processos de liberação para eventos autônomos organizados pelos blocos.
- Ampliação do suporte financeiro aos blocos e inclusão de mais circuitos no planejamento do carnaval.
- Discussão, junto ao Ministério da Cultura (MinC), do orçamento e do projeto para o carnaval de blocos de 2026.
- Seleção de proponentes por região, considerando que algumas entidades conhecem melhor suas comunidades do que a própria prefeitura, evitando que produtores atuem em locais que não conhecem.
- Realização de oficinas sobre formalização, gestão e desenvolvimento econômico dos blocos.
- Garantia de fornecimento de água para os blocos por meio da Secretaria de Cultura e do DMAE, com possibilidade de articulação para doação da Corsan/Aegea como contrapartida social.
- Utilização do cadastro do edital de 2025 para a criação de um mapa atualizado dos blocos na cidade.
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