
Uma greve geral e uma onda de manifestações paralisaram as principais cidades da Bolívia em resposta às medidas do governo de Rodrigo Paz.
Fernando Alves | Redação
INTERNACIONAL – Uma greve geral com uma onda de grandes manifestações vem sacudindo as principais cidades da Bolívia em um clima de revoltas radicais contra a política de retrocessos do governo de Rodrigo Paz. As mobilizações ocorrem por causa das políticas neoliberais que atacam os direitos da população. Há anos, o país vive diante de enormes instabilidades políticas e está mergulhado em uma grave crise econômica. Embora seja um país muito rico, a realidade para a população – composta em sua maioria de camponeses e indígenas pobres, é muita adversidade, com pobreza e superexploração.
Rodrigo Paz assumiu o governo em novembro de 2025 e já implantou medidas que retiraram direitos e impuseram grandes prejuízos à população do país. Com a retirada dos subsídios dos combustíveis, ocorreu um aumento imediato dos preços dos bens de consumo essenciais (alcançando até o dobro do valor), gerando desabastecimento e agravando a crise econômica. Os primeiros protestos foram organizados pelos trabalhadores dos transportes, com uma greve geral em todo o país.
Outra medida que mexeu com a maioria da população foi a tentativa de revogação da Reforma Agrária de 1953, que garantia aos camponeses e povos indígenas pequenas propriedades rurais e terras comunitárias. No início de maio, os protestos dessas comunidades, juntamente com importantes categorias de trabalhadores urbanos, além dos estudantes, bloquearam os acessos à capital, La Paz, e a El Alto, próximas à região andina, deixando essas cidades sitiadas. O mesmo ocorreu depois em Potosí, Oruro e Cochabamba.
As capitais La Paz e Sucre estão há 20 dias sem coleta de lixo e na última semana de maio os motoristas de transporte público aderiram em massa à greve.
Tradição de lutas
Com um movimento popular organizado e forte, a Bolívia tem uma longa tradição histórica de resistência contra dezenas de golpes militares fascistas, enfrentando, de cabeça erguida, as mais duras batalhas contra a repressão e as intervenções imperialistas.
Chama a atenção a unidade de luta de diferentes categorias da classe trabalhadora urbana, do campeonato, dos movimentos de moradia e dos povos indígenas, que são a maioria do povo boliviano. Em 2025, a maioria da população não participou ou não votou no atual presidente pela falta de uma candidatura que representasse as pautas dos trabalhadores bolivianos.
O governo respondeu com muita repressão. Para isso, em sessão virtual, o Senado boliviano anulou as restrições de intervenção das Forças Armadas nos conflitos, permitindo ao governo declarar o Estado de Sítio. O deputado Carlos Alarcon, da base governista, afirmou: “A partir de agora, os grupos violentos que se atribuem a representação do povo terão um limite porque as Forças Armadas terão maior capacidade de ação”.
Em 22 de maio, a situação se agravou ainda mais e os conflitos escalaram, com manifestantes ocupando dezenas de prédios públicos na capital e aumentando o número de bloqueios. Em poucos dias, foram registrados cerca de 60 pontos de bloqueios de estradas.
A Central Operária Boliviana (COB), somada a milhares de agricultores, dezenas de sindicatos e organizações populares, mantém firmes as ações de combate ao governo e suas políticas antipopulares. Os bolivianos exigem a renúncia de Rodrigo Paz da Presidência e eleições em 90 dias.
EUA ameaçam intervenção
Com o respaldo político dos presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e da Argentina, Javier Millei, o governo de Rodrigo Paz tenta ganhar tempo. O secretário de Estado estadunidense Marco Rúbio ameaçou que seu governo pode intervir na Bolívia, declarando a velha retórica de suposto combate ao narcotráfico, caso “criminosos e traficantes de drogas derrubem líderes democraticamente eleitos”.
Por outro lado, a situação de instabilidade na Bolívia compromete a estratégia traçada por Donald Trump de que os Estados Unidos voltem a ter pleno controle da América Latina, incluindo o controle de matérias-primas essenciais, como gás, petróleo e terras raras, de que a Bolívia possui abundantes reservas. Dessa maneira, mantém governos aliados e submissos aos interesses estadunidenses e reduz a influência do imperialismo chinês na região.
Por outro lado, o governo brasileiro manifestou uma posição subserviente, declarando “solidariedade ao governo boliviano” e chamando ao diálogo. Nas redes digitais, o presidente Lula ainda anunciou o envio de um avião em apoio ao governo de Rodrigo Paz. Argentina e Equador também adotaram posturas semelhantes. Segundo lideranças sociais bolivianas esses aviões estão sendo usados para enviar material para a polícia e o exército reprimir as manifestações populares.
É possível derrotar o imperialismo
Os protestos radicais na Bolívia são mais uma demonstração de que a política de intervenção militar, as ameaças de golpes e de desestabilização de governos não alinhados à Casa Branca pode ser barrada. A resistência do povo iraniano contra os ataques militares fascistas de Israel e dos Estados Unidos – diferentemente do que ocorreu na Venezuela – comprova que a luta pela autodeterminação, com organização e mobilização popular, em defesa da soberania e de combate à tirania é capaz de derrotar as ameaças e os ataques das potências capitalistas contra as nações.
Uma possível derrubada do governo Rodrigo Paz no coração da América Latina devolve esperanças a um povo tão explorado quanto o povo boliviano e abre caminho para a retomada de importantes lutas em curso no continente. É um exemplo para aqueles que acham fundamental lutar.
Matéria publicada na edição impressa nº 335 do jornal A Verdade

