A frase “nunca na história deste país” teve, em 2006, um dos seus momentos mais emblemáticos. Naquele ano, Lula caminhava para o fim do seu primeiro mandato com a tranquilidade de ter construído legado irreparável: Bolsa Família, Prouni, Farmácia Popular, Fome Zero. O Brasil avançava a passos largos e a possibilidade de reeleição era tratada como certa.
Meses antes de ser avaliado pelas urnas, em abril, o então (e hoje novamente) presidente ainda anunciaria uma outra conquista: a autossuficiência nacional na produção de petróleo, algo que só ocorreu porque nos três anos anteriores o governo elevou significativamente os investimentos em exploração e produção (E&P), visando o aumento da capacidade produtiva, incentivou a compra de navios e plataformas produzidos no Brasil, e investiu em complexos de refino para aumentar a produção interna de combustíveis e derivados.
Tudo isso, somado ao fato de o Brasil ainda contar naquela época com a BR Distribuidora, fazia com que o preço médio da gasolina abaixo dos R$ 3,00 e do diesel abaixo dos R$ 2,00. A imagem de Lula com as mãos suas de óleo, na bacia de Campos (RJ), entrava para a história não apenas pela qualidade técnica, mas sobretudo como símbolo do avanço e da soberania nacional.
Em julho de 2006, a descoberta do pré-sal não deixava mais dúvidas de que o futuro estava só começando.
Daí veio o golpe…
Os avanços seguiram em ritmo acelerado no segundo mandato de Lula, até 2010, e com Dilma nos anos seguintes. E poderia ter ido mais longe não fosse o golpe parlamentar ilegal contra a então presidenta em 2016. Foi a partir dali, pelas mãos de Michel Temer, que a Petrobras passou por uma ruptura estratégica profunda.
A nova orientação priorizou a redução do endividamento e a concentração de investimentos em exploração e produção no pré-sal, especialmente em águas profundas e ultraprofundas, em detrimento do modelo histórico de empresa integrada de energia. Essa mudança foi acompanhada por um amplo programa de desinvestimentos, que incluiu a venda de ativos considerados “não essenciais”, como redes de gasodutos, distribuidoras, campos maduros e subsidiárias em diferentes segmentos.
Até 2022, esse processo atingiu proporções expressivas: levantamentos indicam que a estatal vendeu cerca de R$ 243 bilhões a R$ 280 bilhões em ativos no período, por meio de dezenas de transações. A maior parte dessas vendas ocorreu durante o governo Jair Bolsonaro, responsável por mais de 60% do total negociado.
Esse movimento incluiu setores estratégicos como transporte e logística (NTS e TAG), distribuição (BR Distribuidora), refino, fertilizantes, petroquímica e energias renováveis, indicando uma reconfiguração estrutural da companhia e redução de sua presença em diversas etapas da cadeia produtiva.
Paralelamente, a estratégia empresarial passou a privilegiar ativos de maior rentabilidade imediata, especialmente no pré-sal, enquanto áreas como refino, biocombustíveis e energia eólica perderam espaço. Dados mostram, por exemplo, a venda de ativos de renováveis e a diminuição da participação da empresa nesse segmento, além da alienação de campos terrestres e em águas rasas, reforçando a concentração produtiva.
Esse redirecionamento teve impactos mais amplos sobre o perfil econômico da companhia. Ao mesmo tempo em que a Petrobras registrava lucros elevados nos anos recentes, impulsionados pelo foco em ativos mais rentáveis e pelo cenário internacional de preços, também apresentou níveis relativamente baixos de investimento em comparação a outras grandes petroleiras globais.
Esse processo caracteriza um desmonte da lógica integrada da estatal e uma transferência de ativos e renda para o setor privado.
A nova crise do combústivel
A nova alta dos combustíveis no governo Lula tem origem imediata no cenário internacional. As tensões geopolíticas, sobretudo a guerra injustificável dos EUA e Israel contra o Irã, elevaram o preço do petróleo no mercado global, pressionando diretamente países como o Brasil, que ainda depende da importação de diesel e derivados.
Mas essa é apenas uma das partes do problema. As mudanças feitas na Petrobras fizeram com que o país perdesse parte da capacidade de amortecer choques internacionais. Hoje, mesmo quando há redução de preços nas refinarias, isso nem sempre chega ao consumidor, já que o mercado está mais fragmentado e com maior presença de importadores e intermediários.
Diante desse cenário, o governo Lula tem adotado medidas para conter a alta. Entre elas estão a redução de impostos sobre o diesel, subsídios temporários e iniciativas para incentivar o refino no país. Essas ações buscam segurar os preços no curto prazo e evitar impactos mais amplos na economia, especialmente no transporte e nos alimentos.
Ao mesmo tempo, o governo tenta retomar algum controle sobre o setor, intervindo em leilões e freando aumentos considerados excessivos. Ainda assim, enfrenta limitações estruturais herdadas dos anos anteriores, que reduziram o papel direto da Petrobras no mercado. O desafio, agora, é equilibrar preços mais estáveis com a reconstrução da capacidade de atuação da estatal no longo prazo. Lula já avisou que fará o que for possível para que a estatal volte a servir aos interesses do povo brasileiro e não de acionistas ou do mercado externo.
com as mãos cheias de óleo, em visita à produção na plataforma de petróleo P-50 na bacia de Campos (norte do Rio de Janeiro), ele a auto-suficiência brasileira
A auto-suficiência foi conquistada no mesmo dia em que o petróleo chegou a US$ 75,17 na Bolsa Mercantil de Nova York, um novo recorde histórico.
Repetindo um ato do ex-presidente Getúlio Vargas, em 1952, Lula molhou as mãos no óleo e imprimiu as marcas em um macacão de funcionário da Petrobras.
O presidente da Petrobras, José Sérgio Gabrielli, informou que a empresa não deverá baixar os preços dos combustíveis no mercado interno nem descolá-los complemente dos valores internacionais devido à conquista da auto-suficiência.
Ele disse, entretanto, que o país terá uma folga maior para administrar as oscilações dos preços do barril do petróleo no mercado internacional.

