
A violência contra crianças e adolescentes é percebida como um problema cada vez mais grave pelos brasileiros – mas continua profundamente naturalizada dentro das famílias. A pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância eviolência contra crianças e adolescentes no Brasil”,realizada pela Quaest, a pedido do Instituto Infinis e da Fundação José Luiz Setúbal, mostra que 74% da população acredita que os maus-tratos contra crianças e adolescentes aumentaram nos últimos anos, ao mesmo tempo em que práticas violentas ainda são justificadas como formas legítimas de educação.
Entre o discurso e a prática
Os números revelam um abismo entre o que os brasileiros dizem considerar ideal e o que efetivamente praticam na criação dos filhos. Embora 91% afirmem que conversar e explicar os erros é a melhor forma de educar uma criança, a pesquisa mostra que a violência segue naturalizada em boa parte dos lares: 63% admitem já ter gritado com crianças, enquanto 49% reconhecem já ter dado tapas durante o processo de educação.
Além disso, os números mostram que o castigo físico permanece amplamente aceito: mais da metade da população (56%) considera aceitável que uma criança “apanhe dos pais” quando desobedece e passa dos limites. Outros 37% acham aceitável gritar com crianças, e 35% consideram aceitável ameaçar bater — condutas que, mesmo sem deixar marcas físicas, são reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde e pelo próprio ECA como formas de violência e maus-tratos.
Um ciclo que se repete — mas pode ser rompido
A pesquisa aponta que essa naturalização da violência não pode ser compreendida apenas como uma decisão individual das famílias. O próprio estudo identifica um “ciclo da educação punitiva”, no qual adultos que cresceram submetidos a gritos, ameaças e agressões físicas tendem a reproduzir essas práticas na criação dos próprios filhos.
Ao mesmo tempo, os pesquisadores destacam que essa transmissão não é inevitável. Parte significativa das pessoas rompe esse ciclo, demonstrando que fatores como melhores condições de vida, saúde mental e acesso a políticas públicas de apoio às famílias podem transformar padrões de educação historicamente marcados pela violência.
Sobrecarga de gênero e omissão coletiva
Sob a perspectiva dos direitos humanos, o fenômeno revela um problema estrutural. A reprodução da violência doméstica ocorre em um contexto marcado por desigualdades sociais, insegurança econômica e pela sobrecarga do trabalho de cuidado, historicamente concentrado sobre as mulheres.
O levantamento mostra justamente essa diferença de gênero. As mulheres aparecem praticando mais punições no cotidiano, reflexo da responsabilidade desproporcional pelo cuidado infantil. Já os homens relatam ter apanhado mais durante a infância e demonstram maior adesão à ideia de que punições severas seriam necessárias para educar crianças.
Essa realidade dialoga com outro dado social importante. Segundo levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV-Ibre), o Brasil possui cerca de 11 milhões de mães solo, responsáveis, muitas vezes, por sustentar financeiramente e cuidar sozinhas dos filhos. Em contextos de pobreza, jornadas exaustivas de trabalho e ausência de políticas públicas de apoio à parentalidade, aumentam os fatores de estresse que favorecem a reprodução da violência doméstica.
Outro dado alarmante diz respeito à omissão diante da violência alheia: 62% dos brasileiros afirmam que não fariam nada ao presenciar, na rua, uma criança apanhando ou sendo puxada pela orelha — resultado que a pesquisa atribui tanto ao individualismo quanto ao constrangimento social de intervir em conflitos familiares alheios.
Violência e exclusão caminham juntas
A pesquisa também estabelece relações entre violência, pobreza e exclusão social. Dados do IBGE mostram que 1,6 milhão de crianças e adolescentes estavam em situação de trabalho infantil em 2024, sendo a maioria composta por crianças e adolescentes negros ou pardos. Para especialistas, diferentes formas de violação de direitos — como trabalho infantil, violência doméstica e negligência — compartilham as mesmas raízes estruturais: desigualdade, racismo e insuficiência das políticas de proteção social.
Proteger a infância exige políticas públicas
Garantir uma infância protegida é uma obrigação prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e reconhecida por organismos internacionais como a ONU e o Unicef. O estudo reforça que romper o ciclo da violência exige mais do que responsabilizar famílias individualmente: requer investimento permanente em educação, assistência social, saúde mental, fortalecimento da rede de proteção e políticas públicas que apoiem práticas de parentalidade não violenta.
A pesquisa “Atitudes e percepções sobre a infância e violência contra crianças e adolescentes no Brasil” foi realizada pela Quaest entre 29 de maio e 7 de junho de 2026, com 2.202 entrevistas presenciais em todo o país, margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
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