
Em 2025, ao menos 425 mulheres denunciaram violência por dia no Brasil. O dado, por si só, já revela a dimensão do problema — mas é apenas a ponta de uma crise estrutural que atravessa o país. Ao todo, foram 155.111 denúncias registradas pelo Ligue 180, um crescimento de 17,4% em relação ao ano anterior, dentro de um universo de 1.088.900 atendimentos, alta de 45% e média de 3 mil por dia.
Mais do que um aumento da violência, os números também refletem a ampliação do acesso aos canais públicos de proteção. Ainda assim, escancaram uma realidade persistente onde a violência contra às mulheres segue sendo cotidiana, doméstica e profundamente enraizada nas desigualdades de gênero.
O lar como espaço de risco
Segundo dados divulgados pelo Ministério das Mulheres nesta terça-feira (14), sete em cada dez agressões acontecem dentro de casa. Somando “casa da vítima” e residências compartilhadas com o agressor, o ambiente doméstico concentra 70% dos casos. Longe de ser um espaço de proteção, o lar se consolida como território de risco — onde a violência se repete muitas vezes invisibilizada.
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Essa repetição é comprovada por outro dado preocupante: 31,86% das agressões ocorrem diariamente. Ou seja, milhares de mulheres convivem com ciclos contínuos de violência, frequentemente por longos períodos onde mais de 20% relatam agressões que ultrapassam um ano.
Quem são as mulheres em situação de violência
Como se não bastasse, as agressões também não atingem todas da mesma forma. Mulheres negras representam 43,16% das denúncias com identificação racial, evidenciando o peso do racismo estrutural na exposição à violência.
A faixa etária com maior incidência é a de 40 a 44 anos, seguida por mulheres entre 30 e 39 anos. Trata-se, portanto, de um fenômeno que atravessa a vida adulta, muitas vezes em contextos de longas relações.
Outro ponto relevante é a autonomia na denúncia: 66,3% dos registros foram feitos pelas próprias mulheres, indicando maior conhecimento dos direitos e confiança nos canais públicos — ainda que o medo e a subnotificação continuem sendo barreiras importantes.
Violência psicológica e novas formas de agressão
A forma mais recorrente de violência é a psicológica, que responde por 49,9% dos registros (mais de 339 mil casos). Esse tipo de agressão, muitas vezes naturalizado, inclui ameaças, humilhações e controle emocional — práticas que sustentam o ciclo de violência e dificultam a ruptura.
Outro dado que chama atenção é o crescimento da chamada violência vicária, quando o agressor utiliza filhos ou pessoas próximas para atingir a mulher. Foram 7.064 denúncias em 2025, prática que passou a ser tipificada recentemente na legislação brasileira, ampliando o escopo da proteção legal.
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No total, 75,9% dos casos se enquadram na Lei Maria da Penha, reforçando que a violência doméstica continua sendo o principal eixo dessa crise.
Estado amplica canais, mas desafio permanece
O crescimento dos atendimentos está diretamente ligado ao fortalecimento das políticas públicas. A reestruturação do Ligue 180, com investimento de R$ 84,4 milhões, ampliou o acesso por meio de novos canais, como WhatsApp e atendimento em Libras, além de qualificar o registro e encaminhamento das denúncias.
A integração da rede também avançou: 17 estados e o Distrito Federal já firmaram acordos para agilizar o atendimento e fortalecer a proteção às mulheres.
Essas ações fazem parte de uma agenda mais ampla, que inclui o Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e o Programa Mulher Viver sem Violência, iniciativas que buscam enfrentar o problema de forma estruturada.
Tendência de alta em 2026 acende alerta
Os dados mais recentes indicam que a curva segue em crescimento. No primeiro trimestre de 2026, as denúncias aumentaram 23% em relação ao mesmo período do ano anterior, confirmando uma tendência de alta contínua.
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O cenário impõe um desafio duplo: ampliar ainda mais o acesso aos serviços e, ao mesmo tempo, enfrentar as raízes da violência de gênero. Isso passa por políticas públicas permanentes, educação para igualdade e fortalecimento da rede de proteção. A violência contra mulheres não é um desvio isolado, é uma expressão de desigualdades históricas que exigem resposta coletiva e compromisso do Estado.
Ligue 180 — gratuito, sigiloso, 24h. WhatsApp: (61) 9610-0180 | central180@mulheres.gov.br. Denunciar é um passo essencial para romper o ciclo de violência e garantir direitos.
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com informações do Ministério das Mulheres
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