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Ex-secretário do RJ indicado por Flávio Bolsonaro é preso por ligações com CV

A Polícia Federal prendeu, na manhã desta segunda-feira (9), Alessandro Pitombeira Carracena, ex-secretário estadual de Esportes do Rio de Janeiro, em operação que investiga um núcleo criminoso suspeito de articular favorecimentos ao tráfico internacional de drogas. A ação, batizada de Operação Anomalia, expõe uma rede de conexões entre agentes públicos e a facção Comando Vermelho.

A prisão do ex-secretário estadual aprofundou a crise política envolvendo o entorno do governo do Rio de Janeiro. O caso ganha contornos políticos adicionais ao se revelar que Carracena foi indicado ao governador Claudio Castro (PL) pelo senador Flavio Bolsonaro (PL-RJ). A indicação, feita em 2023, coloca sob desconfiança os critérios de nomeação para cargos no governo fluminense e reacende o debate sobre a permeabilidade do Estado a influências criminosas.

Entre os presos está também o delegado federal Fabrizio José Romano. Segundo os investigadores, o grupo teria estruturado uma associação criminosa que intermediava favores, pagamentos em dinheiro e acesso a informações privilegiadas dentro do aparelho de Estado. Carracena e advogados atuariam como intermediários para negociar benefícios ilegais destinados ao delegado da Polícia Federal em troca de informações internas e influência institucional.

As apurações também apontam a participação de um indivíduo com histórico criminal que atuaria como facilitador político em Brasília, ampliando o alcance do esquema.

Os investigados poderão responder por associação criminosa, corrupção ativa e passiva, tráfico de influência e lavagem de dinheiro, dependendo do grau de participação identificado nas investigações.

Indicação política e vínculos com o bolsonarismo

A trajetória política de Carracena ajuda a dimensionar o peso do caso no cenário fluminense.

Ele foi secretário municipal de Ordem Pública durante a gestão de Marcelo Crivella na prefeitura do Rio de Janeiro e, posteriormente, secretário estadual de Esporte e Lazer no governo de Cláudio Castro.

Segundo relatos políticos e registros da época, sua nomeação ao governo estadual ocorreu por indicação do senador Flávio Bolsonaro, aliado central da base bolsonarista no estado. Carracena assumiu a pasta após a saída de um outro nome ligado ao grupo político do senador.

À época, Flávio Bolsonaro negou ter feito a indicação direta, afirmando que teve poucos contatos com o ex-secretário.

Vazamento de informações e influência política

A prisão desta segunda-feira ocorre quando Carracena já estava detido desde 2025 em decorrência de outra investigação.

Em apurações conduzidas anteriormente pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, ele foi citado em mensagens interceptadas que indicariam interlocução com integrantes da facção Comando Vermelho.

Outra linha da investigação aponta que informações sobre possíveis operações policiais em comunidades do Complexo do Alemão e da Maré teriam sido compartilhadas com integrantes do tráfico.

Segundo os investigadores, conversas recuperadas sugerem pedidos de intermediação junto ao tráfico para recuperar veículos roubados em comunidades dominadas pela organização criminosa.

Na troca de mensagens, o ex-deputado Thiego Raimundo de Oliveira Santos, o “TH Joias”, também preso na operação, atua como ponte: “Carracena pediu esse favor. Esses dois carros. Um na NH e outro Manguinhos”, escreveu. O traficante responde: “Ver exato onde tá cada um. Mando devolver agora”. Para investigadores, a facilidade com que o pedido foi atendido sugere relação de confiança entre Carracena e a facção.

Vazamento de informações operacionais

As apurações apontam ainda que Carracena teria vazado informações sobre operações policiais no Complexo do Alemão. Em conversas interceptadas em 31 de janeiro de 2024, o traficante “Índio” afirma ter conversado com o ex-secretário e “batido tudo o que ele falou” — interpretação da PF de que dados sigilosos foram compartilhados.

Dois dias antes, em 29 de janeiro, TH Joias teria informado ao traficante que estava em contato com Carracena para tratar da retirada do Batalhão de Choque da comunidade da Gardênia Azul, na Zona Oeste, substituindo-o por policiais de um batalhão convencional. A PF interpreta a troca como evidência de que o grupo articulava interferência em decisões de segurança pública em benefício do tráfico.

“Nosso irmão, nunca deixou de nos atender”

Em maio de 2024, novas mensagens reforçam a proximidade. Ao comentar sobre Carracena, o traficante “Índio” afirma que o ex-secretário sempre esteve “firme” com a facção. Em mensagens trocadas com o então deputado Thiego Raimundo dos Santos Silva (MDB-RJ), conhecido como “TH Joias”, traficantes chegaram a se referir a Carracena como “nosso irmão” e alguém que “nunca deixou de atender”.

Para procuradores do Ministério Público Federal (MPF), Carracena “transcendeu os limites do exercício lícito da advocacia ao se imiscuir em atividades criminosas”. A acusação é grave: integrar organicamente uma organização criminosa, fornecendo informações estratégicas sobre operações policiais — conduta incompatível com qualquer função pública ou exercício profissional legítimo.

A indicação de Flávio Bolsonaro e os critérios de nomeação

O elo político do caso reside na indicação de Carracena a Claudio Castro por Flávio Bolsonaro. A proximidade com a base bolsonarista no Rio teria sido determinante para sua ascensão.

A revelação de supostos vínculos com o Comando Vermelho levanta questionamentos sobre os mecanismos de due diligence adotados pelo governo fluminense para selecionar ocupantes de cargos estratégicos. Se confirmadas as acusações, o caso expõe não apenas uma falha individual, mas uma vulnerabilidade sistêmica: a possibilidade de que indicações políticas, sem critérios técnicos ou de idoneidade robustos, abram portas para a infiltração de interesses criminosos no aparelho estatal.

Em nota, a defesa de Carracena repudiou as acusações, argumentando que a prisão foi fundamentada “exclusivamente em mensagens trocadas entre terceiros, localizadas no celular do deputado TH Joias, nas quais o nome de Carracena é mencionado, sem qualquer indício concreto de envolvimento em atos ilícitos”. A defesa também afirmou não ter tido acesso aos autos do processo, o que, segundo os advogados, agravaria “a evidente violação de garantias constitucionais e do devido processo legal”.

Operação Anomalia e o contexto da ADPF 635

A prisão de Carracena integra a força-tarefa Missão Redentor II, criada em cumprimento à decisão do STF na ADPF 635, que determina ações para proteger populações de favelas contra abusos policiais e, simultaneamente, combater o crime organizado. A operação cumpre quatro mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão no Rio de Janeiro, além de medidas cautelares como afastamento de funções públicas.

O caso Carracena não é isolado. Ele se insere em um padrão preocupante de permeabilidade entre estruturas estatais e organizações criminosas no Rio de Janeiro — padrão que a ADPF 635 busca enfrentar. Mas, mais do que reprimir, é preciso prevenir.

A indicação de cargos por critérios estritamente políticos, sem avaliação rigorosa de idoneidade e histórico, cria brechas que podem ser exploradas por grupos ilegais. Quando um ex-secretário de Estado é acusado de integrar uma facção e vazar informações operacionais, não se trata apenas de um desvio individual: é um sintoma de que os mecanismos de controle e seleção precisam ser reforçados.

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