
A Polícia Federal que Andrei Rodrigues comandou de janeiro de 2023 até o afastamento preventivo determinado nesta terça-feira (8) alterou o critério de balanço em relação ao período Bolsonaro: passou a contabilizar apenas bens e valores efetivamente apreendidos, e não pedidos de bloqueio judicial lançados como se já fossem patrimônio retirado das facções.
Sob os quatro diretores-gerais que efetivamente chefiaram a Polícia Federal no governo Bolsonaro ( Maurício Valeixo, Rolando Alexandre de Souza, Paulo Maiurino e Márcio Nunes de Oliveira ), os relatórios oficiais operaram com o que a Agência Pública chamou de balanço turbinado: pedidos de bloqueio judicial entram na conta como se já fossem patrimônio retirado das facções.
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Foi assim que a corporação da gestão Bolsonaro anunciou R$ 10 bilhões em apreensões em 2020 e que o relatório de gestão de 2022 chegou a computar 27 mil operações naquele ano.
Já pela régua que a PF passou a adotar no governo Lula – só o efetivamente apreendido: imóvel, veículo, aeronave, espécie, cripto, a descapitalização real de 2022 do crime organizado “mal chegou à casa dos R$ 900 milhões”, afirmou Andrei Rodrigues, em entrevista à Conjur, o em junho.
Sob esse método rigoroso e com a orientação de atacar o andar de cima, a descapitalização imposta ao crime no governo Lula saltou de menos de R$ 1 bilhão em 2022 para R$ 3 bilhões em 2023, atingindo entre R$ 5,6 bilhões e R$ 6,5 bilhões em 2024 e R$ 9,5 bilhões em 2025. O total acumulado supera R$ 16 bilhões em três anos, além de 52 mil prisões e 80 mil indiciamentos. A Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) expandiu de 27 para 33 bases.
Interferências de Bolsonaro na Superintendência do Rio de Janeiro
A dinâmica de trocas no comando da Polícia Federal durante a gestão de Jair Bolsonaro não seguiu a critérios técnicos. O caso mais emblemático foi em agosto de 2019, com o anúncio da substituição do superintendente da PF no Rio de Janeiro, Ricardo Saadi, alegando razões de produtividade. No mesmo dia, a própria corporação emitiu nota informando que a alteração já estava prevista e não guardava relação com desempenho da gestão. Mas, como se viu adiante com o aprofundamento da crise na área de Segurança Pública, com as investigações no Rio de Janeiro sobre o clã Bolsonaro.
Em abril de 2020, a exoneração do diretor-geral Maurício Valeixo motivou a demissão do então ministro da Justiça, Sergio Moro. Na ocasião, Moro afirmou publicamente que a Presidência buscava relatórios diretos de inteligência e acesso a informações sobre inquéritos em andamento no Supremo Tribunal Federal. A nomeação subsequente de Alexandre Ramagem para o cargo foi suspensa por decisão liminar do STF, fundamentada em desvio de finalidade.
Depoimentos prestados no âmbito do inquérito sobre interferência na corporação apontaram a existência de apurações na Superintendência do Rio de Janeiro que envolviam familiares do ex-presidente, incluindo investigações eleitorais sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O processo sobre a conduta presidencial foi encerrado sem imputação penal.
Investigações e desdobramentos recentes
Na gestão de Andrei Rodrigues, a Polícia Federal concluiu relatórios que resultaram em indiciamentos relacionados ao uso indevido da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), atingindo o vereador Carlos Bolsonaro (PL-RJ) e o deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ). Também foram finalizados inquéritos sobre a entrada de joias do acervo privado e os atos de 8 de janeiro.
Ao determinar tempestivamente o afastamento do diretor-geral Andrei Rodrigues e do diretor de Inteligência, Leandro Almada, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça, mais do que invadir prerrogativa exclusiva do Executivo, retoma a prática que alimenta a impunidade no Brasil: retirar agentes policiais que estão cumprindo o dever de investigar doa suspeitos doa a quem doer.
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