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Roda de conversa na FPA pautou horizontes da esquerda e os desafios globais

O segundo dia de celebrações dos 30 anos da Fundação Perseu Abramo, em 9 de maio, foi marcado por uma mesa que reuniu os diretores da FPA Valter Pomar e Monica Valente para falar sobre o panorama mundial e as perspectivas da classe trabalhadora. O debate foi mediado pela diretora Elen Coutinho. 

Valter Pomar fez um comparativo entre as crises que precederam a derrota do nazifascismo, em 1945, e aquela que vivemos atualmente. “A União Soviética tinha um nível de integração com o mundo capitalista baixíssimo, enquanto, no caso da República Popular da China, há uma imensa integração. Existiu uma crise macroeconômica no passado, tendo como marco o ano de 1929, e, mais recentemente, houve a crise de 2008. Uma segunda semelhança é o declínio da potência hegemônica, na época a Grã-Bretanha e, atualmente, os Estados Unidos”, afirmou.

Ele mencionou o nível de polarização atual, similar ao que havia no pré-Primeira Guerra Mundial. “É uma crise que não afeta apenas a vida material das pessoas. Tem uma dimensão mais visível, o empobrecimento, o desemprego, a precarização, e também um adoecimento mental social, cuja principal característica, do meu ponto de vista, é que abala a crença de que o futuro pode ser melhor”, pontuou.

Crise global e oportunidade histórica

Para ele, essa crise, como outras na história contemporânea, abre uma janela de oportunidades para o país e a classe trabalhadora. “Foi assim na época das guerras napoleônicas, quando se iniciou o nosso ciclo de industrialização, e agora também. As pessoas que vivem do seu trabalho e não exploram o semelhante são a imensa maioria do povo brasileiro. E o que a gente deve buscar nessa circunstância é a melhor solução possível para essa parcela da humanidade.”

Mônica Valente abordou, em sua exposição, os desafios e as oportunidades da América Latina para firmar-se como polo de resistência ao neoliberalismo e constituir uma alternativa. “Nesse cenário global, vivemos aqui coisas muito inusitadas. Quem poderia imaginar que a luta contra o modelo neoliberal no início da década de 90 daria origem à onda vermelha ou onda rosa, a partir de 1998, com a eleição de Chávez na Venezuela?”, disse.

“Nossos países foram criando experiências de combate à pobreza, à fome, de busca de justiça social, sem nenhum grande modelo teórico que tenha nos guiado, mas foram vitórias eleitorais que criaram paradigmas muito importantes na Venezuela, depois no Brasil, na Argentina, no Paraguai, na Bolívia, no Chile, no Equador e no Caribe, na América Central, Honduras, República Dominicana, Panamá, com governos antineoliberais, alguns mais à esquerda, outros menos, mas todos antineoliberais. E isso durou até mais ou menos 2013, quando Obama declarou a Venezuela como uma ameaça inusual e extraordinária aos Estados Unidos”, afirmou.

América Latina e integração regional

Ela pontuou a importância estratégica da América Latina, que faz com que os adversários olhem a região e os governos progressistas com preocupação. “A gente não conhece direito esse potencial de influência do Brasil e da região nesse cenário global. Depois de enfrentar um período de dificuldade, com sucessivos golpes, o protagonismo do combate ao modelo neoliberal nos levou a uma nova onda de vitórias.

Chamo atenção para 2018, a eleição de López Obrador no México, o acordo de paz na Colômbia, que permitiu uma reorganização política das forças progressistas e a construção de uma unidade da esquerda que levou Petro à vitória em 2022. E o Brasil, que, após tantas dificuldades, recuperou a presidência em 2022, além da luta permanente de resistência do povo venezuelano e de Cuba.”

O integrante do Conselho Curador Pedro Silva Barros disse que o governo brasileiro foi essencial para rearticular a região e conseguiu, em 2023, reunir 12 presidentes na Cúpula de Chefes de Estado da América do Sul, o que parecia muito difícil naquele momento da transição.

“O presidente Lula conseguiu em quatro meses. O presidente do Equador não falava com o presidente da Argentina e ambos estavam aqui. Os presidentes do Uruguai e do Paraguai nunca haviam conversado com o presidente da Venezuela e participaram da mesma mesa. E o presidente da Colômbia não reconhecia o governo do Peru, mas ambos participaram da reunião”, lembrou.

Porém, afirmou que, passados três anos, ainda não houve uma reunião de ministros. “Estamos no momento de transição energética, mas não tivemos nenhum encontro sul-americano sobre energia. A Unasul foi criada em um momento de crescimento econômico e do comércio intrarregional, com distribuição de renda, mas nem todos os governos tinham a mesma orientação. Porém, havia uma maioria que gerava um custo muito grande para quem ficasse de fora”, disse.

“Hoje vivemos um momento muito mais difícil e precisamos atualizar essa agenda. Isso implica ter necessariamente concentração para além dos governos nacionais. É necessário articular-se com os governos subnacionais desses países, com os movimentos sociais, e envolver também o setor privado. E agora teremos a nossa eleição, a mais importante da história da América Latina. Porque os nossos princípios constitucionais que comungamos com os vizinhos, como a autodeterminação dos povos, estão sob ataque”, concluiu.

Um horizonte de esperança

A diretora da FPA Elen Coutinho acredita que o PT vem incorporando alguns tabus que deveriam ser enfrentados. “O debate da autonomia do Banco Central é um exemplo disso, e também a taxa de juros de um dígito, porque vai criar um rebuliço. Como também, há muitos anos, a gente não pode mencionar a auditoria da dívida pública. Penso que, ao falar de horizontes da esquerda, é fundamental ganhar a população para o nosso projeto político, para ser socialista, pois a gente não consegue chegar ao socialismo sem ganhar a população para isso”, afirmou.

“Quando começamos a colocar as pessoas na universidade, havia um horizonte de esperança. No início da entrega de casas durante o primeiro governo Lula, havia um horizonte de esperança em ter acesso à casa própria. Recentemente fizemos uma coisa muito bacana em relação ao imposto de renda, mas não existe um horizonte de esperança para as pessoas efetivamente. Acredito que essa seja uma discussão para ser feita entre nós. Qual é, de verdade, o horizonte de esperança que nós estamos apresentando para as pessoas e como estamos fazendo esse debate com a população em geral, sobre a expectativa de dignidade e de qualidade de vida?”, questionou.