Centenas de pessoas se reuniram nesta terça-feira (04/08) na Praça dos Mártires, em Beirute para homenagear as centenas de vítimas de uma das maiores explosões não nucleares da história do Líbano.
A tragédia ocorreu há exatos seis anos, no dia 4 de agosto de 2020, quando um cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amônio, armazenadas no porto da capital libanesa, detonaram, matando ao menos 218 pessoas, ferindo mais de seis mil e deixando 300 mil desabrigadas. Na ocasião, bairros inteiros foram destruídos em segundos.
A reportagem de Opera Mundi acompanhou a marcha dos manifestantes desde a Praça dos Mártires até o porto onde a explosão aconteceu. Organizações populares montaram um palco em volta do qual se realizou um ato que se repete todos os anos, com o objetivo de manter viva a demanda por justiça às vítimas do acidente.
A cerimônia começou com o hino libanês, seguido por uma canção que unia o badalar de um sino cristão a uma reza muçulmana, símbolo da diversidade do país. Enquanto isso, nomes e fotos das vítimas eram exibidos no telão, diante de aplausos. Às 18h08, um minuto de silêncio marcou o exato momento da tragédia.
Entre as milhares de vítimas, está a brasileira de origem libanesa Naima Yazbek. A professora de dança ainda carrega as marcas físicas e emocionais daquele dia.
“Eu estava a cerca de 1,2 mil metros do local, dentro de um prédio, quando houve a explosão. Havia um andaime na varanda. Tudo voou em cima da gente: portas, vidros e metais. Eu e minha amiga ficamos inconscientes por alguns minutos. Quando acordei, estava ensanguentada, com o dedo da mão esquerda pendurado, um corte profundo no braço e cacos de vidro cravados nas pernas e nos pés”, relembra Yazbek.
À época, muitas pessoas estavam confinadas em casa por causa da pandemia de covid-19. Com o calor intenso, as janelas de muitas residências estavam fechadas para manter o ar-condicionado. Famílias inteiras sofreram ferimentos graves causados pelos estilhaços de vidro.
A brasileira recorda que quase não saía de casa por causa da quarentena. Naquele dia, ela antecipou uma aula que ocorreria no dia seguinte. “Passei por uma cirurgia e perdi parte significativa da audição do ouvido esquerdo. Para mim, que sou cantora, foi uma perda especialmente dolorosa”, relata.

Stefani Costa / Opera Mundi
O jornalista português João Sousa, que vive no Líbano há seis anos, estava a 800 metros do local da explosão. Felizmente, ele teve apenas ferimentos leves nos pés, causados pelos estilhaços das janelas.
“Quando sai de casa, os gritos de desespero, o choro das crianças e as sirenes das ambulâncias estavam por todo o lado. No dia seguinte, quando fui fotografar as ruas, me lembro que o ruído era marcado pelos cacos de vidro sob os pés das pessoas”, conta Sousa.
Já o casal libanês Paul e Trace Nagger sofreu uma grande perda naquele dia: a filha Alexandra, de apenas três anos, foi uma das vítimas fatais da explosão. Desde então, tornaram-se ativistas na luta por justiça, e asseguram que suas ações vão além da dor pessoal.
“Cada ano fica mais difícil carregar esse peso, mas seguimos firmes na busca por responsabilização”, desabafa Paul Nagger.
Caso sem conclusão
Seis anos depois, nenhum alto funcionário portuário foi responsabilizado. A investigação conduzida pelo juiz Tarek Bitar segue paralisada, travada por obstrução política e sucessivos recursos jurídicos.
Na véspera do aniversário da tragédia, o presidente libanês Joseph Aoun pediu que a apuração fosse concluída sem demora, uma exigência antiga, feita por diversas autoridades, mas que até agora não resultou em respostas concretas.

Stefani Costa / Opera Mundi
A brasileira Naima Yazbek lamenta que as investigações continuem paralisadas, o que, segundo ela, alimenta um ciclo de impunidade enraizado na história do Líbano.
“Infelizmente, os responsáveis nunca foram identificados. Há um sequestro de narrativas e uma instrumentalização política que impede que a verdade venha à tona”, frisa Yazbek.
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