A pressão exercida pelo governo dos Estados Unidos para que o Brasil aceite a indicação do novo embaixador norte-americano em Brasília contrasta com a letargia com que a própria Casa Branca tratou o cargo durante o atual mandato de Donald Trump.
A administração republicana passou 17 meses sem indicar um nome para o posto e só o fez em junho deste ano, a quatro meses das eleições presidenciais brasileiras.
Nesta terça-feira (4), os Estados Unidos chegaram a revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti, usando como justificativa a suposta demora de Brasília em conceder a autorização.
O escolhido por Trump é Daniel Perez, deputado estadual da extrema direita republicana da Flórida e próximo do secretário de Estado Marco Rubio. Para assumir o cargo, ele precisa receber do Brasil o chamado agrément, a anuência concedida pelo país anfitrião ao representante indicado por outro Estado.
A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil está sem titular desde janeiro de 2025, quando Elizabeth Bagley, indicada pelo então presidente Joe Biden, deixou o posto após a volta de Trump à Casa Branca. Desde então, a representação norte-americana permaneceu sem embaixador e atualmente é comandada pela encarregada de negócios Natasha Franceschi.
Foi somente em 1º de junho deste ano que Trump anunciou Perez como seu escolhido para o cargo. A forma como a indicação foi feita também provocou mal-estar em Brasília.
A Casa Branca tornou público o nome de Perez antes de consultar reservadamente o governo brasileiro. O pedido formal de agrément só foi encaminhado cerca de duas semanas depois do anúncio.
O procedimento contraria a prática diplomática segundo a qual o país que envia o embaixador consulta previamente, e de maneira confidencial, o governo que irá recebê-lo. Somente depois da anuência o nome costuma ser anunciado publicamente.
O governo brasileiro também rejeita a alegação de que estaria demorando a responder ao pedido. A Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas não estabelece prazo para a concessão do agrément, e a indicação permanece em análise.
Em nota divulgada nesta terça, o governo Lula classificou como “falsas” as justificativas apresentadas por Washington para a revogação do visto de Viotti e relacionou o episódio às demais medidas adotadas pelo governo Trump contra o Brasil.
“A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo”, afirmou.
O governo brasileiro foi além e relacionou a pressão norte-americana ao processo eleitoral. “Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente”, declarou.
Quem Trump quer enviar ao Brasil
O perfil político de Daniel Perez também chama atenção diante do momento escolhido por Washington para preencher a embaixada.
Presidente da Câmara dos Representantes da Flórida desde 2024, Perez integra a extrema direita republicana do estado e é próximo de Marco Rubio, um dos principais responsáveis pela política externa do governo Trump e articulador da ofensiva de Washington contra Cuba e governos de esquerda da América Latina.
Filho de imigrantes cubanos, Perez nasceu em Nova York e mudou-se ainda criança para a Flórida, em 1993. Cresceu na região de Miami, onde se concentra parte expressiva dos setores cubano-americanos historicamente hostis à Revolução Cubana e defensores da política de bloqueio dos Estados Unidos contra a ilha.
Perez iniciou sua carreira parlamentar em 2017, quando foi eleito deputado estadual pelo distrito 116, na região de Miami. Advogado, formou-se pela Florida State University e concluiu o curso de Direito na Loyola University New Orleans College of Law.
Dentro do Partido Republicano, avançou até assumir a presidência da Câmara estadual. Em 2025, chegou a ser apontado como possível candidato ao cargo de procurador-geral da Flórida, mas permaneceu no comando da Casa.
A indicação de Perez ainda não concluiu sequer a tramitação interna nos Estados Unidos. Ele foi sabatinado pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado em 16 de julho e teve o nome aprovado pela comissão no dia 22, mas ainda depende de votação no plenário.
Pressão ocorre em meio à disputa eleitoral
A tentativa de acelerar a chegada de Perez a Brasília ocorre no mesmo momento em que o governo brasileiro denuncia outras iniciativas de Washington relacionadas ao processo político nacional.
Em 24 de julho, o Itamaraty negou vistos ao secretário-assistente Riley M. Barnes e ao subsecretário-assistente Samuel Samson, dois integrantes do Departamento de Estado que pretendiam viajar ao Brasil.
Os dois foram apontados pelo Washington Post como participantes de uma estratégia para questionar a integridade e a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.
O governo norte-americano nega que os funcionários pretendessem interferir nas eleições. Segundo Washington, a viagem teria como objetivo discutir “integridade eleitoral, liberdade religiosa e liberdade de expressão” com autoridades e representantes da sociedade civil.
A movimentação ocorreu ainda depois de Flávio Bolsonaro (PL), candidato da extrema direita à Presidência, viajar aos Estados Unidos e se reunir com Trump e Rubio. Dias depois, Washington classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Nas semanas seguintes, novas medidas econômicas e diplomáticas foram adotadas contra o Brasil.
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