GARIMPEIROS estariam loteando áreas na Terra Indígena Yanomami após primeiro turno eleitoral na “expectativa de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições presidenciais”, segundo denúncia da Urihi Associação Yanomami. Segundo os indígenas, as ameaças teriam começado após o primeiro turno, realizado em 4 de outubro.
“Informações recentes obtidas na região apontam para um processo de loteamento e negociação de áreas destinadas à exploração mineral ilegal”, alerta o relatório obtido com exclusividade pela Repórter Brasil.
De acordo com Waihiri Hekurari, presidente da associação, os invasores estariam retornando para locais com histórico de garimpo ilegal de ouro e cassiterita, como Xitei e Sucururu. “Os garimpeiros ligaram querendo negociar com as comunidades depois do primeiro turno. A partir de então, entraram no território. Os Yanomami estão desesperados”, alerta.
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O relatório foi encaminhado nesta quinta-feira (22) para a Polícia Federal, Ministério Público Federal, Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) e ao Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis).

“Os garimpeiros também sabem qual é a política da família Bolsonaro a favor da exploração e, desde o resultado do primeiro turno, estão ligando para os jovens nas nossas comunidades dizendo que vão voltar a invadir a nossa terra”, diz uma carta assinada por oito organizações Yanomami.
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Segundo as denúncias, os contatos começaram no início de outubro. Garimpeiros teriam telefonado a indígenas avisando que “vão voltar” para o território e oferecer pagamentos a jovens das comunidades para limpar pistas de pouso, estruturas essenciais à logística da mineração ilegal.
“Depois [do 1º turno] já começaram sobrevôos de aviões com os garimpeiros na Terra Indígena”, alerta Dário Kopenawa, presidente da Hutukara Associação Yanomami, uma das signatárias da carta.
A Repórter Brasil procurou a campanha eleitoral do candidato Flávio Bolsonaro, mas não obteve resposta até a publicação.
Combate ao garimpo ilegal
A TI Yanomami é a maior do Brasil em extensão, com uma área comparável à de Portugal e com algumas áreas acessíveis apenas por via aérea. Desde 2024, 108 pistas de pouso e 64 aeronaves foram destruídas como parte da estratégia para desmantelar a logística do garimpo, 4 delas nos últimos dez dias, segundo levantamento da Casa de Governo Yanomami, estrutura criada pelo governo federal para coordenar as ações de enfrentamento à crise humanitária.
O trabalho de “sufocamento” do garimpo acontece em dois eixos: dentro e fora da Terra Indígena, explica Nilton Tubino, diretor da Casa de Governo. “Várias pistas de pouso foram inutilizadas para tentar bloquear a logística do garimpo”, explica. Leia a nota na íntegra neste link.

Lideranças temem retorno do caos na saúde
Na carta, as oito associações relembram o caos sanitário e as invasões garimpeiras que tomaram o território no governo de Jair Bolsonaro. O receio dos indígenas ouvidos pela reportagem é que a eleição de Flávio impulsione o retorno ao território da crise e das atividades econômicas ilegais.
“Nós não temos partido político, a nossa política é diferente da dos não-indígenas, mas vivemos consequências diretas das políticas de governo executadas por um candidato eleito. Sofremos as trágicas consequências do governo Bolsonaro, entre 2019 e 2022, e choramos muito com as perdas que tivemos”, diz o texto.

Em fevereiro de 2023, a Funai estimava que cerca de 20 mil garimpeiros haviam invadido o território. Entre 2020 e 2022, mais de 1,5 mil pontos de mineração ilegal estavam em operação, segundo o Centro Gestor Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia. No total, 2,2 mil hectares foram devastados nesse período.
“Destruir é rápido, mas consertar é muito difícil. Nós não queremos morrer de novo”, pede Waihiri, da associação Uruhi. Entre 2019 e 2024 ele foi presidente do Conselho Distrital de Saúde Indígena e viu de perto a emergência de saúde no território.
Entre 2019 e 2022, 420 crianças com menos de cinco anos morreram por causas evitáveis, como malária, desnutrição e verminoses. O número de óbitos é quase o dobro em relação aos quatro anos anteriores, de acordo com o Siasi (Sistema de Informação da Atenção à Saúde Indígena, do SUS (Sistema Único de Saúde). Desse total, 47 foram vítimas da malária. Outras 115 estavam desnutridas.

Em janeiro de 2023, o colapso do sistema de saúde levou à declaração de situação de emergência sanitária na TI Yanomami. Desde então, ações de combate às atividades ilegais levaram a uma redução de 95,7% na abertura de novas áreas de garimpo, segundo o Ministério dos Povos Indígenas.
“Hoje as crianças estão na escola, tem merenda natural, os Yanomami estão produzindo suas próprias roças”, conta Carla Yanomami, presidente Associação das Mulheres Yanomami Kumirayoma (AMYK). “A ferida não sarou. Tem marcas sangrentas. Não queremos o filho de Bolsonaro.”
Garimpo é ‘pressão permanente’
A escala do garimpo e a abertura de novas áreas diminuíram desde que o governo implementou uma série de ações de fiscalização no território e em seu entorno a partir de 2023 – com monitoramento de estradas, postos de gasolina e pistas de pouso para interromper o fluxo logístico da atividade ilegal.
Ainda assim, há registros de frentes de garimpo dentro do território Yanomami.
Entre janeiro e agosto de 2026, foram detectados 26 polígonos de desmatamento, que somam 17,6 hectares de garimpo, de acordo com o sistema de alertas da Hutukara Associação Yanomami e do ISA (Instituto Socioambiental).
“Foi feito um bom trabalho de controle, mas o garimpo não foi totalmente neutralizado. Há uma pressão permanente. É preciso pensar em estruturas de proteção e vigilância permanentes”, aponta Estevão Benfica, geógrafo do ISA.
Desde 2025, diz um relatório do ISA e da associação, há um “padrão de reorganização espacial do garimpo”. Ou seja, os garimpeiros passaram a operar em escala reduzida e de maneira mais discreta, com equipamentos menos potentes e sob a copa das árvores. Além disso, houve um deslocamento para áreas próximas à fronteira com a Venezuela e para locais no entorno do território Yanomami.
“Há uma resiliência do garimpo em alguns pontos”, reconhece Nilton Tubino, diretor da Casa de Governo. O alto preço do ouro e da cassiterita, minério abundante no território, é um incentivo para a permanência dos garimpeiros, à revelia das ações de fiscalização diárias, explica.
A cotação média do grama do ouro, por exemplo, chegou a R$ 747 até outubro de 2026, mais do que o dobro do preço médio de 2020 (R$ 295). “É um incentivo alto para essa atividade. É preciso ter uma estrutura de pronta resposta para segurar esse assédio que vai ser crescente”, alerta Benfica.

“Eles [garimpeiros] começaram a vender frango e muitos Yanomami se alegraram à toa”, contou Sônia, que também mora na região. “Eu não quero que meu filho cresça para depois ser ameaçado e assassinado”.
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